 SARA  SHEPARD
                                                TRADUO
                                        FAL AZEVEDO
ROCCO
JOVENS LEITORES
Para ALI
Ttulo original
PERFECT
A Pretty Little Liars Novel
Copyright (c) 2007 by Alloy Entertainment e Sara Shepard
Todos os direitos reservados; nenhuma parte desta obra pode ser reproduzida, sob
qualquer forma, sem a permisso do editor.
Direitos para a lngua portuguesa reservados
com exclusividade para o Brasil 
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Printed in Brazil/Impresso no Brasil
preparao de originais
AMANDA ORLANDO
CIP-Brasil Catalogao na fonte.
Sindicato Nacional dos Editores de Livros, RJ.
S553p     Shepard, Sara,  1977-
Perfeitas / Sara Shepard; - traduo de Fal Azevedo
Rio de Janeiro: Rocco Jovens Leitores, 2011 - Primeira edio.
(Pretty little liars; v.3)
Traduo de: Perfect - a pretty little liars novel
ISBN 978-85-7980-062-7
1. Amizade - Literatura infantojuvenil. 2. Segredo - Literatura infantojuvenil.
3. Conduta - Literatura infantojuvenil. 4. Fico policial norte-americana.
5. Literatura infantojuvenil norte-americana I. Azevedo, Fal, 1971-.
II. Ttulo. III. Srie
10-6535                        CDU - 087.5                CDD - 028.5
Procure e achars - o que no  procurado,
no ser encontrado.
                - SFOCLES
MANTENHA SEUS AMIGOS 
POR PERTO...
Voc j teve alguma amiga que tenha dado as costas para voc? Totalmente transformada, de algum que voc conhecia, em... outra pessoa? No estou falando sobre seu 
namorado do jardim de infncia, que cresceu e virou um esquisito feioso e cheio de espinhas, ou da sua amiga do acampamento, com quem voc no tinha assunto quando 
ela lhe fez uma visita no Natal, ou mesmo uma garota da sua galera, que, de uma hora para a outra, sai do grupo e vira gtica ou ento uma dessas naturebas radicais. 
No. Estou falando sobre sua alma gmea. A garota sobre quem voc sabe tudo. A garota que sabe tudo sobre voc. Um belo dia, ela aparece e  uma pessoa bem, bem 
diferente.
        Bem, isso acontece. Isso aconteceu em Rosewood.
- Cuidado, Aria. Seu rosto vai ficar paralisado desse jeito. - Spencer Hastings abriu um picol Popsicle de laranja e colocou na boca. Ela estava falando sobre o 
olhar enviesado de pirata bbado que sua melhor amiga, Aria Montgomery, estava fazendo enquanto tentava acertar o foco de sua Sony Handycam.
        -Voc parece minha me falando, Spencer. - Emily Fields riu, ajeitando a camiseta que mostrava um pintinho de olhos esbugalhados e dizia FRANGUINHA NADADORA 
INSTANTNEA!  S ADICIONAR GUA! As amigas haviam proibido Emily de usar camisetas com dizeres idiotas sobre natao.
        - Idiota nadadora instantnea!  s adicionar perdedor! - brincou Alison DiLaurentis, quando Emily chegou.
        - Sua me tambm diz isso? - perguntou Hanna Marin, jogando fora o palito esverdeado do Popsicle. Hanna sempre comia mais rpido que as outras. - Seu rosto 
vai ficar paralisado desse jeito! - imitou.
        Alison olhou Hanna de cima a baixo e gargalhou:
        - Sua me deveria ter avisado a voc que sua bunda poderia ficar paralisada desse jeito!
        Hanna ficou lvida e ajeitou a camiseta de listras brancas e cor-de-rosa - que ela havia pegado emprestada de Ali e que vivia revelando uma faixa branca 
de sua barriga. Alison deu um toque de leve na canela de Hanna, com sua rasteirinha.
        -  brincadeira.
        Era uma sexta-feira  noite do ms de maio, perto do final do stimo ano, e um grupo de amigas ntimas -Alison, Hanna, Spencer, Aria e Emily - estava reunido 
na pomposa sala de estar da casa de Spencer, com uma caixa de Popsicle, uma garrafa grande de Dr. Pepper diet sabor cereja com baunilha, com seus telefones celulares 
largados na mesinha de centro. Um ms antes, Ali tinha ido para a escola com um celular LG flip novinho, e as outras correram no mesmo dia para comprar um igual. 
Todas elas tinham porta-celulares de couro rosa tambm, para combinar com o de Ali - bem, todas menos Aria, cujo porta-celular cor-de-rosa era feito de l. Ela mesma 
o tricotara. 
        Aria moveu a alavanca da cmera para a frente e para trs para ajustar o zoom.
        - E, de qualquer forma, meu rosto no vai ficar paralisado desse jeito. Estou me concentrando em focar direito essa tomada. Isso vai ficar para a posteridade. 
Para quando ficarmos famosas.
        -  Bem, ns todas sabemos que eu vou ficar famosa. - Alison jogou os ombros para trs e virou a cabea de lado, deixando  mostra seu pescoo de cisne.
        - Por que voc vai ficar famosa? - provocou Spencer, parecendo mais malvada do que provavelmente queria soar.
        -Vou ter meu prprio programa de televiso.Vou ser uma Paris Hilton mais inteligente e mais bonita.
        Spencer bufou. Mas Emily fez um biquinho com os lbios plidos, refletindo a respeito e Hanna acenou com a cabea, concordando. Aquela era Ali. Ela no ficaria 
ali em Rosewood, Pensilvnia, por muito tempo. Claro, Rosewood era glamourosa sob qualquer aspecto - todos os moradores pareciam modelos de passarela prontos para 
uma sesso de fotos para a revista Town & Country - mas todos sabiam que Ali estava destinada a coisas maiores.
        Ela as tinha tirado do anonimato, um ano e meio atrs, tornando-as suas melhores amigas. Com Ali ao seu lado, elas haviam se tornado as garotas de Rosewood 
Day, a escola particular que frequentavam. Elas se tornaram to poderosas que decidiam quem era descolado e quem no era, davam as melhores festas, pegavam os melhores 
lugares na sala de estudos, concorriam ao grmio estudantil e venciam por um nmero de votos avassalador. Bem, essa ltima parte s se aplicava a Spencer. Apesar 
de enfrentarem alguns altos e baixos - e de, acidentalmente, terem cegado Jenna Cavanaugh, coisa na qual elas tentavam ao mximo no pensar -, as vidas delas haviam 
se transformado de tolerveis em perfeitas.
        - E se ns filmssemos um talk show? - sugeriu Aria. Ela se considerava a cineasta oficial do grupo. Uma das coisas que queria ser quando crescesse era o 
prximo Jean-Luc Godard, um desses diretores franceses abstratos. -Ali, voc  a celebridade. E, Spencer, voc  a entrevistadora.
        - Eu serei a maquiadora - ofereceu-se Hanna, remexendo em sua mochila para encontrar a bolsinha de maquiagem de vinil estampada com bolinhas.
- Eu serei a cabeleireira. - Emily ajeitou o cabelo louro-avermelhado atrs das orelhas e foi para perto de Ali. -Voc tem um cabelo maravilhoso, chrie - elogiou, 
fingindo um sotaque francs.
        Ali tirou o Popsicle da boca.
        - Chrie no quer dizer namorada?
        As outras comearam a rir, mas Emily empalideceu.
        - No, isso  petite amie. - Ultimamente, Em andava meio sensvel em relao s piadas de Ali. Ela no costumava ser assim.
        - Ok. -Aria certificou-se de que a cmera estava ajustada. - Esto prontas, meninas?
        Spencer se jogou no sof e colocou na cabea uma tiara de diamantes falsos que sobrara da ltima festa de Ano-Novo. Ela carregara aquilo a noite toda.
        -Voc no pode usar isso - rosnou Ali.
        - Por que no? - Spencer tinha ajeitado a tiara na cabea, e ela parecia uma coroa.
        - Porque no. Se fosse o caso, eu seria a princesa.
        - Por que voc sempre  a princesa? - disse Spencer entre os dentes. As outras meninas se agitaram. Spencer e Ali no andavam se dando muito bem, e ningum 
sabia por qu.
        O telefone de Ali fez um barulhinho. Ela o alcanou, abriu-o e o virou de forma que ningum conseguisse ler a mensagem.
        - Que adorvel. - Seus dedos voavam no teclado conforme ela digitava o texto.
        - Para quem voc est escrevendo? - A voz de Emily soou baixa e frgil, como uma casquinha de ovo.
        - No posso contar. Desculpe. - Ali no ergueu os olhos. 
        -Voc no pode contar? - Spencer estava furiosa. - O que voc quer dizer com no poder contar? 
        Ali deu uma olhada para ela.
        -  Sinto muito, princesa. Voc no tem que ser informada sobre tudo. - Ali fechou o telefone e o colocou no assento do sof de couro.- No comece a filmar 
ainda,Aria, preciso fazer xixi. - Ela saiu rapidinho da sala, e seguiu para o banheiro, jogando o palito do Popsicle no lixo no caminho.
        Assim que elas ouviram a porta do banheiro bater, Spencer foi a primeira a falar.
        -Vocs simplesmente no desejam mat-la, de vez em quando?
        As outras hesitaram. Elas nunca falavam mal de Ali. Era uma blasfmia to grande quanto queimar a bandeira oficial de Rosewood Day dentro do terreno da escola. 
Ou admitir que Johnny Depp no era assim to gato, mas, na verdade, meio velho e esquisito.
        Claro, em particular, a histria era outra. Naquela primavera, Ali no havia estado muito presente. Ela tinha ficado mais prxima das meninas do ensino mdio, 
que faziam parte do time de hquei e nunca convidava Aria, Emily, Spencer ou Hanna para almoar com elas ou para irem ao shopping King James.
        E Ali comeou a ter segredos. Mensagens de texto, telefonemas e risadinhas secretos sobre coisas que no lhes contava. Elas haviam entregado suas almas a 
Ali - contando para ela coisas que no tinham contado para as outras, coisas que elas no queriam que ningum soubesse - e esperavam reciprocidade. Ali no havia 
feito com que todas prometessem que iriam contar umas s outras tudo, absolutamente tudo, at o final dos tempos?
        As garotas odiavam pensar em como seria o oitavo ano se as coisas continuassem daquele jeito. Mas isso no significava que odiavam Ali.
        Aria enrolou uma mecha de cabelo comprido e escuro em um dos dedos e deu uma risada nervosa.
        - Mat-la por ela ser to linda, talvez. - Aria apertou um boto na cmera, ligando-a.
        - E porque ela veste tamanho trinta e quatro - acrescentou Hanna.
        -  Foi isso que eu quis dizer - Spencer deu uma olhada para o telefone de Ali, que estava preso entre duas almofadas do sof. - Querem ler as mensagens dela?
        - Eu quero - sussurrou Hanna.
        Emily levantou-se de seu assento no brao da poltrona.
        - Eu no sei... - Ela comeou a se afastar devagarinho do telefone de Ali, como se o simples fato de estar perto do aparelho j a incriminasse.
        Spencer pegou o celular de Ali. Olhou com curiosidade para a tela em branco.
        - Ah, vai! Vocs no querem saber quem mandou a mensagem para ela?
        -  Provavelmente, foi  s  a Katy - sussurrou  Emily, referindo-se a uma das amigas de hquei de Ali. -Voc deveria coloc-lo onde estava, Spence.
        Aria tirou a cmera do trip e foi na direo de Spencer. 
        -Vamos ver.
        Elas se reuniram em torno do aparelho. Spencer abriu o telefone e apertou um boto.
        - Est bloqueado.
        -Voc sabe a senha dela? - perguntou Aria, ainda filmando.
        - Tente o aniversrio dela - sussurrou Hanna. Ela tirou o telefone da mo de Spencer e mexeu nos botes. A tela no mudou. - O que eu fao agora?
        Elas ouviram a voz de Ali antes de v-la.
        - O que vocs esto fazendo?
        Spencer jogou o telefone de Ali de volta no sof. Hanna deu um passo para trs de forma to abrupta que bateu a canela na mesa de centro.
        Ali atravessou a porta da sala de estar pisando duro, com as sobrancelhas unidas.
        -Vocs estavam xeretando o meu telefone?
        - Claro que no! - gritou Hanna.
        - Estvamos - admitiu Emily. Aria a fuzilou com o olhar e depois se escondeu atrs da lente da cmera.
        Mas Ali no estava mais prestando ateno. A irm mais velha de Spencer, Melissa, um pouco mais velha que elas, j no ensino mdio, apareceu de repente na 
cozinha da famlia Hastings, vinda da garagem. Ela carregava uma sacola de comida para viagem do Otto, um restaurante na vizinhana dos Hastings. Seu adorvel namorado, 
Ian, estava com ela. Ali se endireitou. Spencer alisou o cabelo louro-escuro e arrumou a tiara.
        Ian entrou na sala de estar.
        - Ei, garotas.
        -  Oi - cumprimentou Spencer, em voz alta. - Como vai, Ian?
        - Estou bem. - a rapaz sorriu para Spencer. - Bonita coroa.
        -  Obrigada! - Ela piscou algumas vezes, com os clios negros.
        Ali revirou os olhos.
        - Seja um pouco mais bvia - cantarolou ela por entre os dentes.
        Mas era difcil no ter uma paixonite por Ian. Ele tinha cabelo louro e encaracolado, dentes brancos e perfeitos e olhos azuis surpreendentes, e nenhuma 
delas podia se esquecer de um jogo de futebol recente, no qual ele trocara de camisa no intervalo e, por cinco gloriosos segundos, elas tiveram a viso de seu peito 
nu. Era quase uma certeza universal que tanta beleza estava sendo desperdiada do lado de Melissa, que era uma grande puritana e agia de forma muito parecida com 
a sra. Hastings, a me de Spencer.
        Ian se jogou no sof perto de Ali.
        - E ento, o que vocs, meninas, esto fazendo?
        - Ah, nada de mais. - Aria ajustava o foco da cmera. - Estamos fazendo um filme.
        - Um filme? - Ian pareceu divertir-se. - Posso participar?
        -  Claro - respondeu Spencer, depressa. Ela se jogou no sof do outro lado de Ian.
        Ele sorriu para a cmera.
        - E a, quais so as minhas falas?
        -  um talk show - explicou Spencer. Ela deu uma olhadinha para Ali, para conferir a reao dela, mas Ali no respondeu.- Eu sou a entrevistadora.Voc e 
Ali so meus convidados. Vou pegar voc primeiro.
        Ali deixou escapar um riso sarcstico e as bochechas de Spencer ficaram cor-de-rosa, no mesmo tom que sua camiseta Ralph Lauren. Ian fingiu no perceber.
        - Tudo bem. Ento, vamos  entrevista.
        Spencer se sentou direito no sof, cruzando suas pernas musculosas como uma apresentadora de televiso. Pegou o microfone cor-de-rosa do aparelho de karaok 
de Hanna e o segurou prximo ao queixo.
        - Bem-vindos ao Spencer Hastings Show. Minha primeira pergunta ...
        - Pergunte quem  o professor preferido dele em Rosewood - pediu Aria.
        Ali se empertigou. Seus olhos azuis faiscaram.
        - Essa  uma boa pergunta para voc, Aria. Voc deveria perguntar a ele se quer ter um encontro com alguma de suas professoras. Em um estacionamento vazio.
        O queixo de Aria caiu. Hanna e Emily, que estavam de p ao lado do aparador, trocaram um olhar confuso.
        - Todas as minhas professoras so horrorosas - disse Ian devagar, sem se dar conta do que estava acontecendo.
        - Ian, voc pode, por favor, ajudar aqui? - Melissa fez uma barulheira de loua batendo na cozinha.
        - S um segundo - gritou Ian de volta.
        - Ian. - Melissa parecia chateada.
        - Tenho uma. - Spencer colocou o cabelo atrs das orelhas. Ela estava adorando o fato de que Ian estava prestando mais ateno nela do que em Melissa. - 
O que voc vai ganhar de presente de formatura?
        - Ian - chamou Melissa entre os dentes. Spencer deu uma olhadela para a irm, atravs das portas duplas de vidro que davam para a cozinha. A luz da geladeira 
projetava uma sombra no rosto dela. - Eu... preciso... de... ajuda.
        -  Fcil - respondeu Ian, ignorando a namorada. - Quero uma aula de base jumping.
        - Base jumping? - perguntou Aria. - O que  isso?
        -  pular de paraquedas do alto de um prdio - explicou Ian.
        Enquanto Ian contou a histria de Hunter Queenan, um de seus amigos que tinha experimentado base jumping, as meninas se inclinaram para a frente com voracidade. 
Aria focou a cmera no maxilar de Ian, que parecia talhado em pedra. Os olhos dela passaram um momento por Ali. Ela estava sentada perto de Ian, fitando o espao. 
Ali estava entediada? Era provvel que ela tivesse coisas melhores para fazer - era possvel que aquela mensagem de texto tivesse sido sobre seus planos com suas 
glamourosas amigas mais velhas.
        Aria olhou de novo para o telefone de Ali, que estava na almofada do sof, perto do brao dela. O que estava escondendo delas? No que ela estava metida?
        Vocs no desejam simplesmente mat-la de vez em quando? A pergunta de Spencer danava na mente de Aria enquanto Ian tagarelava sem parar. L no fundo, ela 
sabia que todas se sentiam da mesma forma. Seria melhor se Ali apenas... sumisse, em vez de deix-las.
        - Ento, Hunter disse que foi a maior emoo da vida dele ter praticado base jumping - terminou Ian. - Melhor do que tudo na vida. Inclusive sexo.
        - Ian... - advertiu Melissa.
        -  Isso parece inacreditvel. - Spencer olhou para Ali, do outro lado de Ian. - No ?
        - . - Ali parecia com sono, quase como se estivesse em transe. - Inacreditvel.
O resto da semana foi um borro: exames finais, planejamento de festas, mais noites passadas nas casas umas das outras e mais tenso. E, ento, na noite do ltimo 
dia do stimo ano, Ali desapareceu. Simples assim. Num minuto ela estava ali, no outro... havia sumido.
        A polcia passou um pente fino em Rosewood atrs de pistas. Eles interrogaram as meninas em separado, perguntando se Ali vinha agindo de forma estranha ou 
se alguma coisa fora do normal tinha acontecido nos ltimos dias. Todas elas pensaram muito sobre isso, com muita seriedade. A noite em que ela desapareceu havia 
sido estranha: Ali estivera hipnotizando as meninas e depois saiu correndo do celeiro, aps uma briguinha estpida com Spencer sobre as cortinas e simplesmente... 
no voltara mais. Mas tinha havido outras noites estranhas? A noite em que tentaram ler as mensagens de texto de Ali, mas no por muito tempo - depois que Ian e 
Melissa foram embora, Ali voltara a agir de forma normal. Elas fizeram um concurso de dana e cantaram no karaok de Hanna.As mensagens misteriosas no telefone de 
Ali foram esquecidas.
        Depois disso, os policias perguntaram se elas achavam que algum prximo a Ali poderia querer machuc-la. Hanna,Aria e Emily pensaram na mesma coisa: Vocs 
no desejam simplesmente mat-la de vez em quando?, as palavras duras de Spencer. Mas no. Ela estava brincando. No estava?
        - Ningum queria machucar Ali - afirmou Emily, afastando aquela preocupao da cabea.
        -  Claro que no - Aria tambm respondeu, num outro interrogatrio, desviando os olhos do policial corpulento sentado perto dela no balano da varanda.
        - Eu acredito que no - disse Hanna quando foi perguntada, brincando, distraidamente, com a pulseira azul-clara que Ali havia feito para elas depois do acidente 
de Jenna. - Ali no era assim to prxima de muitas pessoas. S da gente. E ns a amvamos demais.
        Claro, Spencer parecia bem brava com Ali. Mas, na verdade, l no fundo, no estavam todas? Ali era perfeita - linda, inteligente, sexy, irresistvel - e 
estava abandonando as amigas. Talvez elas a odiassem por causa disso. Mas aquilo no significava que alguma delas queria que Ali sumisse.
        Bem,  incrvel o que a gente no enxerga. Mesmo o que est bem diante dos nossos olhos.
1
O TRABALHO DURO DE SPENCER
 RECOMPENSADO
Spencer Hastings deveria estar dormindo s seis e meia da manh de uma segunda-feira. Em vez disso, estava sentada na sala de espera azul e verde da terapeuta, sentindo-se 
um pouco como se estivesse presa dentro de um aqurio. Sua irm mais velha, Melissa, estava sentada em uma poltrona esmeralda na sua frente. Melissa ergueu os olhos 
de seu livro Princpios dos mercados emergentes - ela fazia MBA na Universidade da Pensilvnia - e deu a Spencer um sorriso maternal.
        - Eu sinto que vejo tudo de forma to mais clara desde que comecei a ver a dra. Evans - ronronou Melissa, cuja consulta era logo depois da consulta de Spencer. 
-Voc vai ador-la. Ela  inacreditvel.
                Claro que ela  inacreditvel, pensou Spencer, com rancor. Melissa acharia incrvel qualquer um que quisesse ouvi-la por uma hora inteira, sem interrupes.
- Mas ela pode ser um pouco dura com voc, Spencer - alertou Melissa, fechando o livro. - Ela vai dizer coisas sobre voc mesma que voc no quer ouvir.
        Spencer se ajeitou na poltrona.
        - Eu no tenho seis anos de idade. Posso suportar crticas. 
        Melissa levantou as sobrancelhas para Spencer, indicando com clareza que no tinha tanta certeza disso. Spencer se escondeu atrs de sua revista Filadlfia, 
imaginando por que estava aqui. A me de Spencer, Vernica, havia marcado uma consulta para ela com a terapeuta - a terapeuta de Melissa - depois que a antiga amiga 
de Spencer, Alison DiLaurentis, fora encontrada morta e que Toby Cavanaugh havia se suicidado. Spencer suspeitava que essa consulta tambm era um jeito de descobrir 
o porqu de ela ter se envolvido com Wren, o namorado de Melissa. Mas Spencer estava indo bem, apesar de tudo. De verdade. E uma consulta com a terapeuta de sua 
pior inimiga no era a mesma coisa que ter uma consulta marcada com o cirurgio plstico de uma garota feia? Spencer temia a possibilidade de sair de sua primeira 
sesso de terapia com a sade mental equivalente a peitos horrorosamente falsos e tortos.
        Bem nessa hora, a porta do consultrio se abriu e uma mulher pequena e loura, usando culos de casco de tartaruga, uma tnica preta e calas da mesma cor, 
colocou a cabea para fora da sala.
        - Spencer? - chamou a mulher. - Sou a dra. Evans. Pode entrar.
        Spencer entrou com passos largos no consultrio da dra. Evans, que era simples e claro, misericordiosamente diferente da sala de espera. Tinha um sof de 
couro preto e uma poltrona de couro cinza. Em cima de uma escrivaninha grande havia um telefone, uma pilha de envelopes de papel pardo, uma luminria pescoo de 
ganso e um daqueles pssaros de brinquedos que tombam por causa de seu peso e parecem beber gua, que o sr. Craft, o professor de cincias, adorava. A dra. Evans 
se ajeitou na poltrona de couro e fez um gesto para que Spencer se sentasse no sof.
        - Ento - comeou a dra. Evans, assim que elas estavam confortveis -, ouvi muitas coisas sobre voc.
        Spencer franziu o nariz e deu uma olhada na direo da sala de espera.
        - De Melissa, imagino.
        - De sua me. - A dra. Evans abriu um caderno de anotaes vermelho na primeira pgina. - Ela disse que sua vida andou um pouco confusa, especialmente nos 
ltimos tempos.
        Spencer olhou fixamente para a ponta da escrivaninha, perto do sof, onde havia uma bombonire com doces, uma caixa de Kleenex -  claro - e um tabuleiro 
de Resta Um. Costumava haver um jogo desses na sala de recreao da casa dos DiLaurentis; Ali e ela completaram um desses uma vez, o que significava que as duas 
eram gnios.
        - Acho que estou lidando bem com a situao - murmurou ela. - No estou, tipo, pensando em me matar nem nada.
        - Uma amiga prxima morreu. Um vizinho tambm. Isso deve ser duro.
        Spencer deitou a cabea no encosto do sof e olhou para cima. A massa fina cheia de irregularidades fazia com que o teto parecesse ter acne. Era bem provvel 
que ela precisasse falar com algum - no podia falar com sua famlia sobre Ali, Toby ou os recados assustadores que vinha recebendo do perseguidor, conhecido apenas 
como A. E suas antigas amigas... elas a estavam evitando desde que ela admitira que Toby sempre soubera que elas haviam cegado sua meia-irm, Jenna - um segredo 
que escondera delas durante trs longos anos.
        Mas trs semanas j haviam se passado desde o suicdio de Toby e quase um ms se passara desde que os operrios desenterraram o corpo de Ali. Spencer estava 
conseguindo lidar com tudo aquilo, na maior parte, porque A tinha desaparecido. Ela no recebia nenhum recado desde a Foxy, o grande baile beneficente de Rosewood. 
Primeiro, o silncio de A fez Spencer ficar impaciente - talvez aquela fosse a calmaria que antecede o furaco -, porm, conforme o tempo foi passando, ela comeou 
a relaxar. Suas unhas bem-feitas no ficavam mais cravadas nas palmas de suas mos. Comeou a dormir com o abajur apagado novamente. Tinha tirado um dez na ltima 
prova de clculo e um nove no trabalho sobre A Repblica, de Plato. Seu rompimento com Wren - que havia dispensado Spencer para ficar com Melissa, que, por sua 
vez, havia dispensado Wren - j no doa tanto, e sua famlia voltara  desateno cotidiana. Mesmo a presena de Melissa - ela estava passando um tempo com a famlia 
enquanto um pequeno exrcito reformava seu apartamento na Filadlfia - era quase tolervel, na maior parte do tempo.
        Talvez o pesadelo tivesse acabado.
        Spencer mexeu os dedos dos ps dentro das botas de pelica bege, que iam at os joelhos. Mesmo que se sentisse  vontade o suficiente para falar com a dra. 
Evans sobre A, aquela era uma conversa sem sentido. Por que discutir sobre A, se A desaparecera?
        -  duro, mas Alison j estava desaparecida havia anos. Eu segui em frente - declarou Spencer, por fim.Talvez a dra. Evans entendesse que ela no ia falar 
nada e terminasse a sesso mais cedo.
        A terapeuta anotou alguma coisa no caderno. Spencer se perguntou o que seria.
        - Tambm ouvi dizer que voc e sua irm estavam tendo problemas com um namorado.
        Spencer ficou indignada. Ela s conseguia imaginar uma verso caluniosa de Melissa sobre o fiasco de Wren - que provavelmente inclua Spencer lambendo chantlly 
direto do abdome de Wren, na cama de Melissa, enquanto a irm assistia  cena do outro lado da janela, sem poder fazer nada a respeito.
        - No foi nada de mais - resmungou ela.
        A dra. Evans deixou os ombros carem e deu a Spencer o mesmo tipo de olhar voc no me engana que sua me costumava lhe dar.
        - Ele era namorado da sua irm primeiro, no era? E voc se encontrou com ele pelas costas dela?
        Spencer trincou os dentes.
        -  Olha, eu sei que foi errado, certo? Eu no preciso de outro sermo.
        A dra. Evans a encarou.
        - Eu no vou lhe passar um sermo. Talvez... - Ela colocou a mo no queixo. -Talvez voc tivesse suas razes.
        Spencer arregalou os olhos. Ela tinha escutado bem? A dra. Evans estava mesmo sugerindo que Spencer no era cem por cento culpada de tudo? Quem sabe cento 
e setenta e cinco dlares por consulta no fosse um preo to absurdo assim, afinal.
        -Voc e sua irm passam algum tempo juntas? - perguntou a dra. Evans, depois de alguns instantes.
        Spencer pegou um chocolatinho Kiss, da Hershey's, na bombonire. Desembrulhou o doce com a longa tira prateada, alisou o restante do embrulho na palma da 
mo e colocou o chocolate na boca.
        - Nunca. A no ser que estejamos com nossos pais. Mas, de qualquer forma, Melissa no fala comigo. Tudo o que ela faz  se gabar na frente dos meus pais 
sobre suas conquistas e sobre a reforma chatssima em seu apartamento. - Spencer encarou a dra. Evans. - Acho que voc sabe que nossos pais compraram um apartamento 
para ela, em Old City, de presente s porque ela se formou na faculdade.
        -  Eu sei. - Conforme a dra. Evans se espreguiou, dois braceletes prateados escorregaram at seu cotovelo - Assunto fascinante.
        E, ento, ela deu uma piscadela.
        Spencer achou que seu corao ia explodir dentro do peito. Pelo jeito, a dra. Evans, assim como Spencer, no dava a mnima sobre as qualidades do sisal comparadas 
com as da juta. Yes!
        Elas conversaram por mais algum tempo. Spencer estava gostando cada vez mais daquilo e, ento, a dra. Evans indicou o relgio decorado com detalhes de Os 
relgios derretidos, de Salvador Dali, que ficava pendurado sobre a escrivaninha, para mostrar que o tempo delas havia terminado. Spencer se despediu e abriu a porta 
do consultrio, esfregando a cabea como se a terapeuta a tivesse aberto para consertar o que havia de errado em seu crebro. A coisa toda no havia sido o tormento 
que ela pensou que seria.
        Ela fechou a porta do consultrio e se virou. Para sua surpresa, sua me estava sentada em uma poltrona verde-clara, ao lado de Melissa, lendo Main Line, 
uma revista de decorao.
        - Me. - Spencer franziu a testa. - O que voc est fazendo aqui?
        Vernica Hastings parecia ter vindo direto dos estbulos da famlia. Vestia uma camiseta Petit Bateau, um jeans skinny e suas surradas botas de montaria. 
Havia at mesmo um pouco de feno em seu cabelo.
        - Tenho novidades - informou ela.
        Tanto a senhora Hastings quanto Melissa tinham expresses muito srias em seus rostos. Spencer sentiu uma fisgada. Algum tinha morrido. Algum - o assassino 
de Ali - havia matado de novo. Talvez A tivesse voltado. Por favor, no, pensou ela.
        -  Recebi uma ligao do sr. McAdam. - A sra. Hastings ficou de p. O sr. McAdam era o professor de economia avanada de Spencer. - Ele queria conversar 
sobre um trabalho que voc escreveu h algumas semanas. - Ela deu um passo mais para perto, o perfume de seu Chanel N. 5 fazendo ccegas no nariz de Spencer. - 
Spence, ele quer indicar voc para o Orqudea Dourada.
        Spencer deu um passo para trs.
        -  Orqudea Dourada?
        O Orqudea Dourada era o prmio de maior prestgio no pas, o Oscar dos trabalhos do ensino mdio. Se ela vencesse, seria matria de capa das revistas People 
e Time. As universidades de Yale, Harvard e Stanford implorariam para que se matriculasse. Spencer acompanhava o sucesso de ganhadores do Orqudea Dourada como outras 
pessoas seguiam as vidas das estrelas de cinema. A vencedora do Orqudea Dourada de 1988 agora era editora chefe de uma revista de moda muito famosa. O vencedor 
da edio de 1994 tinha se tornado congressista aos 28 anos.
        -  isso mesmo. - A me das meninas abriu um sorriso deslumbrante.
        - Ah, meu Deus. - Spencer achou que ia desmaiar. Mas no de excitao, e sim de pavor. O trabalho que ela entregara no era dela; era de Melissa. Spencer 
estava correndo contra o tempo para dar conta de suas tarefas e A sugeriu que ela "pegasse emprestado" um trabalho antigo da irm. Tanta coisa havia acontecido nos 
ltimos dias que Spencer havia apagado aquilo de sua mente.
        Ela estremeceu. O sr. McAdam - ou Lula Molusco, como todo mundo o chamava - adorava Melissa na poca em que ela era aluna dele. Como  que ele podia no 
se lembrar dos trabalhos de sua queridinha, em especial, se eles eram to bons?
        A me agarrou seu brao e ela estremeceu. As mos da me estavam sempre frias como as de um cadver.
        - Estamos to orgulhosos de voc, Spence!
        Spencer no conseguia controlar os msculos em volta da boca. Ela tinha que esclarecer aquilo tudo antes que a coisa piorasse.
        - Me, eu no posso...
        Mas a sra. Hastings no estava escutando.
        -  Eu j telefonei para a Jordana, do jornal Philadelphia Sentinel. Voc se lembra da Jordana? Ela costumava usar os cavalos de nossos estbulos para fazer 
aulas de equitao. De qualquer forma, ela est empolgada. Ningum desta regio jamais havia sido indicado. Ela quer escrever um artigo sobre voc!
        Spencer piscou. Todo mundo lia o Philadelphia Sentinel.
        - A entrevista e a sesso de fotos j esto marcadas. -A sra. Hastings fez um movimento rpido, erguendo sua enorme bolsa colorida da Tod e balanando as 
chaves do carro. -Quarta-feira, depois da escola. Eles vo providenciar um estilista. Tenho certeza de que Uri ir cuidar de seus cabelos.
        Spencer estava com medo de olhar a me nos olhos, ento, fixou o olhar na pilha de revistas da sala de espera - uma coleo de revistas como New Yorker e 
The Economist, e um grande livro de contos de fadas que oscilava em cima de uma pilha de Lego. Ela no podia contar para a me que tinha roubado o trabalho - no 
agora. E no era como se ela fosse ganhar o Orqudea Dourada, de qualquer forma. Centenas de pessoas eram indicadas, das melhores escolas de todo o pas. Era bem 
provvel que ela no passasse nem na primeira seleo.
        - Est timo - declarou Spencer, s pressas.
        A me saiu da sala de espera. Spencer fez uma pausa por um momento, hipnotizada pelo lobo da capa do livro de contos de fadas. Ela tivera um igual quando 
pequena. O lobo estava usando camisola e touca, olhando de esguelha para uma inocente Chapeuzinho Vermelho loura. A imagem costumava fazer com que Spencer tivesse 
pesadelos.
        Melissa limpou a garganta. Quando Spencer ergueu o olhar, a irm a estava encarando.
        - Parabns, Spence - disse Melissa, calma - O Orqudea Dourada. Isso  bem importante.
        - Obrigada - agradeceu Spencer, sem pensar. Havia uma expresso sinistramente familiar no rosto de Melissa. E, ento, Spencer se deu conta: Melissa estava 
igualzinha ao Lobo Mau.
2
APENAS OUTRO DIA CHEIO
DE TENSO SEXUAL EM
INGLS AVANADO
Aria Montgomery sentou-se para a aula de ingls na segunda de manh, bem na hora em que o ar l fora comeou a cheirar a chuva. O amplificador rangeu, e todos na 
classe olharam para o pequeno alto-falante no teto.
        - Ol, galera! Aqui  a Spencer Hastings, sua vice-representante de turma! - a voz de Spencer soou alta e clara. Ela parecia desenvolta e confiante, como 
se tivesse feito um curso de oratria. - Quero lembrar a todos que os Rosewood Hammerheads vo competir com os Eels, a equipe de natao da Drury Academy.  a maior 
competio da temporada, ento, vamos todos mostrar esprito de equipe e aparecer l para apoiar o time! - Houve uma pausa. - Uhul!!
        Uma parte da sala saiu. Aria sentiu um calafrio de desconforto. Apesar de tudo o que havia acontecido - o assassinato de Alison, o suicdio do Toby, A - 
Spencer era a presidente ou a vice de todos os clubes e associaes que havia por ali. Mas, para Aria, a animao de Spencer soava... falsa. Ela tinha visto um lado 
de Spencer que as outras no conheciam. Spencer sabia h anos que Ali tinha ameaado Toby Cavanaugh para mant-lo calado sobre o acidente da Jenna, e Aria no podia 
perdo-la por esconder delas um segredo to perigoso.
        - Muito bem, turma - disse Ezra Fitz, o professor de ingls avanado de Aria. Ele continuou a escrever A Letra Escarlate na lousa com sua caligrafia angular 
e, ento, sublinhou quatro vezes as palavras.
        - Na obra prima de Nathaniel Hawthorne, Hester Prynne trai seu marido, e a cidade a fora a usar um enorme, vermelho e constrangedor A em seu peito, como 
lembrana do que ela havia feito. - O sr. Fitz virou-se para a turma e empurrou seus culos para cima do nariz curvado. - Algum se lembra de outras histrias que 
tenham como tema a desonra? Sobre pessoas que so ridicularizadas ou expulsas por seus erros?
        Noel Kahn levantou a mo e seu relgio Rolex de corrente escorregou pelo pulso.
        - Pode ser aquele episdio do The Real World no qual os colegas da repblica votaram para a menina bizarra ir embora?
        A sala toda riu, e o sr. Fitz pareceu perplexo.
        - Pessoal, esta , supostamente, uma aula de ingls avanado. - O professor se virou para fileira de Aria: - Aria? E voc? Alguma ideia?
        Aria hesitou. Sua vida era um bom exemplo. No muito tempo atrs, ela e sua famlia viviam harmoniosamente na Islndia, Alison no estava oficialmente morta 
e A no existia. Mas, ento, numa horrvel sucesso de eventos que comeara seis semanas antes, Aria voltou para a escola de Rosewood, o corpo de Ali foi encontrado 
embaixo da laje de concreto atrs da casa onde ela morava, e A revelou o grande segredo da famlia Montgomery: que o pai de Aria, Byron, havia trado sua me, Ella, 
com uma de suas alunas, Meredith. Essa revelao foi um golpe para Ella, que imediatamente colocou Byron para fora de casa. O fato de Ella ter descoberto que Aria 
guardou o segredo sobre Byron por trs anos no ajudou muito. A relao entre me e filha no andava exatamente as mil maravilhas desde ento.
        Claro, poderia ter sido pior. Aria no tinha recebido nenhum texto de A nas ltimas trs semanas. Embora Byron supostamente estivesse morando com Meredith, 
pelo menos Ella havia voltado a falar com Aria. E Rosewood no tinha sido invadida por aliengenas ainda, embora, depois de todas as coisas estranhas que aconteceram 
naquela cidade, Aria no teria ficado surpresa se isso tivesse acontecido.
        - Aria? - insistiu Fitz. - Alguma ideia? 
        Mason Byers veio em socorro de Aria:
        - Que tal a histria de Ado e Eva com a serpente?
        -  timo - elogiou o professor, distrado. Os olhos dele ficaram pousados em Aria por um momento antes de seguir para outro lugar. Aria sentiu uma sensao 
quente de excitao. Ela tinha ficado com o sr. Fitz - Ezra - no Snooker, um bar frequentado pelo pessoal da universidade, antes que qualquer um dos dois soubesse 
que ele seria seu novo professor de ingls avanado. Foi ele quem terminou com ela e, logo depois, Aria descobriu que ele tinha uma namorada em Nova York. Mas ela 
no guardou mgoa. As coisas iam bem com seu novo namorado, Sean Ackard, que era um doce e, por acaso, tambm era bonito.
        Alm do mais, Ezra era o melhor professor de ingls que ela j tivera. No primeiro ms de aula, ele j havia indicado quatro livros incrveis e encenado 
uma comdia baseada em The Sandbox, de Edward Albee. Em breve, a classe iria fazer uma interpretao de Medeia - a pea grega na qual a me mata os prprios filhos, 
no estilo Desperate Housewives. Ezra queria que eles pensassem fora dos padres, e fora dos padres era o forte de Aria. Agora, em vez de cham-la de "Finlndia", 
seu colega de classe Noel Kahn tinha dado a ela um novo apelido: "Queridinha do Professor". Era bom estar animada com a escola de novo, apesar de tudo, e s vezes 
ela nem se lembrava que as coisas com Ezra tinham sido complicadas um dia.
        At que ele lhe lanou um sorriso sedutor, claro. Ento, Aria no pde evitar a empolgao. Mesmo que tenha sido uma empolgaozinha.
        Hanna Marin, que sentava bem em frente a Aria, levantou a mo.
        - Pode ser aquele livro em que duas garotas so as melhores amigas, mas ento, de repente, uma delas fica malvola e rouba o namorado da outra?
        Ezra coou a cabea.
        - Desculpe... eu no acho que tenha lido esse livro. 
        Aria cerrou os punhos. Ela sabia o que Hanna quisera dizer.
        - Pela ltima vez, Hanna, eu no roubei o Sean de voc! Vocs... dois... j... tinham... terminado!
        A sala inteira explodiu numa gargalhada. Os ombros de Hanna ficaram rgidos.
        - Algum  muito egocntrica - murmurou ela para Aria, sem se virar. - Quem disse que eu estava falando de voc?
        Mas Aria sabia que ela estava. Quando Aria voltou da Islndia, ficou impressionada ao ver que Hanna tinha mudado da escrava gorducha e desengonada de Ali, 
para uma deusa magra, bonita, que usava roupas de alta-costura. Parecia que Hanna tinha tudo que sempre quisera: ela e sua melhor amiga, Mona Vanderwaal - tambm 
uma esquisitona transformada -mandavam na escola, e Hanna tinha at conseguido ficar com Sean Ackard, o menino de quem ela era a fim desde o sexto ano. Aria s tinha 
dado em cima de Sean depois de ouvir que Hanna o tinha largado. Mas ela logo descobriu que havia sido o contrrio.
        Aria tinha esperana de que ela e suas antigas amigas pudessem ser um grupo unido outra vez, especialmente porque todas tinham recebido mensagens de A. Mas 
elas no estavam nem se falando - as coisas tinham voltado para o mesmo ponto em que estavam naquelas semanas estranhas e cheias de preocupao, depois do desaparecimento 
de Ali. Aria nem tinha contado a elas o que A fizera  sua famlia. A nica ex-amiga com quem Aria ainda tinha algum contato era Emily Fields, mas suas conversas, 
na maioria das vezes, giravam em torno das lamentaes de Emily sobre se sentir culpada pela morte de Toby, at que Aria tinha finalmente insistido que no era culpa 
dela.
        - Bem, de qualquer forma - Ezra colocou cpias de A Letra Escarlate na frente de cada fileira, para que os livros fossem distribudos -, quero que todos 
leiam do captulo um ao cinco essa semana e faam um trabalho de trs pginas sobre qualquer assunto que tenham encontrado no comeo do livro para sexta-feira. Certo?
        Todos grunhiram e comearam a conversar. Aria colocou o livro dentro da sua bolsa de pelo de iaque. Hanna estendeu o brao para pegar sua bolsa do cho. 
Aria tocou o brao fino e branquinho de Hanna.
        - Olha, eu sinto muito. De verdade.
        Hanna puxou o brao, apertou os lbios e, sem falar nada, enfiou seu A Letra Escarlate na bolsa. Ele ficou entalado, e ela grunhiu de frustrao.
        Comeou a tocar msica clssica no alto-falante, indicando que a aula havia acabado. Hanna se levantou como se a carteira estivesse pegando fogo. Aria levantou-se 
lentamente, guardando a caneta e o caderno na bolsa e encaminhando-se para. a porta.
        -Aria.
        Ela se virou. Ezra estava debruado em sua mesa de carvalho com sua velha maleta de couro cor de caramelo apertada contra o quadril.
        - Tudo bem? - perguntou ele.
        - Desculpe por tudo isso - disse ela. - Hanna e eu estamos temos algumas desavenas. No acontecer novamente.
        -  Sem problemas. - Ezra abaixou sua caneca de ch. - Todo o resto est bem?
        Aria mordeu o lbio e pensou em contar a ele o que estava acontecendo. Mas, por qu? Pelo que ela sabia, Ezra era um fraco, como seu pai. Se ele realmente 
tinha uma namorada em Nova York, ento ele a havia trado ao ficar com Aria.
        - Est tudo bem - ela conseguiu dizer.
        - Bom.Voc est fazendo um timo trabalho na aula. - Ele sorriu, mostrando dois dos dentes inferiores, adoravelmente encavalados.
        - Sim. Eu estou gostando muito. - Aria deu um passo em direo  porta. Mas, ao faz-lo, tropeou nas suas botas de saltos finos superaltos, indo parar na 
mesa de Ezra. Ezra segurou a cintura dela e a puxou para cima... e para perto dele. O corpo dele era quente e seguro, e ele cheirava bem - a pimenta em p, cigarro 
e livros velhos.
        Aria se afastou depressa.
        -Voc est bem? - perguntou Ezra.
        - Sim. - Ela se ocupou arrumando o blazer do uniforme da escola. - Desculpe.
        - No tem problema. - Ezra enfiou as mos nos bolsos da jaqueta. - Ento... at mais.
        - Sim. At logo.
        Aria saiu da sala com a respirao acelerada. Talvez ela estivesse louca, mas estava certa de que Ezra a havia segurado um segundo a mais do que o necessrio. 
E ela tinha certeza de que havia gostado.
3
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Durante o tempo livre na segunda-feira de manh, Hanna Marin e sua melhor amiga, Mona Vanderwaal, estavam sentadas num canto da Steam, o caf de Rosewood Day, fazendo 
o que sabiam fazer melhor: fofocando sobre pessoas que no eram to fabulosas quanto elas.
        Mona cutucou Hanna com a ponta do seu biscoito coberto de chocolate. Para Mona, comida era mais um acessrio do que algo com que se alimentar.
        - Jennifer Feldman tem umas toras, no tem?
        -  Pobrezinha. - Hanna fingiu sentir pena. Taras era o termo que Mona usava para pernas grossas: coxas slidas e sem forma, e canelas sem linhas dos joelhos 
ao tornozelo.
        - E os ps dela parecem salsichas estufadas brotando dos calcanhares! - gralhou Mona.
        Hanna deu uma olhada quando Jennifer, que estava no time de mergulho, pendurou um cartaz na parede dos fundos da cafeteria, onde se lia COMPETIO DE NATAO 
AMANH! ROSEWOOD DAY HAMMERHEADS CONTRA DRURY ACADEMY EELS! OS tornozelos dela eram mesmo horrorosamente grossos.
        -  nisso que d meninas com tornozelos gordos tentarem usar Louboutins - suspirou Hanna. Ela e Mona eram as slfides de tornozelo fino para as quais sapatos 
de Christian Louboutin eram feitos, obviamente.
        Mona tomou um grande gole do seu Americano e sacou sua carteira-dirio, da Gucci, da bolsa Botkier cor de beringela. Hanna acenou com a cabea, em sinal 
de aprovao. Elas tinham outras coisas para fazer naquele dia, alm de criticar as pessoas, como planejar no uma, mas duas festas: uma para elas duas, e a segunda 
para o resto da elite de Rosewood Day.
        - Primeiro as prioridades. - Mona destampou a caneta. - O Amiganiversrio. O que ns deveramos fazer esta noite? Compras? Massagem? Jantar?
        - Tudo - respondeu Hanna. - E ns temos mesmo que passar na Otter, sem falta. - Otter era uma nova butique de alta classe no shopping.
        - Eu estou amando a Otter - concordou Mona.
        - Onde a gente deve jantar? - perguntou Hanna.
        - Rive Gauche, claro - Mona falou por cima do estrondo do moedor de caf.
        -Voc est certa. Eles, definitivamente, vo nos dar vinho.
        -  Ser que ns deveramos convidar os meninos? - Os olhos azuis de Mona brilharam. - Eric Kahn sempre me chama para sair. Talvez o Noel pudesse ser seu 
par?
        Hanna franziu a testa. Apesar de ser bonito, muitssimo rico e parte do supersexy cl dos irmos Kahn, Noel no fazia nem um pouco o seu tipo.
        - Sem meninos - decidiu. - Embora seja muito legal esse negcio do Eric.
        - Este vai ser um fabuloso Amiganiversrio. - Mona deu um sorriso to largo que suas covinhas apareceram. - Voc consegue acreditar que  o nosso terceiro?
        Hanna sorriu. O Amiganiversrio marcava o dia em que Hanna e Mona tinham falado no telefone por trs horas e meia - o indicador bvio de que eram melhores 
amigas. Embora elas se conhecessem desde o jardim da infncia, nunca tinham conversado antes do teste para lder de torcida, algumas semanas antes do primeiro dia 
do oitavo ano. Naquela poca, Ali estava desaparecida havia dois meses e as velhas amigas de Hanna haviam se tornado muito distantes, ento ela decidira dar uma 
chance a Mona. Valeu a pena - Mona era engraada, sarcstica, e apesar de sua queda por mochilas de animais e scooters Razor, ela devorava a Vogue e a Teen Vogue 
em segredo, to apaixonadamente quanto Hanna. Em algumas semanas, elas decidiram ser melhores amigas e transformar-se nas meninas mais conhecidas da escola. E olha 
s. Agora elas eram.
        - Agora, para o grande plano. - Mona virou outra pgina do caderno. - Festa de dezessete anos. - Ela cantou o tema de abertura do programa da MTV My Super 
Sweet Sixteen.
        -Vai ser demais - disse Hanna.
        O aniversrio de Mona era naquele sbado, e ela j tinha quase todos os detalhes da festa arranjados. Ia ser no planetrio da Hollis, onde havia telescpios 
em todos os cmodos, at mesmo nos banheiros. Tinha contratado um DJ, buf, uma escola de circo - de forma que os convidados poderiam balanar em trapzios, acima 
da pista de dana -, bem como um cinegrafista, que iria filmar a festa e simultaneamente projetar as imagens num telo Jumbotron. Mona havia informado nos convites 
que os convidados deveriam vestir apenas roupas formais e que, se algum aparecesse usando jeans ou camisetas da Juicy, os seguranas iam mand-los embora sem muita 
educao.
        - Ento, eu estava pensando... - Mona enfiou um guardanapo dentro da xcara de caf vazia. -  meio de ltima hora, mas eu vou ter uma corte.
        -  Uma corte? - Hanna levantou uma das sobrancelhas perfeitamente feita.
        -  uma desculpa para comprar aquele vestido Zac Posen fabuloso pelo qual voc vive babando na Saks. A prova  amanh. E vamos usar tiaras e fazer os meninos 
se curvarem para ns.
        Hanna segurou uma gargalhada.
        - Ns no vamos fazer uma dana de abertura, n? - Ela e Mona tinham ido  festa de dezesseis anos de Julia Rubenstein, no ano anterior, na qual Julia fizera 
com que as meninas que compunham sua corte danassem uma coreografia com um monte de modelos da D-list. O parceiro de dana de Hanna cheirava a alho e tinha logo 
perguntado a ela se queria se encontrar com ele na chapelaria mais tarde. Ela passara o resto da festa fugindo dele.
        Mona tirou sarro, quebrando seu biscoito em pedacinhos menores.
        - Eu faria uma coisa brega como essa?
        -  Claro que no. - Hanna apoiou o queixo nas mos. - Ento, eu sou a nica menina na corte, certo?
        Mona revirou os olhos.
        -  Claro.
        Hanna deu de ombros.
        - Quer dizer, eu no sei quem mais voc poderia escolher.
        - Ns s precisamos arranjar um acompanhante para voc. - Mona colocou um minsculo pedao de biscoito na boca.
        - No quero que seja ningum de Rosewood Day - disse Hanna rapidamente. - Talvez eu convide algum da Hollis. E eu quero ter mais de um acompanhante. - Os 
olhos dela se acenderam. - Eu poderia ter um monte de rapazes me carregando para todos os lados a noite toda, como Clepatra.
        Mona cumprimentou-a batendo a palma da mo na dela.
        - Agora sim.
        Hanna mastigou a ponta do canudinho.
        - Ser que o Sean vai?
        - No sei. - Mona levantou uma das sobrancelhas. -Voc j superou isso, certo?
        - Claro. - Hanna jogou o cabelo ruivo para trs. A amargura ainda pulsava dentro dela quando pensava em como Sean a tinha largado pela senhorita Aria Montgomery 
sou-alta-demais-e-sou-uma-aluna-de-ingls-puxa-saco-e-acho-que-sou-gostosa-porque-morei-na-Europa, mas no importa. Sean  quem estava perdendo. Agora que os meninos 
sabiam que ela estava sozinha, a caixa de mensagem do BlackBerry de Hanna apitava com convites para encontros potenciais a cada poucos minutos.
        - Bom - falou Mona. - Porque voc  gostosa demais para ele, Han.
        - Eu sei - observou Hanna com sarcasmo, e elas fizeram outro high five. Hanna se recostou na cadeira, sentindo uma sensao clida e segura de bem-estar. 
Era difcil de acreditar que as coisas haviam estado esquisitas entre ela e Mona, um ms antes. Imagine, Mona pensar que Hanna queria ser amiga de Aria, de Emily 
e de Spencer, em vez de amiga dela!
        Tudo bem, Hanna tinha mesmo escondido coisas de Mona, embora ela j tivesse confessado a maioria delas: que de vez em quando ela vomitava, o problema com 
o pai, suas duas prises, o fato de que ela tinha tirado a roupa para Sean na festa do Noel Kahn e que ele a rejeitara. Ela havia contado tudo, preocupada que Mona 
pudesse repudi-la por ter segredos to horrveis, mas Mona tinha levado tudo na boa. Ela disse que toda diva se metia em encrenca de vez em quando, e Hanna decidiu 
que havia apenas exagerado. E da que ela no estava mais com o Sean? E da que ela no falava com o pai desde a Foxy? E da que ela ainda era voluntria na clnica 
de queimados do sr. Ackard para se redimir por ter destrudo o carro dele? E da que suas duas piores inimigas, Naomi Zeigler e Riley Wolfe, sabiam de seus problemas 
com excessos e tinham espalhado rumores sobre ela pela escola? Ela e Mona ainda estavam juntas, e A tinha parado de persegui-la.
        Os alunos comearam a sair da cafeteria, o que significava que o tempo livre estava prestes a terminar. Quando Hanna e Mona passaram pela sada, Hanna se 
deu conta de que elas estavam se aproximando de Naomi e Riley, que estavam escondidas atrs da gigante mquina giratria de Frappuccino. Hanna fechou a boca e tentou 
manter a cabea erguida.
        - Baaaaarf - silvou Naomi no ouvido de Hanna, quando ela passou.
        - Iaaaaac - provocou Riley bem atrs dela.
        - No ligue para elas, Han - disse Mona, bem alto. - Elas esto loucas da vida porque voc cabe naquela cala jeans Rich and Skinny da Otter, e elas no.
        - Tudo bem.- Hanna empinou levemente o nariz.-Alm disso, pelo menos eu no tenho mamilos invertidos.
        A boca de Naomi ficou pequena e tensa.
        - Isso foi por causa do suti que eu estava usando - disse ela, entre os dentes. Hanna tinha visto os mamilos invertidos de Naomi quando elas estavam se 
trocando para a aula de ginstica na semana anterior. Talvez fosse apenas por causa do suti esquisito que ela estava usando, mas sabe de uma coisa? vale tudo no 
amor e na guerra para ser popular.
        Por sobre o prprio ombro, Hanna deu uma olhada orgulhosa e condescendente para Naomi e Riley. Ela se sentiu como uma rainha esnobando duas empregadinhas 
sujas. E ver que Mona estava dando exatamente o mesmo olhar a elas garantiu a Hanna grande satisfao. Era para isso que melhores amigas serviam, afinal de contas.
4
NO  DE ADMIRAR QUE A ME
DE EMILY SEJA TO DURONA
Emily Fields nunca treinava no dia anterior a uma competio, ento foi direto para casa depois da aula e notou trs coisas apoiadas na bancada de granito da cozinha. 
Havia duas toalhas de piscina Sammy azuis para Emily e sua irm Carolyn, bem a tempo para a grande competio contra a Drury no dia seguinte... e havia tambm um 
livro intitulado No  justo - o que jazer quando voc perde seu namorado. Um recado num post-it estava afixado na capa:
        Emily,
        Pensei que voc poderia achar til.
        Volto s seis.
        - Mame.
        Emily virou as pginas, distrada. No muito tempo depois de o corpo de Alison ter sido encontrado, a me de Emily comeara a surpreend-la com pequenos 
presentinhos para alegr-la, como um livro chamado 1001 coisas para faz-la sorrir, um conjunto enorme de lpis de cor Prismacolor, uma morsa de pelcia, pois Emily 
era obcecada por morsas quando era mais nova. Depois do suicdio do Toby, entretanto, sua me tinha apenas dado um monte de livros de autoajuda. A senhora Fields 
parecia achar que a morte do Toby tinha sido mais difcil para Emily do que a de Ali - provavelmente porque pensava que Emily estava namorando Toby.
        Emily afundou na cadeira da cozinha e fechou os olhos. Namorado ou no, a morte de Toby estava mesmo assombrando-a. Toda noite, enquanto se olhava no espelho 
ao escovar os dentes, imaginava ver Toby parado atrs dela. No conseguia evitar pensar na noite desastrosa em que ele a tinha levado  Foxy. Emily havia contado 
a Toby que tinha se apaixonado por Alison, e Toby admitira que estava feliz por Ali estar morta. Naquela hora, Emily teve certeza de que Toby era o assassino de 
Ali e ameaara chamar a polcia. Quando percebeu como estivera errada, era tarde demais.
        Emily ouviu os pequenos rangidos da casa vazia. Ela se levantou, pegou o telefone sem fio na bancada e digitou um nmero. Maya atendeu no primeiro toque.
        -  Carolyn est na Topher - disse Emily, em voz baixa. - Minha me est na reunio de pais. Ns temos uma hora inteirinha.
        - No riacho? - sussurrou Maya.
        - Sim.
        - Seis minutos - declarou Maya. - Cronometre.
        Emily levou dois minutos para sair pela porta dos fundos, correr pelo quintal vasto e escorregadio e se embrenhar no bosque at o riacho escondido. Perto 
da gua, havia uma pedra lisa e plana, perfeita para duas meninas se sentarem. Ela e Maya haviam descoberto esse lugar secreto no riacho duas semanas atrs, e se 
escondiam ali sempre que podiam.
        Em cinco minutos e 45 segundos, Maya apareceu por entre as rvores. Estava linda, como sempre, usava sua camiseta branca lisa, uma minissaia rosa e um tnis 
Puma vermelho. Embora fosse outubro, fazia quase treze graus. Ela tirou o cabelo do rosto, deixando  mostra sua pele cor de caramelo, impecvel.
        -  Oi - gritou Maya, um pouco sem flego. - Menos de seis minutos?
        - Quase - provocou Emily.
        As duas pularam na pedra. Por um segundo, nenhuma das duas falou. Era to mais quieto ali no bosque do que na rua. Emily tentou no pensar em como tinha 
fugido de Toby por aquele mesmo bosque, algumas semanas antes. Em vez disso, se concentrou no modo como a gua espirrava sobre as pedras e em como as folhas das 
rvores comeavam a ficar alaranjadas nas pontas. Ela tinha uma superstio sobre a grande rvore que ela mal conseguia divisar da beirada de seu quintal: se suas 
folhas ficassem amarelas no outono, ela teria um bom ano na escola. Caso ficassem vermelhas, no teria. Mas, naquele ano, as folhas estavam alaranjadas - isso significaria 
um mais ou menos? Emily tinha todos os tipos de supersties. Acreditava que o mundo estava repleto de sinais. Nada era aleatrio.
        - Senti sua falta - sussurrou Maya no ouvido de Emily. - No vi voc na escola hoje.
        Um estremecimento percorreu o corpo de Emily quando os lbios de Maya mordiscaram o lobo de sua orelha. Ela mudou de posio na pedra, movendo-se para mais 
perto de Maya.
        - Eu sei. Fiquei procurando voc.
        -Voc sobreviveu ao laboratrio de biologia? - perguntou Maya, enroscando seu dedinho no de Emily.
        - Uhum. - Emily passou os dedos pelo brao de Maya. - Como foi sua prova de histria?
        Maya enrugou o nariz e balanou a cabea.
        - Isso ajuda? - Emily deu um beijinho em Maya.
        - Voc vai ter que se esforar mais para eu me sentir melhor - disse Maya, sedutora, baixando seus olhos verdes de gato e estendendo a mo para Emily.
        Elas decidiram tentar o seguinte: sentar juntas, saindo sempre que possvel, se tocando, se beijando. Por mais que Emily tentasse apagar Maya de sua vida, 
no conseguia. Maya era maravilhosa, no como seu ltimo namorado, Ben - nada parecida, de fato, com qualquer garoto com quem ela j tivesse sado. Havia algo reconfortante 
sobre estar ali no riacho, com ela ao lado. Elas no estavam apenas juntas - eram tambm melhores amigas. Era assim que um casal deveria ser.
        Quando elas se soltaram, Maya tirou o tnis e enfiou um dedo no riacho.
        - Ns voltamos para nossa casa ontem.
        Emily prendeu a respirao. Depois que os pedreiros tinham achado o corpo de Ali no novo quintal de Maya, os St. Germain haviam se mudado para um hotel, 
para fugir da mdia.
        - ... estranho?
        - Normal. - Maya deu de ombros. - Ah, mas ouve esta. Tem um perseguidor  solta por a.
        -  O qu?
        - Sim, um vizinho estava contando para minha me sobre ele esta manh. Algum correndo pelos quintais das pessoas, espiando pelas janelas.
        O estmago de Emily comeou a doer. Isso tambm a fazia se lembrar de Toby: quando estavam no sexto ano, ele era um garoto estranho, que espiava pela janela 
de todo mundo, especialmente pela de Ali.
        - Um cara? Uma menina? 
        Maya balanou a cabea.
        - No sei. - Ela assoprou a franja encaracolada para cima. - Esta cidade... eu juro por Deus.  o lugar mais estranho do mundo.
        - Voc deve sentir falta da Califrnia - disse Emily baixinho, parando para olhar um bando de pssaros levantar voo de um carvalho prximo.
        - Nem um pouco, na verdade. - Maya tocou a cintura de Emily. - No h Emilys na Califrnia.
        Emily inclinou-se para a frente e beijou Maya suavemente na boca. Elas ficaram com os lbios colados por cinco longos segundos. Ela beijou a orelha de Maya. 
Depois Maya beijou seu lbio inferior. Elas se afastaram e sorriram, o sol da tarde formava belos padres nas bochechas delas. Maya beijou o nariz de Emily, depois 
sua tmpora, depois seu pescoo. Emily fechou os olhos, e Maya beijou suas plpebras. Ela respirou fundo. Maya passou seus delicados dedos pela beirada do queixo 
de Emily; parecia que milhes de borboletas estavam batendo as asas em sua pele. Por mais que ela tentasse convencer a si mesma de que estar com Maya era errado, 
era a nica coisa que parecia certa.
        Maya se afastou.
        - Ento, tenho uma proposta para voc.
        Emily sorriu, satisfeita.
        - Uma proposta. Parece srio. 
        Maya enfiou as mos nas mangas.
        - Que tal fazermos as coisas de forma mais aberta?
        - Aberta? - repetiu Emily.
        - Sim. - Maya passou um dos dedos para cima e para baixo no brao de Emily, causando-lhe arrepios. Emily podia sentir o cheiro do chiclete de banana de Maya, 
um cheiro que ela agora achava intoxicante.
        - Quer dizer que ns ficaramos juntas dentro de sua casa. Ns ficaramos juntas na escola. Ns... eu no sei. Eu sei que voc no est pronta para, tipo, 
assumir isso, Em, mas  difcil passar todo o nosso tempo juntas nesta pedra. O que vai acontecer quando ficar frio?
        -  Ns viremos aqui usando roupas para neve - brincou Emily.
        -  srio.
        Emily olhou enquanto um vento forte fez os galhos das rvores balanarem. O ar de repente ficou com cheiro de folhas queimadas. Ela no podia convidar Maya 
para entrar em sua casa porque sua me tinha deixado claro que no queria que Maya e Emily fossem amigas... por razes terrveis, quase-definitivamente racistas. 
Mas Emily no ia contar isso a Maya. E quanto ao outro assunto - assumir -, a resposta era no. Ela fechou os olhos e pensou na foto que A tinha enviado a ela, h 
algum tempo - uma na qual Emily e Maya estavam se beijando na cabine fotogrfica, na festa de Noel Kahn. Ela estremeceu. No estava pronta para que as pessoas soubessem.
        - Desculpe, eu sou lenta - disse Emily. - Mas isso  tudo que posso aguentar agora.
        Maya suspirou.
        - Tudo bem - disse ela, baixinho. - Eu vou ter que me adaptar.
        Emily olhou para a gua. Dois peixes prateados nadavam bem juntinhos. Quando um virava, o outro virava tambm. Eles eram como os casais que se beijavam no 
corredor da escola e praticamente paravam de respirar quando estavam separados. Pensar que ela e Maya poderiam nunca ser um desses casais a deixou um pouco triste.
        - Ento, nervosa por causa da competio de natao amanh?
        - Nervosa? - Emily franziu a testa.
        - Todo mundo vai estar l.
        Emily deu de ombros. Ela j tinha competido em eventos maiores que aquele. Havia at equipes de filmagem na competio nacional no ano passado.
        - No estou preocupada.
        - Voc  mais corajosa que eu. - Maya enfiou o tnis de volta no p.
        Mas Emily no estava to certa disso. Maya parecia corajosa em todas as reas - ela ignorava as regras que obrigavam os alunos a usar uniforme em Rosewood 
Day e aparecia de jaqueta jeans branca todo dia. Ela fumava maconha na janela do seu quarto enquanto seus pais estavam fazendo compras. Ela cumprimentava pessoas 
que no conhecia. Nesse aspecto era como Ali - totalmente destemida. Que provavelmente era a razo pela qual Emily tinha se apaixonado pelas duas.
        E Maya era corajosa quanto a tudo isso - o que ela era de verdade, o que ela queria, e com quem ela queria estar. Ela no ligava se as pessoas descobrissem. 
Maya queria estar com Emily, e nada iria det-la. Talvez algum dia Emily pudesse ser to corajosa quanto Maya. Mas se dependesse dela, isso seria algum dia dali 
a muito, muito tempo.
5
ARIA SE DEDICA A REENCENAR
OBRAS LITERRIAS
Aria se empoleirou no para-choque traseiro do Audi de Sean, dando uma olhada em sua pea favorita de Jean-Paul Sartre, Sem Sada. Era a segunda-feira depois da escola, 
e Sean disse que daria a ela uma carona para casa, depois que pegasse alguma coisa no escritrio do tcnico de futebol... s que ele estava demorando um tempo absurdo. 
Quando ela virou a pgina para o segundo ato, um grupo de meninas tpicas de Rosewood Day, loiras, quase idnticas, de pernas compridas, usando bolsonas de couro 
tambm parecidas, entrou no estacionamento de estudantes e olhou de cara feia para ela. Aparentemente, as botas de plataforma de Aria e seu gorro de tric com cobertura 
de orelha indicavam que ela era uma pessoa abominvel.
        Aria suspirou. Estava se esforando bastante para se ajustar a Rosewood Day, mas no era fcil. Ainda se sentia uma boneca Bratz livre-pensadora esquisita, 
usando cala de couro artificial num mar de Lindas Princesinhas da Escola da Barbie.
        - Voc no deveria sentar no para-choque desse jeito - comentou uma voz atrs dela, fazendo Aria pular. - Pode estragar a suspenso.
        Aria se virou. Ezra estava a alguns centmetros dela. O cabelo castanho estava espetado em picos bagunados e o blazer ainda mais amassado do que pela manh.
        - Eu pensei que tipos literrios no entendiam coisa alguma sobre carros - brincou ela.
        - Eu sou cheio de surpresas. - Ezra lhe lanou um sorriso sedutor. Ele enfiou a mo na maleta de couro surrada. - Na verdade, tenho uma coisa pra voc.  
um trabalho sobre A Letra Escarlate, questionando se adultrio no seria, em algumas situaes, permissvel.
        Aria pegou as pginas xerocadas dele.
        - No acho que adultrio seja permissvel ou desculpvel - disse ela suavemente. - Nunca.
        - Nunca  tempo demais - murmurou Ezra. Ele estava to prximo que Aria podia ver as rajadas de azul-escuro em seus olhos azul-claros.
        - Aria? - Sean estava bem ao lado dela.
        - Oi!. - gritou Aria, surpresa. Ela pulou para longe de Ezra, como se ele estivesse carregado de eletricidade.-Voc... voc j terminou?
        -J - respondeu Sean. 
        Ezra deu um passo  frente.
        - Oi, Sean, no ? Eu sou Ez... quer dizer, senhor Fitz, o novo professor de ingls avanado.
        Sean o cumprimentou com um aperto de mo.
        - Sou da turma de ingls regular. Sou o namorado de Aria.
        Uma sombra de algo - desapontamento, talvez - passou pelo rosto de Ezra.
        - Legal - balbuciou ele. -Voc joga futebol, certo? Parabns pela vitria da semana passada.
        - Isso a - assentiu Sean, modesto. - Estamos com um bom time este ano.
        - Legal - repetiu Ezra. - Muito legal.
        Aria sentiu que deveria explicar para Ezra por que ela e Sean estavam juntos. Claro, ele era um tpico menino de Rosewood, mas, na verdade, era muito mais 
profundo. Aria se conteve. No devia nenhuma explicao a Ezra. Ele era seu professor.
        - Ns temos que ir - disse ela abruptamente, pegando no brao de Sean. Queria sair dali antes que um deles a constrangesse. E se Sean cometesse um erro gramatical? 
E se Ezra deixasse escapar que eles tinham ficado juntos? Ningum em Rosewood sabia disso. Ningum, exceto A.
        Aria sentou-se no banco do carona, sentindo-se desconfortvel. Ansiava por alguns minutos de privacidade para se recompor, mas Sean sentou-se no banco do 
motorista bem perto dela e beliscou sua bochecha.
        - Senti sua falta hoje - confessou ele.
        - Eu tambm - disse Aria, automaticamente, com a voz presa na garganta. Ao olhar pela janela lateral, viu Ezra no estacionamento dos professores, entrando 
em seu Fusca velho e surrado. Ele tinha colocado um novo adesivo no para-choque - ECOLOGIA ACONTECE - e parecia que tinha lavado o carro no final de semana. No 
que ela estivesse reparando nele obsessivamente ou algo assim.
        Enquanto Sean esperava outros estudantes sarem da frente dele, acariciou seu queixo bem barbeado e brincou com a gola da camiseta polo Penguin. Caso Sean 
e Ezra fossem poemas, Sean seria um haicai - arrumado, simples, bonito. Ezra seria um bagunado Sonhos Febris, de William Burroughs.
        - Quer sair mais tarde? - perguntou Sean. - Jantar? Dar uma volta com Ella?
        -Vamos sair - decidiu Aria. Era to meigo Sean gostar de sair com Ella e Aria. Os trs tinham at assistido juntos a um DVD do Truffaut, da coleo de Ella, 
apesar do fato de Sean dizer que realmente no entendia filmes franceses.
        - Um dia desses, voc tem que conhecer minha famlia. ~ Sean finalmente saiu do estacionamento de Rosewood atrs de um SUV Acura.
        - Eu sei, eu sei. - Aria ficava nervosa ao pensar em conhecer a famlia de Sean. Tinha ouvido que eles eram muito ricos e superperfeitos. - Em breve.
        - Bem, o treinador quer que o time v quela grande competio de natao amanh, para dar apoio  escola. Voc vai assistir  Emily, certo?
        - Claro - respondeu Aria.
        - Bem, talvez na quarta-feira, ento? Jantar?
        - Talvez.
        Quando eles entraram na rua cercada de rvores que ladeava Rosewood Day, o Treo de Aria vibrou. Ela o pegou, nervosa - seu joelho tremia toda vez que recebia 
uma mensagem, que poderia ser de A, apesar de que, aparentemente, A tinha desaparecido. A nova mensagem, entretanto, era de um nmero desconhecido com cdigo 484, 
da rea leste da Pensilvnia. As mensagens de A sempre vinham com o remetente bloqueado. Ela clicou em LER.
        Aria: Precisamos conversar. Podemos nos encontrar do lado 
        de fora do prdio de artes da Hollis, hoje, s 16h30? Estarei no 
        campus, esperando Meredith terminar de dar aula. Adoraria 
        conversar com voc. - Seu pai, Byron.
        Aria olhou para a tela, desgostosa. Aquilo era perturbador em muitos nveis. Um, seu pai agora tinha um telefone celular? Por anos, ele os havia evitado, 
dizendo que davam cncer no crebro. Dois, ele tinha mandado um torpedo para ela - o que viria depois, um perfil no MySpace?
        E trs... a mensagem em si. Especialmente aquela especificidade de: Seu pai, no final. Ele pensava que ela tinha esquecido quem ele era?
        -Voc est bem? - Sean tirou os olhos da rua sinuosa e estreita por um momento.
        Aria leu para Sean a mensagem de Byron.
        - D para acreditar nisso? - perguntou ela ao terminar. - Parece que ele s precisa de algum para ajud-lo a matar o tempo, enquanto espera a vagabunda 
terminar a aula.
        - O que voc vai fazer?
        -  No vou encontr-lo. - Aria estremeceu, pensando nas vezes em que tinha visto Meredith e o pai juntos. No stimo ano, ela e Ali tinham visto os dois se 
beijando no carro de Byron, e, depois, umas semanas atrs, ela e seu irmo mais novo, Mike, tinham esbarrado neles na Victory, uma cervejaria. Meredith tinha dito 
a Aria que ela e Byron estavam apaixonados, mas como aquilo era possvel?
        -  Meredith  uma destruidora de lares. Ela  pior que a Hester Prynne!
        - Quem?
        -  Hester Prynne, a personagem principal de A Letra Escarlate, o livro que estamos lendo na aula de ingls.  sobre essa mulher que comete adultrio e a 
cidade a isola. Acho que Rosewood devia isolar Meredith. Rosewood precisa de um cadafalso para humilh-la.
        -  Que tal aquele negcio em que prendiam os escravos que desobedeciam aos senhores? - sugeriu Sean, desacelerando quando passaram por um ciclista. -Voc 
sabe, aquele negcio de madeira, com buracos, para colocar a cabea e os braos? Eles prendem a pessoa naquilo e ela simplesmente fica ali. Ns costumvamos tirar 
fotos naquela coisa.
        - Pefeito - Aria praticamente gritou. - E Meredith merece ter um "ladra de marido" marcado na testa. S costurar uma letra A vermelha no vestido dela seria 
muito sutil.
        Sean riu.
        -  Parece que voc est mesmo gostando de A Letra Escarlate.
        - No sei. Eu s li oito pginas. - Aria ficou calada, apreciando a ideia. - Na verdade, espere. Deixe-me na Hollis.
        Sean lhe deu uma olhada de lado. 
        -Voc vai se encontrar com ele?
        - No exatamente. - Ela sorriu com alguma maldade.
        - T bom...
        Sean dirigiu umas quadras pelo campus, que era cheio de prdios de pedra e tijolos, velhas esttuas de bronze dos fundadores da faculdade e onde vrios estudantes 
andavam de bicicletas. Parecia que era sempre outono em Hollis, as folhas coloridas caam de um jeito perfeito por ali. Quando Sean parou numa vaga de estacionamento 
de duas horas no campus, ele parecia preocupado.
        -Voc no vai fazer nada ilegal, vai?
        - No. - Aria deu um beijo rpido nele. - No me espere. Eu posso ir para casa andando daqui.
        Aprumando os ombros, ela marchou para a entrada principal do prdio de artes. A mensagem do pai surgiu diante de seus olhos. Estarei no campus, esperando 
Meredith terminar de dar aula. A prpria Meredith tinha contado a Aria que ensinava artes plsticas na Hollis. Ela passou por um guarda, que deveria checar identidades, 
mas, em vez disso, ele estava assistindo a um jogo dos Yankees numa TV porttil. Os nervos de Aria estalavam, trmulos, como se eles fossem fios subterrneos.
        Havia apenas trs salas de aula no prdio, que eram grandes o suficiente para aulas de pintura, que Aria conhecia porque tinha frequentado aulas de arte 
aos sbados, na Hollis, por anos. Naquele dia, apenas uma sala estava sendo usada, ento, tinha de ser aquela. Aria entrou ruidosamente pelas portas da sala e foi 
imediatamente tomada pelo cheiro de terebintina e panos no lavados. Doze estudantes de arte, com cavaletes organizados em crculo, viraram-se para olhar para ela. 
A nica pessoa que no se mexeu foi o velho modelo enrugado e careca, completamente nu no meio da sala. Ele empinou o peito curvado, manteve as mos nos quadris 
e nem piscou. Aria teve que dar a ele uma nota dez pelo esforo.
        Ela espiou Meredith empoleirada numa mesa, perto da janela dos fundos. Com seu cabelo castanho longo e lustroso. Com uma tatuagem cor-de-rosa de teia de 
aranha no pulso. Meredith parecia forte e confiante, e havia um vermelho irritantemente saudvel em suas bochechas.
        - Aria? - chamou Meredith pela sala cavernosa, cheia de correntes de vento. - Que surpresa.
        Aria olhou em volta. Todos os alunos tinham seus pincis e tintas perto das telas. Ela marchou at o aluno mais prximo, pegou um pincel grande, em formato 
de leque, passou-o na tinta vermelha e encaminhou-se para Meredith, a tinta pingando no caminho. Antes que algum pudesse fazer alguma coisa, Aria pintou um A enorme 
e malfeito no lado esquerdo do peito no delicado vestido de algodo de Meredith.
        - Agora todos sabero o que voc fez - rosnou Aria.
        Sem dar tempo para Meredith reagir, ela se virou e caminhou para fora da sala. Quando chegou ao verde gramado de Hollis de novo, comeou a rir louca e alegremente. 
No era um "ladra de marido" escrito na testa dela, mas bem que podia ser. A, Meredith. Toma essa.
6
RIVALIDADE ENTRE IRMS  UM
HBITO DIFCIL DE LARGAR
Segunda-feira de manh, no treino de hquei, Spencer correu  frente das colegas de time na volta de aquecimento ao redor do campo. Era um dia inesperadamente quente 
e as meninas estavam um pouco mais lentas que o normal. Kirsten Cullen forou os braos para alcan-la.
        -  Eu soube do concurso Orqudea Dourada - disse Kirsten, sem flego, arrumando o rabo de cavalo loiro. -  incrvel.
        -  Obrigada. - Spencer abaixou a cabea. Era impressionante como as notcias se espalhavam em Rosewood Day. Sua me havia lhe contado apenas seis horas antes, 
desde ento, pelo menos dez pessoas tinham vindo falar com ela a respeito.
        -  Ouvi dizer que o John Mayer ganhou um Orqudea Dourada quando  estava no  ensino mdio - continuou Kirsten.- Foi tipo... com algum trabalho de teoria 
de msica avanada.
        - Ahhh. - Spencer tinha certeza de que John Mayer no ganhara o prmio. Ela conhecia todos os ganhadores dos ltimos 15 anos.
        - Aposto que voc vai ganhar - disse Kirsten. - E, ento, voc vai estar na TV! Posso ir com voc  sua estreia no programa Today?
        Spencer deu de ombros.
        -  uma competio muito acirrada.
        - Fala srio! - Kirsten deu uma tapinha no ombro dela. - Voc  sempre to modesta.
        Spencer rangeu os dentes. Mesmo ela tentando minimizar o lance do Orqudea Dourada, a reao de todo mundo foi a mesma: Voc vai ganhar, com certeza. Prepare-se 
para sua foto! - e isso a estava deixando louca. Ela tinha arrumado e rearrumado de um jeito to obsessivo o dinheiro na sua carteira naquele dia, que uma nota de 
vinte dlares tinha rasgado bem no meio.
        O treinador McCready tocou o apito e gritou:
        -Vamos trabalhar a corrida lateral!
        O time todo se virou e comeou a correr de lado. Elas pareciam competidoras de adestramento hpico do Devon Horse Show.
        -Voc soube do Perseguidor de Rosewood? - perguntou Kirsten, um pouco ofegante. Correr de lado era mais difcil do que parecia. - Estava em todos os noticirios 
ontem  noite.
        - Sim - resmungou Spencer.
        - Ele est no seu bairro. Andando pelos bosques. 
        Spencer desviou de um suporte no cho.
        - Provavelmente  apenas um idiota - retrucou ela, ofegante. Mas Spencer no conseguia parar de pensar em A. Quantas vezes A j no tinha mandado mensagens 
de texto para ela sobre coisas que ningum poderia ter visto? Ela olhou para as rvores, quase certa de que veria a sombra de algum. Mas no havia nada ali.
        Elas voltaram a correr normalmente, passando pelo lago dos patos de Rosewood Day, pelo jardim com esculturas e pelas plantaes de milho. Quando seguiam 
em direo s arquibancadas, Kirsten deu uma olhada e apontou na direo dos bancos de metal mais baixos, onde estava o equipamento de hquei das meninas.
        - Aquela  a sua irm?
        Spencer se encolheu. Melissa estava parada perto de Ian Thomas, o novo assistente do treinador. Era o mesmo Ian Thomas que Melissa havia namorado quando 
Spencer estava no stimo ano - e o mesmo Ian Thomas que tinha beijado Spencer na entrada da garagem, anos atrs.
        Elas completaram a curva e Spencer parou em frente a Melissa e Ian. Sua irm tinha se trocado e estava usando quase a mesma roupa que sua me vestia mais 
cedo: jeans apertados, camiseta branca, e um relgio caro da Dior. Ela at estava usando Chanel N. 5, como a mame. Que timo clonezinho, pensou Spencer.
        - O que voc est fazendo aqui? - inquiriu ela, sem flego. 
        Melissa apoiou um dos cotovelos em um dos coolers de Gatorade que estavam no banco. Sua pulseira antiga de pingente tilintava contra o pulso.
        - Por que uma irm mais velha no pode assistir  caula jogar? - Mas ento seu sorriso fingido esmaeceu, e ela passou um dos braos na cintura de Ian. - 
Ajuda tambm o fato de meu namorado ser o tcnico.
        Spencer torceu o nariz. Ela sempre suspeitara de que Melissa no esquecera Ian. Eles tinham terminado logo aps a formatura. Ian estava lindo, como sempre, 
com seu cabelo louro ondulado, corpo lindamente proporcional e um sorriso preguioso e arrogante.
        - Bem, bom pra voc - respondeu Spencer, querendo cair fora da conversa. Quanto menos ela falasse com Melissa, melhor, no mnimo at o lance do Orqudea 
Dourada acabar. Se pelo menos os juzes andassem logo e eliminassem o trabalho plagiado de Spencer da competio...
        Ela pegou sua maleta com o equipamento, puxou os protetores de canela, e amarrou um em torno da canela esquerda. Depois amarrou o outro em volta da direita. 
Ento, desamarrou ambos, amarrando-os de novo, mais apertado. Subiu as meias e depois as abaixou de novo. Repetiu, repetiu, repetiu.
        - O TOC de algum est feroz hoje - provocou Melissa. Ela se virou para Ian. - Ah, voc sabe da grande novidade da Spencer? Ela ganhou o Orqudea Dourada. 
O Philadelphia Sentinel vem entrevist-la esta semana.
        - Eu no ganhei - grunhiu Spencer, rapidamente. - Fui apenas indicada.
        - Oh, tenho certeza de que voc vai ganhar. - Melissa deu um sorriso afetado que Spencer no conseguiu interpretar. Quando a irm piscou para ela, Spencer 
sentiu uma onda de terror. Ela sabia?
        Ian assobiou.
        - Um Orqudea Dourada? Caramba! Vocs, irms Hasting, so inteligentes, bonitas e atlticas. Voc deveria ver como a Spence arrebenta no hquei, Mel. Ela 
joga no meio de campo.
        Melissa fez biquinho com os lbios brilhantes, pensando.
        - Lembra quando o treinador me colocou jogando nessa posio porque a Zoe estava com mononucleose? - ela falou quase miando com Ian. - Eu marquei dois gols. 
Em um tempo.
        Spencer rangeu os dentes. Ela sabia que Melissa no seria caridosa por muito tempo. Melissa j conseguira transformar algo inocente em uma competio. Spencer 
procurou em sua longa lista mental por um insulto falsamente gentil apropriado, mas a decidiu deixar para l. No era hora de arranjar briga com Melissa.
        - Tenho certeza de que foi o mximo, Mel - concordou ela.-Aposto que voc jogava muito melhor que eu.
        A irm ficou paralisada. O monstrinho que Spencer tinha certeza de que vivia dentro da cabea de Melissa estava confuso. Claramente, ele no esperava que 
Spencer dissesse uma gentileza.
        Spencer sorriu para a irm e depois para Ian. Ele ficou olhando por um momento e depois lhe lanou uma piscadela cmplice.
        O estmago de Spencer revirou. Ela ainda se sentia esquisita quando Ian olhava para ela. Mesmo trs anos depois, Spencer se lembrava de cada detalhe do beijo 
dele. Ian estava usando uma camiseta Nike cinza, short verde-exrcito e tnis Merrills marrons. Ele cheirava a grama recm-cortada e a chiclete de canela. Em um 
segundo, Spencer estava dando um beijinho de despedida na bochecha dele - apenas flertando, nada mais. No momento seguinte, ele a estava agarrando contra a lateral 
do carro dele. Spencer tinha ficado to surpresa que mantivera os olhos abertos.
        Ian apitou, tirando Spencer de seus devaneios. Ela correu de volta para perto do time, e Ian a seguiu.
        -  Certo, pessoal. - Ian bateu palmas. O time o cercou, olhando para o seu rosto dourado. - Por favor, no me odeiem, mas hoje ns vamos fazer arrancadas, 
agachamentos e a corrida montanha acima. Ordens do treinador.
        Todas, incluindo Spencer, grunhiram.
        - Eu falei pra vocs no me odiarem! - gritou Ian.
        - No podemos fazer outra coisa? - reclamou Kirsten.
        -  Pense em quantos traseiros voc vai chutar no nosso jogo contra a Pritchard Prep - falou Ian. - E olha s, se ns fizermos todos os agachamentos, vou 
lev-las ao Merlin depois do treino de amanh.
        O time de hquei adorou. Merlin era famoso por seu sorvete de chocolate de baixa caloria, que era mais gostoso do que aqueles cheios de gordura.
        Quando Spencer se debruou no banco para amarrar os protetores de canela - de novo - sentiu Ian parado atrs dela. Quando o encarou, ele estava sorrindo.
        - Para constar - disse Ian em voz baixa, fazendo concha com as mos em volta da boca para proteg-la das outras integrantes do time -, voc joga melhor que 
a sua irm. No h dvida sobre isso.
        -  Obrigada. - Spencer sorriu. Seu nariz coou com o cheiro da grama cortada e o filtro solar Neutrogena de Ian. Seu corao acelerou. - Isso  muito importante 
para mim.
        -  Eu fui sincero quanto s outras coisas tambm. - O canto esquerdo da boca de Ian levantou-se em um meio sorriso.
        Spencer teve uma sensao de tontura, um tremor de emoo. Ele quis dizer o lance de ser "inteligente" e "bonita"? Ela olhou para o outro lado do campo, 
onde Melissa estava parada. A irm estava debruada sobre seu BlackBerry, sem prestar a menor ateno.
        timo.
7
NADA COMO UM INTERROGATRIO
 MODA ANTIGA
Segunda-feira  noite, Hanna estacionou o Prius na entrada lateral e desceu. Tudo que ela tinha a fazer era mudar de roupa, e, ento, sairia para encontrar Mona 
para jantar. Aparecer com o seu blazer do Rosewood Day e saia plissada seria um insulto para a instituio dos Amiganiversrios. Ela tinha de se livrar dessas mangas 
compridas - suara o dia inteiro. Hanna tinha se borrifado com seu spray de gua mineral Evian umas cem vezes no caminho de casa, mas ainda se sentia superaquecida.
        Quando virou a esquina, notou o Lexus champanhe da me estacionado perto da garagem e parou. O que sua me estaria fazendo em casa? A sra. Marin geralmente 
trabalhava alm do horrio na McManus & Tate, sua empresa de publicidade na Filadlfia. Ela geralmente no chegava antes das dez da noite.
        Ento, Hanna notou os outros quatro carros, enfiados um atrs do outro na garagem: o Mercedes cinza cup certamente era de Spencer; o Volvo branco, de Emily; 
e o Subaru verde esquisito, de Aria. O ltimo carro era um Ford branco, com as palavras DEPARTAMENTO DE POLCIA DE ROSEWOOD escritas na lateral.
        Que diabo era isso?
        - Hanna.
        A me de Hanna estava na varanda lateral. Ainda usava suas pantalonas pretas e os saltos altos de pele de cobra.
        - O que est acontecendo? - questionou Hanna, incomodada. - Por que minhas antigas amigas esto aqui?
        - Eu tentei ligar para voc. Voc no atendeu - disse a me. - O policial Wilden queria fazer umas perguntas sobre Alison para todas vocs. Elas esto l 
nos fundos.
        Hanna pegou o BlackBerry do bolso. Claro que tinha trs ligaes perdidas, todas da me.
        A sra. Marin se virou. Hanna a seguiu para dentro da casa e pela cozinha. Ela parou perto da mesa de telefone, de tampo de granito.
        - Tem alguma mensagem pra mim?
        - Sim, uma. - O corao de Hanna deu um salto, mas a a me continuou: - Do sr. Ackard. Eles esto fazendo uma reorganizao na clnica de pessoas queimadas 
e no vo precisar mais da sua ajuda.
        Hanna piscou. Essa era uma surpresa boa.
        - Algum... mais?
        Os cantos dos olhos da sra. Marin se curvaram para baixo, entendendo o que ela queria dizer.
        - No. - Ela tocou o brao de Hanna com gentileza. - Eu sinto muito, Han. Ele no ligou.
        Apesar da vida perfeita-de-novo de Hanna em outros aspectos, o silncio do pai a magoava. Como ele podia cortar Hanna de sua vida to facilmente? Ele no 
percebia que ela tinha um bom motivo para dar o cano no jantar deles e ir  Foxy? Ele no sabia que no deveria ter convidado sua noiva, Isabel e sua filha perfeita, 
Kate, para o final de semana especial deles? Mas a, o pai de Hanna iria se casar com a sem graa e excntrica Isabel em breve - e Kate seria oficialmente sua enteada. 
Talvez ele no tivesse ligado de volta para Hanna porque Hanna estava sobrando.
        Dane-se, disse Hanna para si mesma, tirando o blazer e arrumando a camiseta transparente cor-de-rosa Rebecca Taylor. Kate era uma chata certinha - se seu 
pai escolhera Kate em vez dela, ento eles se mereciam.
        Quando ela olhou pela porta-balco em direo  varanda dos fundos, viu Spencer, Aria e Emily sentadas em volta da grande mesa de teca do ptio, a luz das 
janelas de vidro manchado brilhando nas bochechas delas. Wilden, o mais novo membro da fora policial de Rosewood e o novssimo namorado da sra. Marin, estavam perto 
do grill Weber.
        Era surreal ver as trs ex-melhores amigas aqui. A ltima vez em que elas tinham sentado na varanda dos fundos de Hanna fora no fim do stimo ano - e Hanna 
era a mais boba e feia do grupo. Mas, agora, os ombros de Emily estavam mais largos e seu cabelo, ligeiramente verde. Spencer parecia estressada e constipada. E 
Aria era um zumbi, com seu cabelo preto contra a pele branca. Se Hanna fosse um vestido de noite da Proenza Schouler, ento, Aria era um vestido de manga comprida 
e sem gola, da linha Target.
        Hanna respirou fundo e abriu as portas francesas. Wilden se virou. Ele tinha uma expresso sria no rosto. O pedacinho de uma tatuagem aparecia sob a gola 
do seu uniforme de policial. Hanna ainda ficava impressionada com o fato de Wilden, um ex-encrenqueiro de Rosewood Day, ter se tornado um aplicador da lei.
        - Hanna. Sente-se.
        Hanna pegou uma cadeira da mesa e sentou ao lado de Spencer.
        - Isso vai demorar muito? - Ela olhou para o relgio Dior incrustado de diamantes. - Estou atrasada para um compromisso.
        -  No, se ns comearmos agora. - Wilden olhou para todas elas. Spencer encarava as prprias unhas, Aria mascava um chiclete ruidosamente, com os olhos 
fechados de uma maneira bizarra, e Emily tinha os olhos fixos na vela de citronela em cima da mesa, com se estivesse prestes a chorar.
        - Primeira coisa - falou Wilden. - Algum entregou um vdeo caseiro de vocs para a imprensa. - Ele olhou para Aria. -  um dos vdeos que vocs deram para 
a polcia de Rosewood, anos atrs. Ento, vocs provavelmente o vero na TV Todos os canais de notcias o pegaram. Estamos atrs de quem deixou o vdeo vazar: essa 
pessoa ser punida. Eu queria que vocs soubessem disso primeiro.
        - Que vdeo? - perguntou Aria.
        - Alguma coisa sobre mensagens de texto? - respondeu ele.
        Hanna recostou-se, tentando lembrar que vdeo poderia ser. Havia tantos. Aria costumava film-las obsessivamente. Hanna sempre tentava com todas as foras 
se livrar de cada vdeo, porque, para ela, aparecer na TV no engordava cinco quilos, mas dez.
        Wilden estalou os dedos e brincou com um moedor de pimenta-do-reino de aparncia flica, que estava no centro da mesa. Um pouco de pimenta caiu na toalha 
de mesa, e o ar imediatamente ficou temperado.
        - A outra coisa de que quero tratar  a prpria Alison. Temos motivos para acreditar que o assassino dela seja algum de Rosewood. Algum que possivelmente 
ainda viva aqui hoje... e essa pessoa pode ainda ser perigosa.
        Todo mundo tomou flego.
        - Ns estamos procurando com novos olhos - continuou Wilden, levantando-se da mesa e caminhando em volta, com as mos cruzadas atrs das costas. Provavelmente, 
ele vira algum no CSI fazer aquilo e tinha achado legal. - Estamos tentando reconstituir a vida de Alison pouco antes do seu desaparecimento. Queremos comear com 
as pessoas que a conheciam melhor.
        Bem nessa hora, o BlackBerry de Hanna tocou. Ela o pegou na bolsa. Mona.
        - Mon. - Hanna atendeu baixinho, levantando e indo em direo ao lado mais distante da varanda, perto das roseiras da me. -Vou me atrasar alguns minutos.
        -Vagabunda - provocou Mona. - Que saco. Eu j estou na nossa mesa do Rive Gauche.
        - Hanna - chamou Wilden, rspido. -Voc pode ligar para quem quer que seja depois?
        Na mesma hora, Aria espirrou.
        - Sade - falou Emily.
        - Onde voc est? - Mona parecia desconfiada. -Voc est com algum?
        -  Estou em casa - respondeu Hanna. - E eu estou com Emily, Aria, Spencer e o pol..
        -Voc est com suas velhas amigas? - interrompeu Mona.
        - Elas estavam aqui quando cheguei - protestou Hanna.
        - Deixe-me ver se entendi. - A voz de Mona ficou mais alta. -Voc convidou suas velhas amigas para irem  sua casa. Na noite do nosso Amiganiversrio.
        - Eu no as convidei. - Hanna riu. Ainda era difcil de acreditar que Mona se sentisse ameaada por suas velhas amigas. - Eu s estava...
        - Quer saber de uma coisa? - cortou Mona. - Esquece. O Amiganiversrio est cancelado.
        - Mona, no seja... - Ento, parou. Wilden estava do lado dela.
        Ele arrancou o telefone da mo dela e desligou, fechando-o.
        -  Ns estamos discutindo um assassinato - disse ele, em voz baixa. - Sua vida social pode esperar.
        Hanna o encarou pelas costas, brava. Como Wilden se atrevia a desligar o telefone dela? S porque estava saindo com sua me no significava que podia bancar 
o pai com ela. Ela voltou para a mesa com passos firmes, tentando se acalmar. Mona era a rainha do exagero, mas no conseguia dar um gelo em Hanna por muito tempo. 
A maioria das brigas delas s durara algumas horas, no mximo.
        -  Ok - disse Wilden, quando Hanna sentou-se novamente. - Eu recebi algo interessante algumas semanas atrs, e acho que devamos conversar a respeito. - 
Ele pegou seu bloco de anotaes. - Seu amigo Toby Cavanaugh? Escreveu um bilhete suicida.
        -  N-ns sabemos - gaguejou Spencer. - A irm dele nos deixou ler uma parte.
        - Ento, vocs sabem que ele menciona Alison. -Wilden folheou o bloco para trs. - Toby escreveu: "Prometi a Alison DiLaurentis que guardaria o segredo dela, 
se ela guardasse o meu." - Seus olhos cor de oliva escrutinaram cada uma das meninas. - Qual era o segredo da Alison?
        Hanna afundou no assento da cadeira. Fomos ns que cegamos a Jenna. Esse era o segredo que o Toby havia guardado para Alison. Hanna e suas amigas no tinham 
se dado conta de que Toby sabia disso at que Spencer resolvera abrir a boca, trs semanas atrs.
        Spencer desembuchou.
        - Ns no sabemos. Ali no contou a nenhuma de ns. 
        As sobrancelhas de Wilden se fecharam. Ele se debruou na mesa da varanda.
        -  Hanna, h algum tempo voc achava que Toby tinha matado Alison.
        Hanna deu de ombros, impassvel. Ela tinha procurado Wilden quando elas achavam que ele era A e havia matado Ali.
        - Bem... Toby no gostava da Ali.
        - Na verdade, ele gostava da Ali, mas Ali no gostava dele - esclareceu Spencer. - Ele costumava espion-la o tempo todo. Mas eu no sei se isso tem a ver 
com o segredo dele.
        Emily deu um pequeno soluo. Hanna olhou para ela, desconfiada. Tudo de que Emily falava ultimamente era a respeito de como se sentia culpada em relao 
a Toby. E se ela quisesse dizer a Wilden que elas eram responsveis pela morte do Toby - e pelo acidente de Jenna? Hanna poderia ter assumido a culpa pela coisa 
com Jenna semanas atrs, quando ela no tinha nada em que se agarrar, mas no havia nenhum jeito de ela confessar naquele momento. Sua vida finalmente tinha voltado 
ao normal, e ela no estava no clima de ficar conhecida como uma das Cegadoras Loucas, ou o que quer que elas inevitavelmente fossem chamadas na TV.
        Wilden virou algumas pginas do bloco.
        - Bem, quero que todas pensem a respeito. Continuando... vamos falar da noite em que Alison desapareceu. Spencer, diz aqui que pouco antes de desaparecer, 
Ali tentou hipnotiz-la. Vocs duas brigaram, ela saiu correndo do celeiro, voc correu atrs dela, mas no conseguiu encontr-la. Certo?
        Spencer ficou rgida.
        - Hum. Sim. Certo.
        -Voc no tem ideia de para onde ela foi? S
        pencer deu de ombros.
        - Desculpe.
        Hanna tentou se lembrar da noite em que Ali sumira. Em um minuto, Ali as estava hipnotizando; no prximo, ela tinha sumido. Hanna realmente sentiu que Ali 
a tinha colocado num transe: quando Ali contou regressivamente a partir de cem, com o cheiro da vela de baunilha espalhado de forma pungente pelo celeiro, Hanna 
estava se sentindo pesada e sonolenta, a pipoca e o Doritos que ela tinha comido antes se revirando desconfortavelmente em seu estmago. Imagens assustadoras comearam 
a aparecer diante de seus olhos:Ali e as outras correndo por uma densa selva. Grandes plantas devoradoras de homens as cercaram. Uma planta deu um bote e agarrou 
a perna de Ali com suas mandbulas. Quando Hanna conseguiu se livrar disso, Spencer estava parada na porta do celeiro, parecendo preocupada... e Ali havia sumido.
        Wilden continuou a caminhar em volta da varanda. Ele pegou um vaso de cermica e o virou de cabea para baixo, como se estivesse procurando uma etiqueta 
de preo. Babaca enxerido.
        - Eu preciso que vocs todas se lembrem do mximo possvel. Pensem no que estava acontecendo quando Alison desapareceu. Ela tinha namorado? Alguma amiga 
nova?
        - Ela tinha namorado - tentou Aria. - Matt Doolittle. Ele se mudou. -Ao se recostar, sua camiseta escorregou de um dos ombros, mostrando uma ala de suti 
vermelho-sangue, rendada.Vagabunda.
        -  Ela estava saindo com umas meninas mais velhas, do hquei - falou Emily.
        Wilden olhou as anotaes.
        - Certo. Katy Houghton e Violet Keyes. Eu sei. E o comportamento da Alison? Ela andava agindo de maneira estranha?
        Elas ficaram em silncio. Sim, estava, pensou Hanna. Ela lembrou-se imediatamente de um momento. Em um dia turbulento de primavera, algumas semanas antes 
de Ali desaparecer, o pai dela as tinha levado a um jogo dos Phillies. Ali passou a noite inteira agitada, como se tivesse comido pacotes e mais pacotes de Skittles. 
Ela ficou checando as mensagens de texto no celular o tempo todo e parecia inconformada com a caixa de entrada vazia. Durante o intervalo do stimo tempo, quando 
elas foram de fininho para o balco para paquerar um grupo de meninos bonitos que estavam sentados num camarote, Hanna notou que as mos de Ali estavam tremendo.
        -Voc est bem? - perguntara Hanna.
        Ali sorriu para ela.
        - Estou s com frio - ela tinha explicado.
        Mas isso seria suspeito o suficiente para contar? Parecia irrelevante, mas era difcil saber o que a polcia estava procurando.
        - Ela parecia bem - disse Spencer, devagar. 
        Wilden olhou diretamente para Spencer.
        - Sabe, minha irm mais velha era muito parecida com a Alison. Ela era a lder da sua turma tambm. O que quer que minha irm mandasse, suas amigas faziam. 
Qualquer coisa. E elas guardavam todos os tipos de segredos por ela. Era desse jeito com vocs, meninas?
        Hanna encolheu os dedos dos ps, subitamente irritada com o rumo que a conversa estava tomando.
        - Eu no sei - murmurou Emily. - Talvez.
        Wilden olhou para baixo, para o celular que vibrava preso ao seu coldre.
        -  Com licena. - Ele desviou at a garagem, puxando o telefone do cinto.
        Quando ele estava fora de alcance, Emily deixou escapar a respirao que estava presa.
        - Gente, ns temos que contar a ele. 
        Hanna focou o olhar.
        - Contar o qu a ele?
        Emily jogou as mos para cima. 
        -Jenna est cega. Ns fizemos isso. 
        Hanna balanou a cabea.
        - Me deixe fora disso. E, de qualquer forma, Jenna est bem. Srio. Voc j reparou nos culos de sol Gucci que ela usa? Voc precisa ficar, tipo, numa lista 
de espera de um ano para conseguir um daqueles. Eles so mais difceis de conseguir que uma bolsa da Birkin.
        Aria olhou para Hanna, boquiaberta.
        - De que sistema solar voc veio? Quem se importa com culos de sol Gucci?
        - Bem, obviamente, no algum como voc - Hanna atirou de volta.
        Aria travou o queixo e recostou-se.
        - O que isso quer dizer?
        - Eu acho que voc sabe - rosnou Hanna.
        - Pessoal - advertiu Spencer.
        Aria suspirou e virou o rosto para o jardim. Hanna olhou para o seu queixo pontudo e nariz arrebitado. Nem mesmo o perfil da Aria era to bonito quanto o 
seu.
        - Ns deveramos contar a ele sobre Jenna - urgiu Emily. - E sobre A, a polcia deveria cuidar disso. Ns estamos atoladas at o pescoo.
        - Ns no vamos contar nada a ele, e ponto final - silvou Hanna.
        - , eu no sei, Emily - disse Spencer, lentamente, enfiando as chaves do carro por entre as tbuas do tampo da mesa. - Essa  uma deciso sria. Isso afeta 
toda a nossa vida.
        - Ns j discutimos isso antes - concordou Aria. - Alm do mais, A foi embora, certo?
        -Vou deixar vocs fora disso - protestou Emily, cruzando os braos sobre o peito. - Mas eu vou contar a ele. Acho que  a coisa certa a fazer.
        O celular de Aria tocou alto e todas pularam. Ento, o Sidekick de Spencer vibrou, danando em direo  beira da mesa. O BlackBerry de Hanna, que ela tinha 
enterrado de volta na bolsa, soltou um apito abafado. E o pequeno Nokia de Emily tocou com um "trim" de telefone antigo.
        A ltima vez em que os telefones de todas elas haviam tocado ao mesmo tempo elas estavam do lado de fora do velrio da Ali. Hanna teve a mesma sensao de 
quando seu pai a levou nas xcaras que danam, no parque de diverses de Rosewood, na poca ela tinha cinco anos: a mesma nusea e tontura. Aria abriu o telefone. 
Depois Emily, e ento Spencer.
        - Ai, meu Deus - sussurrou Emily.
        Hanna nem se deu ao trabalho de pegar seu BlackBerry; ela se debruou sobre o Sidekick de Spencer.
        Vocs realmente acharam que eu tinha desaparecido? Qual ! 
        Eu estou observando o tempo todo. Alis, eu posso estar 
        observando vocs agora mesmo. E, meninas, no contem a 
        NINGUM sobre mim, ou vo se arrepender. -A
        O corao de Hanna disparou. Ela ouviu passos e se virou. Wilden estava de volta.
        Ele colocou o celular dentro do coldre. Depois, olhou para as meninas e levantou uma das sobrancelhas.
        - Perdi alguma coisa?
        Ah, se perdeu.
8
 SEMPRE BOM LER O LIVRO
ANTES DE PLAGI-LO
Cerca de meia hora depois, Aria estacionou em sua casa dos anos cinquenta, estilo caixote. Apoiou o Treo entre o pescoo e o queixo, esperando a mensagem de voz 
de Emily acabar. Depois do sinal, ela disse:
        - Em,  a Aria. Se voc realmente quer contar ao Wilden, por favor, me ligue. A  capaz de... de mais do que voc pensa.
        Ela apertou DESLIGAR, sentindo-se ansiosa. No conseguia imaginar qual segredo horrvel de Emily que A poderia revelar se ela falasse com a polcia, mas 
Aria sabia, por experincia prpria, que A revelaria.
        Suspirando, destrancou a porta da frente e seguiu escada acima, passando pelo quarto dos pais. A porta estava entreaberta. L dentro, a cama dos pais estava 
muito bem-arrumada - ou ser que aquela passara a ser apenas a cama de Ella? Ella tinha arrumado a cama com a colcha de retalhos com estampa de batique cor de salmo, 
que ela amava e Byron odiava. Empilhara as almofadas no lado dela da cama. A cama parecia uma metfora para divrcio.
        Aria largou os livros e caminhou meio sem rumo at a sala de televiso no andar de baixo, a ameaa de A dando voltas em sua cabea como a centrfuga que 
eles tinham usado no laboratrio de biologia. A ainda estava l. E, de acordo com Wilden, o assassino da Ali tambm. A poderia ser o assassino de Ali, abrindo caminho 
pela vida de todas elas. E se Wilden estivesse certo? E se o assassino de Ali quisesse machucar mais algum? E se o assassino no fosse apenas um inimigo de Ali, 
mas tambm de Aria, Hanna, Emily, e Spencer? Isso significaria que uma delas seria a... prxima?
        A sala estava escura, exceto pela TV piscando. Quando Aria viu a mo de algum sobre o brao da namoradeira de tweed, deu um pulo. Ento, o conhecido rosto 
de Mike apareceu. 
        -Voc chegou bem a tempo. - Mike apontou para a tela. - A seguir, um vdeo caseiro indito de Alison DiLaurentis, filmado uma semana antes de ela ser assassinada 
- disse ele, fazendo sua melhor imitao de narrador de filme.
        O estmago de Aria se contraiu. Era o vdeo que tinha vazado, do qual Wilden falara. Anos atrs, Aria tinha se dedicado  filmagem, documentando tudo que 
podia, de lesmas no quintal s suas melhores amigas. Os filmes geralmente eram curtos, e, frequentemente, tentava faz-los de maneira artstica e profunda, focando 
na narina de Hanna, no zper do casaco de Ali, ou nos dedos tamborilantes de Spencer. Quando Ali desapareceu, Aria deu sua coleo de vdeos para a polcia. Os policiais 
os destrincharam, mas no conseguiram achar nenhuma pista sobre aonde Ali poderia ter ido. Ela ainda tinha os originais em seu laptop, embora no assistisse havia 
muito tempo.
        Aria afundou na namoradeira. Quando um comercial da Mercedes terminou e o noticirio recomeou, Aria e Mike se endireitaram em seus lugares.
        -  Ontem, uma fonte annima nos enviou este vdeo de Alison DiLaurentis - anunciou o ncora. - Ele d uma ideia do quo inocente era sua vida apenas alguns 
dias antes de ela ser assassinada.Vamos assistir.
        O vdeo comeou com uma tomada trmula do sof de couro da sala da Spencer.
        - E porque ela usa tamanho trinta e quatro - disse Hanna, sem aparecer na tela.
        A cmera mudou para uma Spencer bem mais jovem, que usava uma camiseta polo cor-de-rosa e uma cala legging que batia em suas canelas. O cabelo loiro caa 
em cascata em volta dos ombros e ela usava uma coroa de strass brilhante sobre sua cabea.
        -  Ela est um teso com essa coroa - comentou Mike, entusiasmado, abrindo um pacote enorme de Doritos.
        - Shhh - silvou Aria.
        Spencer apontou para o telefone LG de Ali, no sof.
        - Querem ler as mensagens dela?
        - Eu quero - sussurrou Hanna, abaixando-se e desaparecendo da tela. Ento, a cmera virou para Emily, que parecia quase igual a como est hoje, o mesmo cabelo 
louro-avermelhado, a mesma camiseta grande demais, a mesma expresso animada-mas-preocupada.Aria de repente lembrou-se daquela noite, antes de elas terem ligado 
a cmera, Ali havia recebido uma mensagem de texto e no contara a elas quem era o remetente. Todas tinham ficado incomodadas.
        A cmera mostrou Spencer segurando o telefone de Ali.
        - Est bloqueado. - Havia uma tomada borrada da tela do telefone.
        -Voc sabe a senha dela? -Aria ouviu sua prpria voz perguntar.
        - Putz!  voc! - disse Mike, animado.
        - Tenta o aniversrio dela - sugeriu Hanna.
        A cmera mostrou as mos gorduchas de Hanna se estendendo para pegar o telefone, que estava com Spencer. 
        Mike franziu o nariz e virou-se para Aria.
        -  isso que as meninas fazem quando esto sozinhas? Eu achei que fosse guerra de travesseiro. Meninas de calcinha. Se beijando.
        - Ns estvamos no stimo ano - lembrou Aria. - Isso  nojento.
        -  No tem nada errado com meninas do stimo ano de calcinha - resmungou Mike baixinho.
        -  O que vocs esto fazendo? - perguntou a voz de Ali. Ento, o rosto dela apareceu na tela, e os olhos de Aria se encheram de lgrimas. Aquele rosto em 
formato de corao, aqueles olhos profundamente azuis, aquela boca larga - era assustador.
        -Vocs estavam xeretando o meu telefone? - questionou Ali, com as mos nos quadris.
        - Claro que no! - gritou Hanna.
        Spencer se desequilibrou para trs, segurando a cabea para manter a coroa no lugar.
        Mike enfiou a mo cheia de Doritos na boca.
        - Posso ser seu escravo do amor, princesa Spencer? - perguntou ele, em falsete.
        - Eu no acho que ela sairia com pr-adolescentes, que ainda dormem com seus cobertorezinhos - devolveu Aria.
        - Ei! - buzinou Mike. - No  um cobertorzinho!  meu casaco de lacrosse da sorte!
        - Isso  muito pior.
        Ali apareceu na tela de novo, parecendo vivaz, vibrante e despreocupada. Como  que Ali poderia estar morta? Assassinada?
        Ento, a irm mais velha de Spencer, Melissa, e o namorado Ian passaram pela cmera.
        - Ei, garotas - cumprimentou Ian.
        - Oi - respondeu Spencer, alto demais.
        Aria sorriu para a TV Ela tinha se esquecido de como todas ficavam derretidas pelo Ian. Ele era uma das pessoas para quem elas passavam trote de vez em quando 
- e tambm Jenna Cavanaugh, antes de elas a machucarem; Noel Kahn porque era bonitinho; e Andrew Campbell porque Spencer o achava irritante. Com Ian, elas se revezavam 
fingindo ser garotas do disque sexo.
        A cmera pegou Ali revirando os olhos para Spencer. Depois, Spencer fez careta pra Ali pelas costas. Tpico, pensou Aria. Na noite em que Ali desapareceu, 
Aria no tinha sido hipnotizada, por isso ouviu a briga de Spencer e Ali. Quando elas correram para fora do celeiro, Aria esperou um ou dois minutos, depois as seguiu. 
Aria chamou as duas pelo nome, mas no conseguiu alcan-las. Ela voltou para dentro, imaginando se Ali e Spencer simplesmente as tinham largado, encenando a coisa 
toda para poderem fugir para uma festa mais legal. Mas, finalmente, Spencer voltou l para dentro. Ela parecia to perdida, como se estivesse em transe.
        Na tela, Ian se jogou no sof, perto de Ali.
        - E ento, o que vocs, meninas, esto fazendo?
        - Ah, nada de mais. - Aria ajustou o foco da cmera. - Estamos fazendo um filme.
        - Um filme? - perguntou Ian. - Posso participar?
        - Claro - respondeu Spence, rpido. Ela se jogou no sof do outro lado de Ian. -  um talk show. Eu sou a entrevistadora. Voc e Ali so meus convidados. 
Vou pegar voc primeiro.
        A cmera desfocou do sof e se fixou no telefone fechado de Ali, que estava perto da mo dela no sof. Focou cada vez mais perto at que o minsculo LED 
do telefone tomasse a tela toda. Mesmo assim, Aria ainda no havia descoberto quem mandara a mensagem para Ali naquela noite.
        -  Pergunte  quem    o  professor preferido  dele  em Rosewood - falou a voz mais jovem e ligeiramente mais aguda de Aria, por trs da cmera.
        Ali riu e olhou diretamente para a lente.
        - Essa  uma boa pergunta para voc, Aria. Voc deveria perguntar a ele se quer ter um encontro com alguma de suas professoras. Em um estacionamento vazio.
        Aria engasgou, e ouviu a si mesma mais nova engasgando na tela, tambm. Ali havia realmente dito aquilo? Na frente de todos eles?
        E ento o vdeo acabou.
        Mike se virou para ela. Ele tinha p laranja fluorescente de Doritos em volta da boca.
        - O que ela quis dizer com essa parada de se enroscar com professores? Parecia que ela estava falando apenas com voc.
        Um rudo seco escapou da boca de Aria. A contara a Ella que sua prpria filha sabia do caso de Byron durante todos esses anos, mas Mike ainda no sabia. 
Ele ficaria muito desapontado com ela. 
        Mike se levantou.
        - Tanto faz.
        Aria sabia que ele estava tentando agir de forma casual e despreocupada, mas ele deu o fora da sala, batendo num porta-retratos com a foto autografada de 
Lou Reed - o dolo do rock de Byron, e um dos poucos pertences do ex-marido em que Ella no havia dado sumio. Ela o ouviu subindo para o quarto e batendo a porta 
com fora.
        Aria colocou a cabea entre as mos. Aquela era a milionsima vez em que desejava estar de volta a Reykjavk, escalando uma geleira, montando seu pnei islands, 
Gilda, por uma rea seca da erupo de um vulco, ou at mesmo comendo gordura de baleia, que todos na Islndia pareciam adorar.
        Ela desligou a TV, e a casa ficou assustadoramente silenciosa. Quando ouviu um tilintar na porta, deu um pulo. Na sala, viu sua me, carregando vrias sacolas 
de compras de lona do mercado de produtos orgnicos de Rosewood.
        Ella viu Aria e sorriu, cansada.
        - Ol, querida.
        Desde que expulsara Byron, Ella parecia mais desleixada que o normal. Seu blazer de algodo estava mais largo que nunca, as calas de seda tinham uma mancha 
de tahini na coxa, e o seu longo cabelo castanho-escuro estava preso num ninho de rato no topo da cabea.
        - Deixe-me ajudar. - Aria pegou um monte sacolas dos braos de Ella. As duas andaram at a cozinha, ergueram as sacolas, as puseram na bancada do meio e 
comearam a desempacotar.
        - Como foi o seu dia? - murmurou Ella. 
        Ento, Aria lembrou-se.
        -  Meu Deus, voc nunca vai acreditar no que eu fiz -exclamou, sentindo como se fosse desmaiar. Ella olhou para ela antes de guardar a manteiga de amendoim. 
- Eu fui at a Hollis. Porque eu estava procurando por... voc sabe. Ela. - Aria no queria falar o nome de Meredith. - Ela estava dando uma aula de arte, ento, 
eu corri para a sala, peguei um pincel, e pintei um A no peito dela.Voc sabe, como aquela mulher em A Letra Escarlate? Foi demais.
        Ella parou, segurando um pacote de macarro de trigo integral no ar. Parecia nauseada.
        - Ela no entendeu o que estava acontecendo - continuou Aria. - E a eu disse: Agora todos sabero o que voc fez. - Ela sorriu e abriu os braos. Tch-nam!
        Os olhos de Ella viravam de um lado para o outro, processando a informao.
        -Voc no se deu conta de que a Hester Prynne deveria ser uma personagem que desperta simpatia no leitor?
        Aria franziu a testa. Ela estava apenas na pgina oito.
        - Eu fiz isso por voc - explicou Aria, baixinho. - Por vingana.
        -Vingana? - a voz de Ella balanou. - Obrigada. Isso me faz parecer muito s. Como se eu estivesse lidando muito bem com isso. J est difcil para mim 
como est. Voc no percebe que a fez parecer... uma mrtir?
        Aria deu um passo em direo a Ella. Ela no havia pensado nisso.
        - Me desculpe...
        Ento, Ella encostou-se ao balco e comeou a soluar. Aria ficou sem ao. Suas pernas pareciam argila sada do forno, duras e sem utilidade. Ela no podia 
conceber o que a me estava passando e tinha piorado ainda mais a situao.
        Do lado de fora da cozinha, um beija-flor pousou na rplica de um pnis de baleia que Mike tinha comprado no museu falolgico de Reykjavk. Em outras circunstncias, 
Aria teria apontado para ele - beija-flores eram raros ali, especialmente os que pousavam em pnis de baleia de mentira - mas no naquele dia.
        - Eu no consigo nem olhar pra voc agora - Ella finalmente gaguejou.
        Aria colocou a mo no peito, como se a me a tivesse espetado com uma de suas facas Wsthof.
        - Desculpe. Eu queria que Meredith pagasse pelo que fez. - Como Ella no respondeu, a sensao de secura cida no estmago de Aria cresceu ainda mais. - 
Talvez eu devesse sair daqui por enquanto, ento, se voc no consegue olhar para mim.
        Ela parou, esperando Ella se pronunciar e dizer: No, no  isso que eu quero, mas a me ficou quieta.
        - Sim, talvez seja uma boa ideia - concordou ela, baixinho. 
        -Ah. - Os ombros de Aria afundaram e o queixo tremeu. - Ento, eu... eu no vou voltar para c amanh, depois da escola. - Ela no tinha ideia de para onde 
iria, mas isso no importava agora. Tudo que importava era fazer a nica coisa que deixaria sua me feliz.
9
EI, PESSOAL, UMA GRANDE SALVA DE
PALMAS PARA SPENCER HASTINGS!
Na tera-feira  tarde, enquanto a maioria dos alunos do ensino mdio de Rosewood Day estava almoando, Spencer sentou-se em cima da mesa de conferncia que ficava 
na sala do livro do ano. Oito computadores Mac G5 piscavam, um bando de cmeras Nikon de lentes longas, seis calouras, e um calouro nerd e ligeiramente efeminado 
a cercavam.
        Ela tocou as capas de alguns livros do ano antigos de Rosewood Day. A cada ano, os livros eram apelidados de A Mula por causa de alguma piada apcrifa interna 
de 1920 que at mesmo os professores mais velhos j tinham esquecido havia muito tempo.
        - Na Mula desse ano, acho que ns devamos tentar capturar um pouquinho de como  a vida dos alunos de Rosewood Day.
        Os funcionrios do anurio rapidamente escreveram "um pouquinho de como  vida" nos seus cadernos de espiral.
        -Tipo... talvez ns pudssemos fazer algumas entrevistas rpidas com alunos aleatrios - continuou Spencer. - Ou perguntar s pessoas qual  a sua lista 
favorita de msicas de seus iPods, e depois publicar em tabelas perto das fotos de cada um. E como est indo a natureza morta? - Na ltima reunio, eles tinham planejado 
pedir para alguns garotos esvaziarem o contedo de suas bolsas para documentar o que as meninas e meninos de Rosewood Day estavam carregando por a.
        - Eu tirei fotos timas das coisas na mala de futebol do Brett Weaver e da bolsa da Mona Vanderwaal - informou Brenna Richardson.
        - Fantstico - elogiou Spencer. - Continuem assim.
        Spencer fechou a agenda de couro verde-folha e dispensou o pessoal. Quando eles saram, ela agarrou sua bolsa Kate Spade de tecido preto e pegou o Sidekick.
        L estava. A mensagem de A que ela ficou torcendo para que nunca estivesse l.
        Quando ela colocou o telefone de volta na bolsa, seus dedos encostaram em algo no bolso interno: o carto de Darren Wilden. Ele no foi o primeiro policial 
que perguntou a Spencer sobre a noite em que Ali desaparecera, mas ele era o nico que tinha parecido... suspeitar de algo mais.
        A lembrana daquela noite era ao mesmo tempo clara como cristal e incrivelmente borrada. Ela se lembrava de vrios sentimentos: animao por ter o celeiro 
para passar a noite com as amigas, irritao por Melissa estar l, vertigem por Ian estar l tambm. O beijo deles tinha rolado algumas semanas antes. Mas ento 
Ali comeou a falar sobre como Melissa e Ian eram o casal mais bonito, e as emoes de Spencer balanaram de novo. Ali j tinha ameaado contar a Melissa sobre o 
beijo.
        Quando Ian e Melissa saram, Ali tentou hipnotiz-las, e ela e Spencer tiveram uma briga. Ali saiu, Spencer correu atrs dela, e depois... nada. Mas o que 
ela nunca contou aos policiais - ou a sua famlia, ou s amigas - foi que, s vezes, quando pensava sobre aquela noite, parecia que havia um buraco negro no meio 
dela. Que tinha acontecido alguma coisa de que ela no conseguia se lembrar.
        De repente, uma viso apareceu diante dos olhos de Spencer. Ali rindo sarcasticamente e se virando para ir embora.
        Spencer parou no meio do corredor lotado e algum trombou nas suas costas.
        - Voc pode se mexer? - reclamou a garota atrs dela. - Alguns de ns precisam chegar  aula.
        Spencer deu um passo  frente sem muita convico. O que quer que ela tivesse acabado de lembrar desaparecera rapidamente, mas ela sentia como se tivesse 
estado num terremoto. Ela olhou em volta procurando por vidro estilhaado e estudantes correndo para todos os lados, certa de que todos tinham sentido isso tambm, 
mas tudo parecia perfeitamente normal. A alguns passos de distncia, Naomi Zeigler inspecionava o prprio reflexo no pequeno espelho de seu armrio. Dois calouros 
perto da placa de Professor do Ano riam da barba pontuda e dos chifres desenhados na foto do senhor Craft. As janelas que davam de frente para o ptio no tinham 
nenhum sinal de rachadura, e nenhum dos vasos na vitrine de Cermica III havia cado. O que teria sido essa viso que Spencer acabara de ter? Por que se sentia to... 
sorrateira?
        Ela deslizou para dentro da sala de economia avanada e desabou em sua carteira, que ficava do lado de um retrato bem grande de um J. P. Morgan de cenho 
franzido. Quando o restante da turma entrou e todos se sentaram, Lula Molusco caminhou para a frente da sala.
        - Antes do vdeo de hoje, eu tenho um aviso. - Ele olhou para Spencer. O estmago dela revirou. No queria todo mundo olhando para ela justo naquele momento.
        -  Como primeiro trabalho de redao, Spencer Hastings fez uma discusso convincente e muito eloquente sobre a teoria da mo invisvel - proclamou Lula Molusco, 
tocando a gravata, que tinha a estampa de uma nota de cem dlares com o rosto de Benjamin Franklin. - E, como vocs devem ter ouvido, eu a indiquei para o prmio 
Orqudea Dourada.
        Lula Molusco comeou a aplaudir, e o resto da classe o seguiu. Isso durou quinze insuportveis segundos.
        - Mas eu tenho outra surpresa - continuou Lula Molusco. - Eu acabei de falar com um membro do jri, e, Spencer, voc foi para a final.
        A classe explodiu em aplausos de novo. Algum no fundo assobiou. Spencer permaneceu sentada, imvel. Por um momento, ela perdeu a viso por completo. Tentou 
colocar um sorriso no rosto.
        Andrew Campbell, que sentava perto dela, deu um tapinha em seu ombro.
        - Bom trabalho.
        Spencer olhou em volta. Ela e Andrew mal se falavam desde que ela havia sido a pior companhia do mundo na Foxy, largando-o no baile. Na maioria das vezes, 
ele lanava olhares desprezveis para ela.
        - Obrigada - grunhiu ela, quando achou a voz.
        - Voc deve ter trabalhado duro de verdade nisso, no? Voc usou fontes extras?
        -  Hum-hum. - Spencer pegou com fria a papelada na pasta de economia e comeou a arrum-la. Alisou as orelhas e dobras e tentou organizar tudo por data. 
Na verdade, a nica "fonte extra" de Spencer havia sido o trabalho de Melissa. Quando ela tentara fazer a pesquisa necessria para o trabalho, at mesmo a definio 
na Wikipdia de mo invisvel era complexa demais para ela. As primeiras frases do trabalho da irm eram bem mais claras: "O conceito da mo invisvel, do grande 
economista escocs Adam Smith, pode ser resumido muito facilmente, seja descrevendo os mercados do sculo XIX ou aqueles do sculo XXI: pode-se pensar que as pessoas 
esto fazendo coisas para ajudar, mas, na verdade, todo mundo est fazendo por si mesmo." Mas quando ela leu o resto do trabalho, sua mente ficou to enevoada quanto 
a sauna a vapor de sua casa.
        -  Que tipo de fontes? - continuou Andrew. - Livros e artigos de revistas? - Quando ela olhou para ele de novo, ele parecia ter um sorrisinho no rosto, e 
Spencer se sentiu tonta. Ele sabia?
        - Ah, fontes como... como os livros que McAdam sugeriu na lista dele - balbuciou ela.
        - Ah... bem, que bom, ento, parabns. Espero que voc vena.
        -  Obrigada - respondeu ela, decidindo que Andrew no teria como saber. Ele s estava com cimes. Spencer e Andrew eram sempre classificados como o nmero 
um e o nmero dois na classe e estavam sempre trocando de lugar. Andrew provavelmente monitorava todas as conquistas de Spencer como um corretor de valores monitora 
o ndice Dow Jones. Spencer voltou a arrumar a pasta, apesar de aquilo no estar fazendo com que se sentisse melhor.
        Enquanto Lula Molusco diminua as luzes e comeava o documentrio Microeconomia e o consumidor, com uma musiquinha brega e ritmada, o Sidekick de Spencer 
vibrou em sua bolsa. Devagar, ela conseguiu alcan-lo e o pegou. Uma nova mensagem.
        Spence: Eu sei o que voc fez. Mas no conto para ningum 
        se, voc fizer EXATAMENTE o que eu mandar. Quer saber o que 
        acontece se voc no fizer? V  competio de natao de 
        Emily... e voc ver. - A
        Algum ao lado de Spencer limpou a garganta. Ela olhou em volta e l estava Andrew, encarando-a. Os olhos dele brilhavam, iluminados pela luz que vinha do 
filme. Spencer virou o rosto na direo do documentrio, mas ela ainda podia sentir os olhos de Andrew no escuro, pregados nela.
10
CERTA PESSOA NO QUIS DAR OUVIDOS
No tempo livre em Rosewood Day para o torneio de natao contra a Drury Academy, Emily abriu seu armrio de natao e tirou as alas do mai de competio Speedo 
Fastskin. Este ano, o time de natao de Rosewood Day tinha arrasado com roupas de competio de nvel olmpico que cobriam quase todo o corpo, confeccionadas em 
tecido antiatrito que haviam acabado de chegar, a tempo para a competio daquele dia. As roupas de competio cobriam desde os tornozelos, aderindo a cada centmetro 
da pele do atleta, revelando cada salincia, lembrando a foto em que uma sucuri devora um ratinho, que Emily vira no livro de biologia. Emily sorriu para Lanie Iler, 
sua colega de equipe.
        - Estou to feliz de poder me livrar deste negcio. 
        Emily tambm estava feliz por ter decidido contar sobre A para Wilden. Na noite anterior, depois que ela voltou para casa, ao sair da casa de Hanna, ela 
havia telefonado para o policial e marcado de encontr-lo na delegacia de Rosewood, mais tarde, naquela noite. Emily no dava a mnima para o que as outras diriam 
ou pensariam sobre as ameaas de A. Com a polcia envolvida, elas poderiam acabar com todo aquele drama de uma vez por todas.
        - Voc tem tanta sorte de j ter acabado - respondeu Laine. Emily j tinha nadado e vencido todas as competies das quais deveria participar naquele dia; 
ento, a nica coisa que lhe restara fazer era torcer junto com os outros zilhes de alunos de Rosewood que tinham aparecido para assistir ao torneio. Dali do vestirio, 
ela podia ouvir as lderes de torcida gritando e esperou que elas no escorregassem no cho molhado da rea de competio. Tracey Reid tinha tomado um belo tombo 
antes da primeira bateria.
        - Ei, garotas. -A tcnica, Lauren, entrou com passos largos no vestirio. Naquele dia, como de hbito, Lauren vestia uma de suas camisetas com dizeres inspiracionais 
sobre natao: AS DEZ MELHORES RAZES PARA NADAR (NMERO CINCO: PORQUE POSSO COMER 5000 CALORIAS SEM ME SENTIR CULPADA). Ela colocou a mo no ombro de Emily.
        - Grande trabalho, Em. Tomar a frente no medley daquele jeito? Fantstico!
        - Obrigada. - Emily ficou vermelha.
        Lauren se inclinou sobre o banco vermelho de madeira, no meio do vestirio.
        - Tem uma olheira da Universidade do Arizona aqui -informou ela, em voz baixa, para que s Emily ouvisse. - Ela perguntou se poderia dar uma palavrinha com 
voc, rapidinho. Pode ser?
        Emily arregalou os olhos.
        -  Claro! - A Universidade do Arizona tinha uma das melhores equipes de natao do pas.
        -  timo. Vocs podem conversar no meu escritrio, se voc quiser. - Lauren sorriu de novo para Emily. Ela desapareceu na direo do saguo que levava  
rea de competio, e Emily a seguiu, passando por sua irm, Carolyn, que vinha na direo oposta.
        -  Carolyn, adivinhe! - Emily estava saltitante. - Uma recrutadora da Universidade do Arizona que conversar comigo! Se eu for para l e voc for para Stanford, 
ficaremos perto uma da outra! - Carolyn se formaria naquele ano e havia sido recrutada pelo time de natao de Stanford.
        Carolyn olhou para Emily e desapareceu para dentro de um dos cubculos do banheiro, batendo a porta atrs de si com um estrondo. Emily recuou, surpresa. 
Ela e a irm no eram muito prximas, mas esperava um pouquinho mais de entusiasmo do que aquilo.
        Enquanto Emily caminhava na direo do saguo que levava  piscina, o rosto de Gemma Curran a espiou de um dos chuveiros. Quando Emily a encarou, Gemma fechou 
a cortina. E conforme passou pelas pias, Amanda Williamson sussurrava algo para Jade Smythe. Quando Emily encontrou seus olhos atravs do espelho, a boca delas formara 
um O mudo de espanto. Emily sentiu calafrios. a que estava acontecendo?
        - Deus, agora parece que tem ainda mais gente por aqui! - murmurou Lanie, dirigindo-se para a rea das piscinas, logo atrs de Emily. E ela tinha razo: 
as arquibancadas pareciam mais cheias do que estavam na primeira metade da competio. A banda, posicionada perto dos trampolins, estava tocando uma msica enrgica, 
e o mascote da escola, Hammerhead, com sua fantasia de tubaro-martelo feita de espuma cinzenta havia se juntado s lderes de torcida, na frente da arquibancada. 
Todo mundo estava nas arquibancadas: os garotos e garotas populares, os meninos do time de futebol, as garotas do teatro, e at mesmo os professores. Spencer Hastings 
estava sentada ao lado de Kirsten Cullen. Maya estava l em cima, digitando com fria no teclado de seu celular e Hanna Marin estava sentada prxima a ela, sozinha, 
encarando a plateia, olhando para a multido acima dela. E l estavam os pais de Emily, usando as camisetas brancas e azuis da equipe de natao de Rosewood, com 
broches que diziam VAI, EMILY! e VAI, CAROLYN! Emily tentou acenar para eles, mas estavam ocupados demais com um pedao de papel, provavelmente a lista de classificao. 
a sr. Shay, um professor de biologia velho e esquisito que sempre assistia aos treinos porque tinha nadado mil anos atrs, segurava uma cpia a poucos centmetros 
do rosto. A lista de classificao no era to interessante assim. S listava a ordem das competies.
        James Freed colocou-se no caminho de Emily. Havia um sorriso largo em seu rosto.
        - Ei, Emily - disse ele, com cara de gozao -, eu no fazia ideia!
        Emily franziu a testa.
        - No fazia ideia... do qu?
        Mike, o irmo de Aria, se materializou ao lado de James.
        - Oi, Emily.
        Mona Vanderwaal veio por trs dos dois garotos.
        - Parem de incomod-la, vocs dois. - Ela se virou para Emily. - Ignore-os. Quero fazer um convite para voc. - Mona vasculhou em sua enorme bolsa de camura 
e entregou um envelope branco a Emily. Emily virou o envelope de cabea para baixo. O que quer que fosse, Mona tinha borrifado o papel com um perfume caro. Emily 
olhou para ela, confusa.
        -Vou dar uma festa de aniversrio no sbado - explicou Mona, enrolando uma longa mecha loura nos dedos. - Alguma chance de ver voc l?
        -Voc deveria mesmo ir - concordou Mike, arregalando os olhos.
        - Eu... - comeou Emily. Mas antes que ela pudesse dizer qualquer outra coisa, a banda comeou a tocar outro hino da equipe e Mona se afastou.
        Emily olhou para o convite de novo. Em nome de Deus, o que era aquilo? Ela no era o tipo de garota que recebia convites para festas direto das mos de Mona 
Vanderwaal. E ela tambm no era, com certeza, o tipo de garota que recebia olhares lascivos dos meninos.
        De repente, do outro lado da piscina, algo capturou seu olhar. Era uma folha de papel grudada na parede. No estava l antes do intervalo. E parecia familiar.
Como uma foto.
        Emily apertou os olhos. Seu corao parou. Era mesmo uma foto... de duas pessoas se beijando em uma cabine fotogrfica. Na cabine fotogrfica da festa de
Noel Kahn.
        - Ah, meu Deus. - Emily disparou pela rea da piscina, escorregando duas vezes no deque molhado.
        - Emily! - Aria correu na direo dela, vinda da porta da entrada, com suas botas plataforma de camura fazendo barulho contra o cho de cermica e o cabelo 
preto-azulado desarrumado cobrindo parte do rosto. - Desculpe, cheguei atrasada, mas ns podemos conversar?
        Emily no respondeu. Algum tinha posto uma cpia da foto perto do grande quadro de avisos que listava os competidores daquela bateria. Todo o time podia 
ver aquilo. Mas ser que eles saberiam que era ela?
        Ela arrancou a foto da parede. No canto, em letras grandes e pretas, estava escrito: VEJAM O QUE EMILY FIELDS TREINA QUANDO NO EST NA PISCINA!
        Bem, aquilo esclarecia tudo.
        Aria se inclinou para olhar melhor a foto.
        - Essa ... voc?
        O queixo de Emily tremeu. Ela amassou o papel, mas quando olhou em volta, viu outra cpia em cima da mochila de algum, j dobrada ao meio. Ela a pegou e 
a amassou tambm.
        Mas, ento, viu outra cpia cada no cho, perto das kickboards. E outra... nas mos da treinadora. Lauren olhava da foto para Emily e de Emily para a foto.
        - Emily? - disse ela, baixinho.
        - Isso no pode estar acontecendo - sussurrou Emily, passando a mo pelo cabelo molhado. Ela olhou para a cesta de lixo feita de arame que ficava perto do 
escritrio de Lauren. Havia pelo menos dez fotos dela beijando Maya jogadas fora ali no fundo. Algum tinha jogado uma lata de Sunkist pela metade em cima dos papis. 
O refrigerante havia escorrido, pintando seus rostos de laranja. Havia mais cpias perto dos bebedouros. E tambm perto das prateleiras onde o equipamento ficava 
armazenado. Seus colegas de equipe, que saam dos vestirios, olharam para ela pouco  vontade. Seu ex-namorado, Ben, sorriu para ela, como quem dizia: Sua experienciazinha 
lsbica no est mais sendo to bacana, est?
        Aria pegou uma cpia que parecia ter vindo flutuando l do teto. Ela focou o olhar e estreitou os lbios cor de morango.
        - E da?  voc beijando algum. - Os olhos dela arregalaram. - Ah..
        - Pois  - gemeu Emily, desamparada. 
        Emily olhou em volta, fora de si.
        -Voc viu quem est distribuindo isso? -Aria sacudiu a cabea. Emily abriu o bolsinho de sua bolsa de natao e pegou o celular. Uma nova mensagem,  claro.
        Emily, querida, sei que voc  do tipo olho por olho, ento, 
        quando voc fez planos para revelar quem eu sou, decidi reve-
        lar quem voc . Beijos! - A
        -  Droga - sussurrou Aria, lendo o texto por cima do ombro de Emily.
        Emily, de repente, se deu conta de uma coisa assustadora. Seus pais. Aquele papel no qual estavam concentrados... aquilo no era a lista de classificao. 
Era aquela Jato. Ela deu uma olhada para as arquibancadas. E, claro, seus pais estavam olhando direto para ela. Pareciam prestes a cair no choro, com os rostos vermelhos 
e as narinas dilatadas.
        -Tenho que sair daqui. - Emily olhou ao redor, procurando pela sada mais prxima.
        - De jeito nenhum. - Aria agarrou Emily pelo pulso e fez com que ela a encarasse. - No h nada do que se envergonhar. E se algum disser alguma coisa, que 
v se danar.
        Emily fungou. As pessoas podiam at chamar Aria de esquisita, mas ela era normal. Ela tinha um namorado. Ela nunca poderia saber como uma pessoa se sente 
numa situao dessas. 
        - Emily, essa  sua oportunidade! - protestou Aria. - A deve estar por aqui! - Ela olhou ameaadoramente para as arquibancadas.
        Emily percorreu as arquibancadas com o olhar mais uma vez. Seus pais ainda tinham as mesmas expresses magoadas e irritadas. O lugar de Maya estava vazio. 
Emily procurou por ela por toda a arquibancada, mas ela havia ido embora.
        A provavelmente estava l. E Emily desejou ser corajosa o bastante para escalar a arquibancada e sacudir uma por uma as pessoas da plateia, at que algum 
confessasse. Mas ela no conseguiria.
        - Eu... eu sinto muito - disse Emily abruptamente, e correu para fora do vestirio. Ela passou pelas mais de cem pessoas que sabiam o que ela era de verdade, 
pisando em cpias da foto dela com Maya pelo caminho.
11
NEM MESMO UM SISTEMA DE SEGURANA
SUPERAVANADO PROTEGE VOC DE TUDO
Momentos depois, Aria passou pelas portas embaadas da piscina de Rosewood Day e juntou-se a Spencer e Hanna, que estavam conversando baixinho perto das mquinas 
de refrigerante.
        -  Coitada da Emily - sussurrou Hanna para Spencer.  - Vocs sabiam... disso?
        Spencer balanou a cabea.
        - No fazia a menor ideia.
        - Vocs se lembram de quando entramos escondidas na piscina dos Kahn, quando eles estavam de frias e nadamos peladas? - murmurou Hanna. - E de todas as 
vezes que nos trocamos no vestirio juntas? Eu nunca achei estranho.
        - Nem eu. -Aria falou alto, desviando de um calouro para que ele pudesse pegar um refrigerante na mquina de Coca-Cola.
        - Vocs acham que ela achava alguma de ns bonita? - Hanna arregalou os olhos. - Mas eu estava to gorda naquela poca - acrescentou ela, parecendo um pouco 
desapontada.
        - Foi A que distribuiu estes panfletos - disse Aria a Hanna e Spencer. Ela apontou para a piscina. -A deve estar aqui.
        Elas olharam ao redor da piscina. Os competidores esperavam nos blocos de largada. O mascote desfilava de um lado para outro nas bordas. As arquibancadas 
ainda estavam lotadas.
        - O que ns devemos fazer a respeito? - perguntou Hanna, cerrando os olhos. - Parar a competio?
        -  No devemos fazer nada. - Spencer fechou o zper do seu casaco cqui da Burberry at o queixo. - Se ns procurarmos por A, A pode ficar bravo... e fazer 
algo pior.
        - A... est... aqui! - repetiu Aria. - Esta pode ser a nossa grande chance!
        Spencer olhou para a multido de jovens na antessala da ala de natao.
        - Eu... eu preciso ir. - Com isso, ela disparou pelas portas giratrias e correu pelo estacionamento.
        Aria virou-se para Hanna.
        - Spencer correu como se ela fosse A - disse, brincando.
        - Ouvi dizer que ela  finalista em algum concurso de trabalhos escolares. - Hanna pegou seu p compacto da Chanel e comeou a passar no queixo. -Voc sabe 
que ela fica doida quando est competindo. Provavelmente foi para casa estudar.
        -Verdade - sussurrou Aria. Talvez Spencer estivesse certa. Talvez A pudesse mesmo fazer algo pior se elas procurassem por ele nas arquibancadas.
        De repente, algum arrancou o capuz de Aria, por trs. Ela se virou.
        - Mike - engasgou ela. - Santo Deus. 
        O irmo riu.
        -Voc conseguiu uma foto da sesso lsbica? - Ele fingiu lamber a foto de Emily e Maya. -Voc me arruma o telefone da Emily?
        -  Claro que no. - Aria observou seu irmo. O bon de lacrosse STX estava amassado sobre seus cabelos negros, e ele usava o casaco branco e azul do time 
da Rosewood Day. Ela no o via desde a noite anterior.
        -  Ento. - Mike colocou as mos nos quadris. - Ouvi dizer que voc foi expulsa de casa.
        - Eu no fui expulsa - defendeu-se Aria. - Eu apenas achei que seria melhor ficar fora por um tempo.
        - E voc vai mudar para a casa do Sean?
        -Vou - respondeu Aria. Depois de Ella ter dito a ela que fosse embora, Aria ligara para Sean, histrica. Ela no estava pedindo um convite, mas Sean ofereceu, 
dizendo que no seria problema algum.
        O queixo de Hanna caiu.
        -Voc vai se mudar para a casa do Sean? Tipo assim, para a casa dele?
        - Hanna, no  porque eu quero - explicou Aria, rapidamente. -  uma emergncia.
        Hanna desviou o olhar.
        -  Que seja. Eu no me importo. Voc vai odiar. Todo mundo sabe que ficar com os pais do namorado  o suicdio da relao.
        Ela se virou, empurrando a multido para chegar  porta.
        -  Hanna! - chamou Aria, mas Hanna no se virou. Ela fitou Mike. -Voc tinha que tocar no assunto quando ela estava bem aqui? Voc no tem tato algum.
        Mike deu de ombros.
        - Desculpe, eu no falo TPMs. - Ele pegou uma barra de cereal do bolso e comeou a com-la, sem se incomodar em oferecer a Aria. -Voc vai  festa da Mona?
        Aria fez beicinho.
        - No tenho certeza. Ainda no pensei a respeito.
        - Voc est deprimida ou algo assim? - perguntou Mike, com a boca cheia.
        Aria no teve que pensar muito a respeito.
        - Mais ou menos. Quer dizer... papai foi embora. Como voc se sente?
        A feio de Mike mudou de aberta e brincalhona para dura e resguardada. Ele deixou o papel cair ao seu lado.
        - Ento, na noite passada eu perguntei umas coisas pra mame. Ela me disse que o papai estava vendo a menina antes de irmos pra Islndia. E que voc sabia.
        Aria colocou as pontas do cabelo na boca a encarou a lata azul de reciclagem no canto. Algum tinha desenhado um par de peitos na tampa.
        - Sim.
        - Ento, por que voc no me contou? 
        Aria olhou para ele.
        - Byron me pediu pra no contar.
        Mike deu uma mordida violenta na barra de cereal.
        - Mas tudo bem contar pra Alison DiLaurentis. E tudo bem ela dizer isso num vdeo que est em todos os noticirios.
        -  Mike... Eu no contei a ela. Ela estava comigo quando aconteceu.
        - Que seja - grunhiu Mike, esbarrando no tubaro mascote ao forar a porta dupla da piscina. Aria pensou em ir atrs dele, mas no foi. Ela se lembrou, de 
repente, de um dia em Reykjavk, quando deveria ter tomado conta de Mike, mas em vez disso foi ao spa geotrmico Lagoa Azul com seu namorado, Hallbjorn. Quando voltou, 
cheirando a enxofre e coberta de sais curativos, descobriu que Mike tinha ateado fogo a metade das trelias do quintal. Aria entrou numa fria por causa disso - e, 
realmente, havia sido sua culpa. Ela notara o irmo olhando com voracidade para os fsforos da cozinha antes de ir para o spa. Poderia t-lo impedido. Provavelmente, 
poderia ter impedido Byron tambm.
- Ento, este aqui  seu. - Sean conduziu Aria pelo corredor com piso de mogno, imaculadamente limpo, at um grande quarto branco. Tinha um assento colado numa janela 
grande, cortinas brancas, e um buqu de flores igualmente brancas na mesa ao fundo.
        - Eu amei. - O quarto parecia o hotel parisiense em que a sua famlia ficou hospedada quando o pai foi entrevistado por um canal francs de televiso, por 
ser especialista em gnomos. -Voc tem certeza de que no causei nenhum incmodo?
        - Claro. - Sean deu um beijo suave numa das bochechas de Aria. -Vou deixar voc se acomodar.
        Aria olhou pela janela, para o tom rosado do fim de quinta-feira e no conseguiu evitar comparar aquela vista com a de sua casa. A propriedade dos Ackard 
estava localizada bem no meio do bosque e envolta por pelo menos dez acres de terras intocadas. A casa mais prxima, que parecia um castelo robusto com torres em 
estilo medieval, estava a pelo menos trs quadras de futebol de distncia. A casa de Aria ficava numa vizinhana adorvel, mas capenga, perto da faculdade. As nicas 
coisas que ela conseguia ver no quintal de seus vizinhos eram uma ridcula coleo de banheiras de passarinho, animais de pedra e bonecos de jardim.
        - Tudo certo com o quarto? - perguntou a sra. Ackard, madrasta de Sean, ao ver Aria descer as escadas para a cozinha.
        -  timo - disse Aria. - Muito obrigada.
        A sra. Ackard sorriu docemente de volta. Ela era loira, meio gordinha, com olhos azuis inquisitivos e uma boca que parecia sorrir mesmo quando estava relaxada. 
Quando Aria fechava os olhos e imaginava uma me, a sra. Ackard era bem o que ela tinha em mente. Sean havia lhe contado que antes de se casar com o pai dele, ela 
trabalhava como editora de uma revista na Filadlfia, mas que, aps o casamento, se tornara dona de casa em tempo integral, mantendo a monstruosa a casa dos Ackard 
sempre pronta para uma sesso de fotografia. As mas na tigela de madeira na bancada estavam sem um arranho, as revistas no console da sala estavam todas viradas 
para o mesmo lado e as franjas do gigantesco tapete oriental estavam arrumadas, como se tivessem acabado de ser
penteadas.
        - Estou fazendo ravili de cogumelos. - A sra. Ackard convidou Aria a cheirar a panela de molho. - Sean me falou que voc  vegetariana.
        - Eu sou - concordou Aria, docemente -, mas a senhora no precisava fazer isso por mim.
        - Sem problemas - disse a sra. Ackard, calorosa. Havia tambm batatas fatiadas, salada de tomate e um filo do delicioso po gourmet de sete gros da Fresh 
Fields, do qual Ella tanto tirava sarro, afirmando que qualquer um que pagasse onze dlares por um pouco de farinha e gua precisava fazer um exame mental.
        A sra. Ackard tirou a colher de madeira da panela e a colocou no canto da bancada.
        -Voc era muito amiga da Alison DiLaurentis, no era? Eu vi o vdeo de vocs no noticirio.
        Aria abaixou a cabea.
        - . - Um bolo cresceu em sua garganta. Ver Ali to viva no vdeo tinha trazido o luto  tona novamente.
        Para surpresa de Aria, a sra. Ackard passou o brao em volta de seu ombro e deu uma apertadinha.
        - Sinto muito - murmurou ela. - No consigo imaginar o que voc est sentindo.
        Lgrimas surgiram nos olhos de Aria. Ela sentiu como se estivesse aninhada nos braos de uma me, mesmo que aquela no fosse a sua.
        Sean sentou-se perto de Aria no jantar, e tudo era a anttese do que acontecia na casa da Aria. Os Ackard punham o guardanapo no colo, no tinha televiso 
ligada com o jornal zunindo ao fundo, e o sr. Ackard, que era rechonchudo e meio careca, mas tinha um sorriso carismtico, no lia o jornal na mesa. Os gmeos Ackard, 
Colin e Aidan, deixaram os cotovelos fora da mesa e no cutucaram um ao outro com o garfo - Aria s podia imaginar as atrocidades que Mike cometeria se ele tivesse 
um irmo gmeo.
        - Obrigada - agradeceu Aria, enquanto a sra. Ackard colocava mais leite em seu copo, mesmo com Ella e Byron tendo dito que leite contm hormnios sintticos 
e causa cncer. Aria tinha contado a Ezra sobre como seus pais haviam banido o leite na noite em que ela passou no apartamento dele, umas semanas antes. Ezra tinha 
rido, dizendo que a famlia dele tinha suas doideiras a respeito da granola tambm.
        Aria apoiou o garfo. Como  que Ezra tinha entrado nos seus pensamentos tranquilos durante o jantar? Rapidamente, olhou para Sean, que mastigava uma garfada 
de batatas. Ela se curvou e tocou o pulso dele. Ele sorriu.
        -  Sean nos disse que voc est fazendo aulas avanadas, Aria - comentou o sr. Ackard, espetando uma cenoura.
        Aria encolheu os ombros.
        - S ingls e artes plsticas.
        - Literatura inglesa foi a minha especializao na faculdade - disse a sra. Ackard, entusiasmada. - O que voc est lendo agora?
        - A letra escarlate.
        - Eu amo esse livro! - gritou a sra. Ackard, tomando um pequeno gole de vinho tinto. - Ele realmente mostra como a sociedade puritana costumava ser restritiva. 
Pobre Hester Prynne.
        Aria mordiscou a bochecha. Se ao menos ela tivesse falado com a senhora Ackard antes de ter marcado Meredith.
        - A Letra Escarlate. - O sr. Ackard colocou um dos dedos nos lbios. - Fizeram um filme desse livro, no fizeram?
        - A-h - fez Sean. - Com a Demi Moore.
        - Aquele em que o homem se apaixona por uma moa mais nova, certo? - acrescentou o sr. Ackard. -To escandaloso.
        Aria inspirou. Sentiu como se todos estivessem olhando para ela, mas, na verdade, apenas Sean a olhava. Os olhos dele estavam arregalados e voltados para 
baixo, mortificados. Desculpe, dizia a expresso dele.
        - No, David - corrigiu a sra. Ackard, baixinho, numa voz que indicava que ela fazia alguma ideia da situao de Aria. - Esse  Lolita.
        - Ah. Certo. - O sr. Ackard deu de ombros, aparentemente sem se dar conta do seu fora. - Eu misturo todos eles.
        Depois do jantar, Sean e os gmeos subiram para fazer a lio de casa, e Aria os seguiu. Seu quarto de hspedes era silencioso e convidativo. Em algum momento 
entre o jantar e aquela hora, a sra. Ackard tinha posto uma caixa de lenos de papel e um vaso de lavanda na mesa de cabeceira. O cheiro de casa de v que as flores 
tinham enchia o quarto. Aria despencou na cama, ligou no noticirio para ter companhia e abriu o Gmail no seu laptop. Havia apenas uma mensagem. O nome do remetente 
era uma srie de letras e nmeros misturados. Aria sentiu o corao parar ao clicar duas vezes para abrir a mensagem.
        Aria: Voc no acha que o Sean deveria saber do trabalho 
        extracurricular que voc fez com certo professor de ingls? 
        Afinal, bons relacionamentos so construdos com base na 
        verdade. - A
        Naquele momento, o aquecimento central desligou, fazendo Aria sentar-se ereta. L fora, um galho bateu. Depois outro. Algum estava observando.
        Ela engatinhou at a janela e deu uma olhada. Os pinheiros projetavam sombras disformes na quadra de tnis. Uma cmera de segurana, pendurada na beirada 
da casa, virava vagarosamente da direita para a esquerda. Uma luz tremeluziu, depois nada.
        Quando ela olhou de volta paro o quarto, alguma coisa no noticirio chamou sua ateno. Manaco visto novamente, informava a legenda na parte de baixo da 
tela.
        - Recebemos a informao de que algumas pessoas viram o Manaco de Rosewood - disse o reprter, no momento em que Aria aumentava o volume. - Aguarde para 
mais detalhes.
        Passava a imagem de um carro de polcia em frente a uma casa enorme, com torres de castelo. Aria voltou-se para a janela de novo - l estavam eles. Sem dvida, 
a luz azul da polcia estava piscando nos pinheiros mais distantes.
        Ela saiu para o corredor. A porta do Sean estava fechada; podia-se ouvir Bloc Party vindo l de dentro.
        - Sean? - Ela empurrou e abriu a porta do quarto dele. Os livros estavam espalhados pela escrivaninha, mas a cadeira estava vazia. Havia um amassado na cama 
perfeitamente arrumada, onde o corpo dele estivera. A janela estava aberta, e um vento frio soprou, fazendo as cortinas danarem como fantasmas.
        Aria no sabia mais o que fazer, ento, voltou para seu computador. Foi quando viu um novo e-mail.
        PS.: Posso ser um p no saco, mas no sou assassino. Aqui 
        vai uma pista para quem no faz ideia: algum queria alguma
        coisa da Ali. O assassino est mais perto do que voc pensa. 
        -A
12
AH, A VIDA NA CORTE
Quinta  noite, Hanna se arrastou para o ptio do Shopping King James, mexendo no seu BlackBerry. Ela tinha mandado uma mensagem de texto para Mona, "Ainda vamos 
nos encontrar p minha prova d vestido?", mas no tinha recebido resposta.
        Mona provavelmente estava chateada com ela por causa do lance do Amiganiversrio. De qualquer forma, Hanna tinha tentado explicar por que suas velhas amigas 
tinham ido a sua casa, mas Mona a interrompera antes mesmo que pudesse comear, declarando com sua voz mais gelada:
        - Eu vi voc e suas amiguinhas queridas no jornal. Parabns por sua grande estreia na televiso. - E a, desligou. Hanna tinha certeza de que ela estava 
danada da vida, mas sabia que Mona no conseguia ficar brava com ela por muito tempo. Se ficasse, quem seria sua Melhor Amiga Para Sempre?
        Hanna passou pela Rive Gauche, a brasserie do Shopping, onde deveria ter sido o jantar de Amiganiversrio delas no dia anterior. Era uma cpia do Balthazar 
de Nova York, que era uma cpia de zilhes de cafs em Paris. Ela avistou um grupo de meninas no buf favorito de Hanna e Mona. Uma das meninas era Naomi. A outra 
era Riley. E a menina ao lado dela era... Mona.
        Hanna olhou de novo. O que a Mona estava fazendo ali com... elas?
        Apesar das luzes do Rive Gauche serem fracas e romnticas, Mona estava usando seus culos de sol de lente rosa. Naomi, Riley, Kelly Hamilton, e Nicole Hudson 
- Naomi e Riley, as bajuladoras do segundo ano - cercavam-na, e havia um enorme e intocado prato de batatas fritas no meio da mesa. Mona parecia estar contando uma 
histria, balanando as mos, animada, e abrindo os grandes olhos azuis. Ela chegou ao ponto alto da histria, e as outras deram gritinhos.
        Hanna ajeitou os ombros. Caminhou pela antiga porta marrom do caf. Naomi acenou para Kelly e elas cochicharam juntas.
        - O que vocs esto fazendo aqui? - perguntou ela, parando perto de Riley e Naomi.
        Mona inclinou-se para a frente e apoiou-se nos cotovelos.
        - Bem, no  uma surpresa? Eu no sabia se voc ainda queria ser da corte, j que anda to ocupada com suas velhas amigas. - Ela jogou o cabelo por sobre 
o ombro e tomou um gole de Coca zero.
        Hanna revirou os olhos e os pousou no fim da bancada vermelha do buf.
        -  claro que ainda quero estar na sua corte, sua vaca dramtica.
        Mona deu um sorrisinho para ela.
        - Sua decadente. 
        -Vadia - rebateu Hanna.
        - Vagabunda - disse Mona. Hanna gargalhou... e Naomi, Riley e as outras tambm. s vezes, ela e a Mona tinham brigas de mentira como essa, entretanto, normalmente 
elas no tinham plateia.
        Mona enrolou um pedao de cabelo louro claro em volta do dedo.
        - De qualquer forma, eu decidi que quanto mais, melhor. Cortes pequenas so entediantes. Quero que essa festa seja a melhor de todas.
        - Ns estamos to animadas - disse Naomi, efusiva. - Eu mal posso esperar para provar o vestido Zac Posen que a Mona escolheu para ns.
        Hanna abriu um meio sorriso. Aquilo realmente no fazia nenhum sentido. Todo mundo na Rosewood sabia que Riley e Naomi andavam falando de Hanna pelas costas. 
E no tinha sido no ano passado que a Mona prometera odiar Naomi para sempre, depois de ela ter espalhado a fofoca de que Mona tinha feito enxerto de pele? Hanna 
tinha ficado amiga de mentira da Naomi por isso - tinha fingido que ela e Mona estavam brigadas, ganhou a confiana da Naomi, depois pegou uma carta de amor que 
Naomi havia escrito pro Mason Byers do caderno dela. Hanna colocou a carta anonimamente na intranet de Rosewood Day no dia seguinte. Todos acharam graa, e tudo 
ficou bem de novo.
        De imediato, Hanna teve uma epifania. Claro! Mona estava fingindo de amiga delas! Fazia todo o sentido. Sentiu-se um pouco melhor, dando-se conta do que 
estava acontecendo, mas ainda queria uma confirmao. Ela olhou pra Mona. 
        - Ei, Mon, posso falar com voc um minuto? A ss?
        - Agora no posso, Han. - Mona olhou para seu relgio Movado. - Ns estamos atrasadas para a prova de roupa.Vamos.
        Com isso, Mona caminhou pra fora do restaurante, o salto alto batendo contra o piso castanho brilhante. As outras a seguiram. Hanna esticou-se para pegar 
sua enorme bolsa Gucci, mas o zper abriu e tudo que tinha dentro espalhou-se embaixo da mesa. Toda a maquiagem, sua carteira, suas vitaminas e o Hydroxycut que 
ela tinha roubado da loja de suplementos sculos atrs, mas estava com um pouco de medo demais de usar... tudo. Hanna se apressou em recolher as coisas, seus olhos 
em Mona e nas outras, se esgueirando para fora. Ela se ajoelhou, tentando enfiar tudo de volta na bolsa o mais, rpido possvel.
        - Hanna Marin?
        Hanna pulou. Acima dela estava o conhecido garom, alto, de cabelo desalinhado.
        - Sou o Lucas - relembrou-a ele, mexendo no punho da camisa branca do uniforme do Rive Gauche. -Voc provavelmente no me reconheceu porque eu fico muito 
francs com esta roupa.
        - Ah - disse Hanna, cansada. - Ei. - Ela conhecia Lucas Beattie h muito tempo. No stimo ano, ele era popular e, que coisa estranha, por um segundo, ele 
tinha gostado de Hanna. Dizia-se por a que Lucas ia mandar para Hanna uma caixa vermelha de bombons, em formato de corao, no Dia do Bombom da escola. Um menino 
mandando para voc uma caixa de bombons com formato de corao significava amor, ento, Hanna ficou toda animada.
        Mas a, uns dias antes do Dia do Bombom, algo mudou. Lucas, de repente, virou um idiota. Os amigos dele comearam a ignor-lo, as meninas comearam a rir 
dele, e um rumor desenfreado de que ele seria hermafrodita se espalhou. Hanna no podia acreditar na sua sorte, mas, secretamente, imaginava se ele tinha passado 
de famoso a fracassado s porque tinha decidido gostar dela. Mesmo ela sendo antiga da Ali D., ainda era uma gorda idiota, desajeitada e fracassada. Quando ele mandou 
a caixa de bombons, Hanna a escondeu em seu armrio e no agradeceu a ele.
        - E a? - perguntou Hanna calmamente. Lucas ainda era um fracassado.
        - Tudo na boa - respondeu Lucas, sedento. - E a, tudo bem com voc?
        Hanna revirou os olhos. Ela no queria comear uma conversa.
        - Preciso ir. - Ela olhou para o ptio externo do shopping. - Minhas amigas esto esperando por mim.
        - Na verdade... - Lucas a seguiu em direo  sada. - Suas amigas esqueceram de pagar a conta. - Ele sacou uma carteira de couro. - A no ser que, hm... 
voc esteja bancando desta vez.
        - Oh. - Hanna limpou a garganta. Legal da parte da Mona ter avisado. - Sem problemas.
        Lucas passou o AmEx de Hanna na mquina e lhe entregou o boleto para que ela assinasse. Hanna caminhou pra fora do Rive Gauche sem deixar gorjeta - nem dar 
tchau para Lucas. Quanto mais pensava no assunto, mais animada ficava com o fato de que Naomi e Riley faziam parte da corte de Mona. Em Rosewood, as meninas da corte 
de uma festa sempre competiam para ver quem daria o presente mais glarnouroso para a aniversariante. Um dia no spa Blue Springs ou um vale-presente Prada no impressionavam 
- o presente ganhador tinha que ser totalmente demais. A melhor amiga de Julia Rubenstein tinha contratado alguns strppers para se apresentar na after-party para 
um pequeno grupo seleto - e tinham sido strippers gostosos, no uns musculosos babacas. E Sarah Davies convencera o pai a contratar Beyonc para cantar "Parabns 
pra voc" para a aniversariante. Ainda bem que Naomi e Riley eram to criativas quanto o panda recm-nascido do Zoolgico da Filadlfia. Hanna poderia super-las 
at mesmo em seu pior dia.
        Ela ouviu o BlackBerry vibrar na bolsa e o pegou. Havia duas mensagens em sua caixa de entrada.A primeira, de Mona, havia chegado seis minutos antes.
        Onde voc est, vadia? Se voc se atrasar mais um pouco, a 
        costureira vai ficar furiosa. - Mon
        Mas a segunda mensagem, que chegara h dois minutos, era de um nmero bloqueado. S podia ser de uma pessoa.
        Querida Hanna, ns podemos no ser amigos, mas temos as 
        mesmas inimigas. Ento, aqui vo duas dicas: uma de suas
        antigas amigas est escondendo algo de voc. Algo grande. E 
        Mona? Ela tambm no  sua amiga. Ento, fica esperta. - A
13
OL, MEU NOME  EMILY
E EU SOU GAY
Naquela noite, s 19:17, Emily estacionou na entrada da garagem de sua casa. Depois de ter fugido da piscina, ela andou pelo Santurio de Aves de Rosewood por horas. 
Os pardais piando diligentemente e os alegres patinhos e periquitos adestrados a acalmaram. Foi um bom lugar para escapar da realidade... e de certa foto incriminadora.
        Todas as luzes da casa estavam acesas, inclusive a do quarto que Emily e Carolyn dividiam. Como ela ia explicar a foto para a famlia? Ela queria dizer que 
beijar Maya naquela foto havia sido uma brincadeira, que algum estava pregando uma pea nela. Ha ha, beijar meninas  nojento.
        Mas no era verdade, e isso fazia seu corao doer.
        A casa parecia quente e convidativa, como uma mistura de caf e poutpourri de flores. A me havia acendido as luzes do corredor onde ficava a estante com 
pequenas esttuas Hummel. Pequenas esttuas de um menino ordenhando uma vaca e uma menina de cala e suspensrio empurrando um carrinho de mo se alternavam. Emily 
entrou pelo corredor revestido por um papel de parede floral, em direo  sala de estar. Os pais estavam sentados no sof florido. E uma mulher mais velha na namoradeira.
        A me lhe lanou um sorrisinho.
        - Bem, ol, Emily.
        Emily piscou algumas vezes.
        - H, oi... - Ela olhava dos pais para a estranha na namoradeira.
        -Voc no quer entrar? - perguntou a me. -Tem algum aqui que quer ver voc.
        A mulher, que estava usando calas pretas de cintura alta e um casaco verde-menta, levantou-se e estendeu a mo.
        - Eu sou a Edith. - Ela sorriu. -  um prazer conhecer voc, Emily. Por que voc no se senta?
        O pai de Emily correu para a sala de jantar e arrastou outra cadeira para ela. Ela se sentou, indecisa, sentindo-se nervosa. Era a mesma sensao que ela 
costumava ter quando suas velhas amigas brincavam do Jogo do Travesseiro - uma pessoa andava pela sala com os olhos vendados, e, inesperadamente, as outras a bombardeavam 
com os travesseiros. Emily no gostava dessa brincadeira - ela odiava esses momentos tensos um pouco antes de comearem a bater nela, mas participava, de qualquer 
forma, porque Ali adorava.
        - Eu sou de um programa chamado Tree Tops - explicou Edith. - Seus pais me falaram do seu problema.
        Os ossos do traseiro de Emily pressionaram a madeira da cadeira da sala de jantar.
        - Problema? - O estmago dela afundou. Ela sentiu que sabia o que problema significava.
        -   claro que  um problema. - A voz da me estava engasgada. - Aquela foto, com aquela menina que ns proibimos voc de ver... aquilo aconteceu mais de 
uma vez?
        Emily tocou, nervosa, a cicatriz na palma da mo esquerda, que conseguiu quando Carolyn, acidentalmente, a cortara com a tesoura de jardinagem. Ela cresceu 
lutando para ser o mais obediente e bem-comportada possvel, e no conseguiria mentir para os pais. Pelo menos no muito bem.
        - Aconteceu mais de uma vez, acho - balbuciou ela. 
        A me soltou um gemido curto e sofrido.
        Edith fez biquinho com os lbios enrugados, pintados com batom fcsia. Ela cheirava  velhice e naftalina.
        -  O que voc est sentindo no  permanente.  uma doena, Emily. Mas ns, da Tree Tops, podemos curar voc. Ns j reabilitamos muitos ex-homossexuais, 
desde que o programa comeou.
        Emily estourou numa gargalhada.
        - Ex... homossexuais?
        O mundo comeou a girar, depois parou. Os pais de Emily olharam para ela parecendo os donos da verdade, com as mos em volta das xcaras de caf.
        -  Seu interesse em mulheres jovens no  gentico ou cientfico;  ambiental - explicou Edith. - Com aconselhamento, ns vamos acabar com a sua... necessidade, 
digamos assim.
        Emily segurou os braos da cadeira.
        - Isso parece... estranho.
        - Emily! - repreendeu a me. Ela havia ensinado os filhos a nunca desrespeitar os adultos. Mas Emily estava perplexa demais para ficar envergonhada.
        - No  estranho - chilreou Edith. - No se preocupe se voc no entende tudo isso agora. Muitas das nossas novas recrutas no entendem. - Ela olhou para 
os pais de Emily. - Ns temos um maravilhoso registro de reabilitao na grande Filadlfia.
        Emily queria vomitar. Reabilitao? Ela investigou os rostos dos pais, mas no encontrou nada. Olhou para a rua. Se o prximo carro que passar for branco) 
isso no est acontecendo, pensou. Se for vermelho) est. Um carro passou batido. Com certeza, era vermelho.
        Edith recolocou a xcara de caf no pires.
        - Ns vamos mandar uma colega mentora para conversar, com voc. Algum que experimentou o programa em primeira mo. Ela  do ltimo ano do Rosewood Senior 
High e seu nome  Becka. Ela  muito legal. Vocs vo apenas conversar. E, depois disso, discutiremos a sua entrada oficial no programa. Tudo bem?
        Emily olhou para os pais.
        - Eu no tenho tempo de conversar com ningum - insistiu. -Tenho natao de manh e depois da escola, e, depois, tenho lio de casa.
        A me lhe lanou um sorriso tenso.
        - Voc vai arranjar tempo. Que tal amanh, na hora do almoo?
        Edith concordou.
        - Tenho certeza de que vai dar.
        Emily coou sua cabea latejante. Ela j odiava Becka, e nem a tinha conhecido ainda.
        - Tudo bem - concordou. - Diga a ela para me encontrar na capela Lorence. - Nem pensar em conversar com a srta. TreeTops na cantina. A escola j ia ser massacrante 
o suficiente no dia seguinte do jeito que as coisas estavam. 
        Edith esfregou as mos e se levantou.
        - Eu vou arranjar tudo.
        Emily esperou perto da parede da entrada, enquanto os pais entregavam a Edith seu casaco e agradeciam por ela ter vindo. Edith caminhou pela entrada de pedras 
dos Fields at seu carro. Quando os pais de Emily se viraram para ela, tinham um olhar cansado e sbrio em suas faces.
        - Me, pai... - comeou Emily. 
        A me se virou.
        - Essa menina, Maya, tem alguns truques na manga, no? 
        Emily deu um passo para trs.
        - Maya no espalhou a foto por a.
        A senhora Fields examinou Emily com cuidado, depois se sentou no sof e colocou as mos sobre a cabea.
        - Emily, o que ns vamos fazer agora?
        - O que voc quer dizer com ns? 
        A me olhou para cima.
        -Voc no percebe que isso tem um reflexo sobre ns?
        -  No fui eu que contei para todo mundo - protestou Emily.
        - No importa como aconteceu - interrompeu a me. - O que importa  que todo mundo sabe. - Ela levantou e olhou para o sof, depois pegou uma almofada decorativa 
e bateu nela com o pulso, para afof-la. Ela a colocou de volta, pegou outra, e comeou tudo de novo. Paf. Estava socando as almofadas com mais fora que o necessrio. 
- Foi muito chocante ver aquela foto sua, Emily. Terrivelmente chocante. E ouvir que foi uma coisa que voc fez mais de uma vez, bem...
        - Sinto muito - choramingou Emily. - Mas talvez isso no seja...
        - Alguma vez voc pensou em como isso seria duro para ns? - interrompeu a sra. Fields mais uma vez. - Ns todos estamos... bem, Carolyn veio para casa chorando. 
E seu irmo e sua irm me ligaram, se oferecendo para vir para c.
        Ela pegou outra almofada. Paf, paf. Algumas penas saram e voaram pelo ar antes de pousar no carpete. Emily imaginou o que aquilo iria parecer para algum 
que passasse pela janela. Talvez eles vissem as penas voando e pensassem que fosse fruto de algo alegre, o contrrio do que estava acontecendo na realidade.
        A lngua de Emily estava pesada dentro da boca. O buraco no fundo do estmago permanecia.
        - Desculpe - sussurrou ela.
        Os olhos da me se acenderam. Ela acenou para o pai de Emily.
        -V pegar.
        Seu pai desapareceu pela sala, e Emily o ouviu revirando as gavetas de sua antiga escrivaninha. Segundos depois, ele voltou com um impresso da Expedia.
        - Isso  para voc - informou o sr. Fields.
        Era um itinerrio de voo da Filadlfia para Des Moines, Iowa. Com o nome de Emily nele.
        - Eu no entendi.
        O sr. Fields limpou a garganta.
        - Apenas para deixar as coisas perfeitamente claras, ou voc faz o Tree Tops e obtm resultados positivos ou vai morar com sua tia Helene.
        Emily piscou.
        - Tia Helene... que mora numa fazenda? 
        -Voc se lembra de outra tia Helene? - perguntou ele. 
        Emily se sentiu tonta. Ela olhou para a me. 
        -Voc vai me mandar embora?
        -Vamos esperar que no precisemos chegar a tanto - respondeu a sra Fields.
        Lgrimas despontaram nos olhos de Emily. Por um tempo, ela no conseguiu falar. Parecia que um bloco de cimento estava apertando seu peito.
        - Por favor, no me mande embora - sussurrou ela. - Eu vou... eu vou fazer o TreeTops. Pode ser?
        Emily abaixou o olhar. Era a mesma sensao de quando ela e Ali faziam queda de brao - elas tinham a mesma fora e podiam fazer aquilo por horas, mas, em 
determinado momento, Emily se renderia, amolecendo o brao, deixando-o cair. Talvez estivesse desistindo muito fcil, mas no conseguiria lutar contra aquilo.
        Um pequeno sorriso de alvio brotou no rosto da me. Ela colocou o itinerrio no bolso do casaco. 
        - Ento, no foi to difcil, foi? 
        Antes que ela pudesse responder, seus pais saram da sala.
14
O GRANDE CLOSE DE SPENCER
Quarta-feira de manh, Spencer se olhou em sua penteadeira de mogno Chippendale. A penteadeira e a mesinha estavam na famlia Hastings havia duzentos anos, e a mancha 
d'gua no tampo supostamente teria sido feita por Ernest Hemingway - ele teria colocado seu copo suado de usque ali, durante um baile formal do tatarav de Spencer.
        Spencer pegou a escova de cabelo de cerdas e escovou o cabelo at que seu couro cabeludo comeasse a doer. Jordana, a reprter do Philadelphia Sentinel, 
chegaria logo para sua grande entrevista e para a sesso de fotos. Um estilista ia trazer algumas roupas e a cabeleireira de Spencer, Uri, deveria chegar a qualquer 
momento para fazer uma escova. Ela j tinha acabado de fazer sua maquiagem, escolhendo um estilo refinado, bem natural, que esperava faz-la parecer inteligente, 
ntegra - e de modo algum uma plagiadora.
        Spencer engoliu em seco e deu uma olhada numa foto que mantinha encaixada na moldura do espelho. Era de suas antigas amigas no iate do tio de Ali, em Newport, 
Rhode Island. Elas estavam espremidas, usando biqunis combinando da J.Crew e chapus de palha de aba larga, rindo como se fossem deusas do mar.
        Vai ficar tudo bem, falou Spencer para o espelho, tomando flego. O artigo acabaria virando um pequeno item na seo Estilo, algo que ningum iria ver. Jordana 
poderia s lhe fazer duas ou trs perguntas. As mensagens de A do dia anterior - eu sei o que voc fez - eram apenas para assust-la. Ela tentou esconder esses pensamentos 
nos confins de sua mente.
        De repente, seu Sidekick apitou. Spencer pegou-o, apertou alguns botes para acessar sua caixa de entrada e olhou para a tela.
        Precisa de outro aviso, Spence? O assassino de Ali est 
        bem na sua frente. - A
        O telefone de Spencer se espatifou no cho. O assassino da Ali? Ela olhou para o prprio reflexo no espelho. Depois, para a foto de suas amigas no canto. 
Ali estava segurando o leme do iate, e as outras estavam rindo atrs dela.
        Ento, algo na janela chamou sua ateno. Spencer virou-se, mas no havia nada. Ningum no quintal, exceto um marreco Mallard, parecendo perdido. Ningum 
no quintal dos DiLaurentis nem no dos Cavanaugh. Spencer virou-se para o espelho e passou as mos frias por todo o rosto.
        -Oi.
        Ela deu um pulo. Melissa parou atrs dela, apoiando-se na cama de dossel de Spencer. Spencer virou-se, sem saber ao certo se o reflexo de Melissa era real. 
Ela tinha chegado at Spencer to... sorrateiramente.
        -Voc est bem? - perguntou Melissa, mexendo na gola ondulada da sua blusa de seda. - Parece at que viu um fantasma.
        -  que acabei de receber uma mensagem muito esquisita - desabafou Spencer.
        -  mesmo? O que dizia?
        Spencer deu uma olhada no Sidekick em cima do tapete cor de creme, depois o chutou ainda mais pra baixo da penteadeira.
        - Deixa pra l.
        - Bem, de qualquer forma, a reprter est aqui. - Melissa vagou pelo quarto de Spencer. - A mame pediu para avisar voc.
        Spencer levantou-se e andou at a porta. Ela no podia acreditar que quase tinha contado a Melissa sobre a mensagem de A. Mas o que A queria dizer? Como 
o assassino de Ali poderia estar na frente dela, quando estava se olhando no espelho?
        Uma imagem apareceu diante de seus olhos. Qual , cacarejou Ali, estupidamente. Voc leu isso no meu dirio, no foi?
        Eu no leria seu dirio, respondeu Spencer. Eu no me importo.
        Diante de seus olhos, apareceram alguns pontos e luzinhas, e um movimento borrado. E depois, puf, nada. Spencer piscou furiosamente por alguns segundos, 
ficou parada sozinha e em choque no meio do corredor do andar de cima. Parecia a continuao da estranha e confusa lembrana do outro dia. Mas o que era aquilo?
        Ela caminhou lentamente para o andar de baixo, segurando no corrimo para se apoiar. Seus pais e Melissa estavam reunidos em volta do sof na sala. Uma mulher 
gorducha, de cabelos negros arrepiados e culos pontudos de plstico; um cara magrelo, com barbicha de bode e uma gigantesca cmera pendurada no pescoo; e uma moa 
asitica miudinha, com uma mecha rosa no cabelo, estavam perto da porta da frente.
        - Spencer Hastings! - gritou a mulher de cabelo arrepiado quando a viu. - Nossa finalista.
        Ela jogou os braos em volta de Spencer, e o nariz da menina bateu no casaco da mulher, que cheirava a cereja marrasquino, que Spencer costumava pescar no 
Shirley Temples que tomava no country club. Depois, ela se afastou e segurou Spencer pelo brao.
        - Eu sou Jordana Pratt, editora de estilo do Philadelphia Sentinel - bradou ela. Jordana gesticulou para os outros dois estranhos. - E estes so Bridget, 
nossa estilista; e Matthew, nosso fotgrafo. Prazer em conhec-la!
        - Igualmente - disse Spencer.
        Jordana cumprimentou o pai e a me de Spencer. Ela passou por Melissa sem nem mesmo olhar para ela, e Melissa arranhou a garganta.
        - Hum, Jordana, acho que j nos conhecemos tambm. 
        Jordana apertou os olhos e enrugou o nariz, como se um cheiro ruim tivesse acabado passar no ar. Ela encarou Melissa por alguns segundos.
        -J?
        - Voc me entrevistou quando eu corri a Maratona da Filadlfia, h uns dois anos - relembrou Melissa, ficando ainda mais ereta e pondo os cabelos atrs das 
orelhas. - No Estdio Eames, na frente do museu de artes?
        Jordana ainda parecia perdida.
        - timo, timo! - exclamou, distrada. - Adoro maratonas!
        Ela deu uma olhada em Spencer mais uma vez. Spencer notou que ela usava um relgio Cartier Tank Americaine - e no um daqueles de ao baratos.
        - Ento. Quero saber tudo sobre voc. O que voc gosta de fazer para se divertir, suas comidas favoritas, quem voc acha que vai ganhar o American Idol, 
tudo. Voc provavelmente vai ser famosa algum dia, sabe? Todas as ganhadoras do Orqudea Dourada acabam se tornando estrelas.
        - Spencer no assiste ao American Idol - prontificou-se a sra. Hastings. - Ela  muito ocupada com todas as suas atividades e estudos.
        - Ela tirou 2350 no simulado do vestibular - mencionou o sr. Hastings, orgulhoso.
        - Acho que aquela menina, a Fantasia, vai ganhar - disse Melissa. Todos pararam e olharam para ela. - O American Idol - especificou ela.
        Jordana franziu a testa.
        - Essa foi praticamente a primeira temporada. - Ela se virou de volta para Spencer e fez beicinho com os lbios vermelhos brilhantes. - Ento, Senhorita 
Finalista. Ns queremos enfatizar que voc  fantstica e maravilhosa, mas queremos que seja divertido, tambm.Voc foi indicada para um trabalho de economia, o 
que  um lance de negcios, certo? Eu pensei que as fotos poderiam ser como uma stira de O aprendiz. A foto podia gritar: Spencer Hastings, voc est contratada! 
Voc usaria um terninho preto brilhante, sentada atrs de uma mesa grande, dizendo a um homem que ele est demitido. Ou contratado. Ou que voc gostaria que ele 
te preparasse um martni. Tanto faz.
        Spencer piscou. Jordana falava rpido demais e gesticulava sem parar.
        - A mesa do meu escritrio deve servir - ofereceu a sra. Hastings. -  s seguir pelo corredor.
        Jordana olhou para Matthew.
        - Quer ir checar? 
        Matthew concordou.
        - E eu tenho um terninho que ela podia pegar emprestado - completou Melissa.
        Jordana pegou seu BlackBerry do suporte na cintura e comeou a digitar freneticamente no teclado.
        - No ser necessrio - murmurou ela.- J est resolvido. 
        Spencer sentou-se na poltrona listrada da sala. A me pegou o banco do piano. Melissa juntou-se a elas, se apoiando perto da harpa antiga.
        -   to emocionante - arrulhou a sra. Hastings, debruando-se para tirar uma mecha de cabelo do olho de Spencer.
        Spencer tinha que admitir, adorava quando as pessoas a adulavam. Era to raro isso acontecer.
        - Eu imagino o que ela vai me perguntar - pensou ela.
        - Ah, provavelmente sobre os seus interesses, sua educao - cantarolou a sra. Hastings. - No se esquea de contar sobre os retiros educacionais aos quais 
eu mandei voc. E voc se lembra de como eu comecei a lhe ensinar francs, quando voc ainda tinha oito anos? Voc conseguiu ir direto para a turma de francs II, 
no sexto ano, por causa disso.
        Spencer ps a mo na boca para cobrir o riso.
        - Vai ter outras histrias na edio de sbado do Sentinel, me. No s a minha.
        - Talvez ela pergunte sobre o seu trabalho - disse Melissa, categrica.
        Spencer olhou para cima, confusa. Melissa estava folheando uma revista Town & Country, com uma expresso que no deixava escapar nem uma nica pista... ser 
que Jordana ia perguntar sobre o trabalho?
        Bridget veio danando de volta, com uma arara cheia de sacos protetores de roupas em cabides.
        - Comece a abrir os zperes desses protetores de roupas e veja se tem alguma coisa de que goste - instruiu ela. - Eu s tenho que dar uma corridinha no carro 
e pegar a sacola de sapatos e acessrios. - Ela franziu o nariz. - Um assistente seria timo neste momento.
        Spencer passou as mos pelos protetores de vinil. Havia pelo menos umas vinte e cinco roupas.
        - Tudo isso  apenas para minha pequena sesso de fotos?
        - A Jordana no falou para voc? - Bridget arregalou os olhos acinzentados. - O editor amou sua histria, particularmente, porque voc  daqui. Vamos coloc-la 
na primeira
pgina!
        - Da sesso de Estilo? - Melissa parecia incrdula.
        - No, do jornal! - empolgou-se Bridget.
        - Meu Deus, Spencer! -A sra. Hastings segurou a mo da filha.
        - Isso mesmo! - prosseguiu Bridget. - Pode ir se acostumando. E, se voc ganhar, vai estar na trilha da fama. Eu fiz o guarda-roupa da ganhadora de 2001 
para a Newsweek. A agenda dela era uma loucura.
        Bridget caminhou de volta para a porta da frente, seu perfume de jasmim permanecia no ar. Spencer tentou fazer a respirao de fogo da ioga. Ela abriu o 
zper do primeiro protetor de roupas, passando a mo sobre um casaco de l escuro. Ela checou a etiqueta. Calvin Klein. O outro era Armani.
        A me dela e Melissa comearam a abrir os outros protetores. Elas ficaram quietas por alguns segundos, at que Melissa disse:
        - Spence, tem algo grudado aqui.
        Spencer olhou para a irm. Um pedao de folha de fichrio dobrada estava afixada com fita adesiva num blazer com gales da marinha. Na frente do bilhete 
havia uma nica inicial, escrita  mo: S.
        As pernas de Spencer se enrijeceram. Ela puxou o bilhete devagar, virando o corpo de maneira que Melissa e a me no pudessem ver o papel e, ento, o abriu.
        - O que  isso? - Melissa saiu de perto da arara.
        - A-apenas instrues da estilista. -As palavras saram distorcidas e duras.
        A sra. Hastings continuou abrindo os protetores de roupa com calma, mas Melissa ficou encarando Spencer um pouco mais. Quando a irm finalmente parou de 
olhar, Spencer abriu o bilhete de novo.
        Cara Senhorita Finalista: O que voc acha de eu contar seu 
        segredo AGORA MESMO? Eu posso, voc sabe. E se voc 
        no tomar cuidado, talvez eu conte. - A
15
NUNCA, JAMAIS, CONFIE EM
ALGO TO OBSOLETO QUANTO
UM APARELHO DE FAX
Quarta-feira, na hora do almoo, Hanna sentou-se numa mesa de fazenda feita de teca, que dava vista para os campos de treino de Rosewood Day e para o lago dos patos. 
O monte Kale, imenso, reinava ao longe. Era uma tarde perfeita. Cu azul-piscina, nenhuma umidade, o cheiro das folhas e o ar fresco tomavam conta de tudo ao redor. 
O cenrio ideal para o presente de aniversrio de Hanna para Mona - tudo que Mona precisava fazer era chegar l. Hanna no tinha conseguido trocar nem uma nica 
palavra com Mona enquanto elas estavam experimentando seus vestidos de gala Zac Posen cor de champanhe na Saks no dia anterior - no com Naomi e Riley por perto. 
Ela tentou ligar para Mona para falar sobre o assunto  noite, mas Mona disse que estava estudando para uma prova de alemo. Se repetisse, o baile de dezessete anos 
seria cancelado. 
        Mas tudo bem. Mona deveria chegar a qualquer momento, e elas iriam compensar todo o tempo particular Hanna-Mona que haviam perdido. E a mensagem de ontem 
de A, sobre Mona no ser confivel? Que mentira. Mona podia ainda estar um pouco chateada com o mal-entendido do Amiganiversrio, mas no havia como ela abrir mo 
da amizade delas. De qualquer forma, a surpresa de aniversrio de Hanna faria tudo ficar melhor. Ento, era bom que Mona viesse rapidinho, antes que ela perdesse 
a coisa toda.
        Enquanto Hanna esperava, deu uma olhada no BlackBerry. Ela tinha programado o celular para manter as mensagens at que fossem apagadas manualmente, ento, 
todas as suas antigas correspondncias com Alison ainda estavam na caixa de entrada. Geralmente, Hanna no gostava de l-las - era muito triste - mas, naquele dia, 
por alguma razo, ela queria v-las. Achou uma de primeiro de junho, alguns dias antes de Ali desaparecer.
        Tentando estudar para a prova final de programas de sade, Ali tinha escrito: Eu estou com a maior energia nervosa.
        PQ?, tinha sido a resposta de Hanna.
        Ali: No sei. Talvez eu esteja apaixonada. rsrs.
        Hanna: Apaixonada? Por quem?
        Ali: Brincadeira. Ai droga, Spencer est aqui. Ela quer treinar a tacada de hquei... DE NOVO.
        Diga a ela que no, Hanna escrevera de volta. P quem vc t apaixonada?
        Voc no diz no a Spencer, respondeu Ali. Ela vai, tipo, magoar voc.
        Hanna fitou a tela brilhante do BlackBerry. Na poca, ela provavelmente riu. Mas, depois de tudo que aconteceu, Hanna lia as mensagens com outros olhos. 
A mensagem de A - dizendo que uma das amigas da Hanna estava escondendo algo - a assustou. Ser que Spencer estava escondendo alguma coisa?
        De repente, Hanna lembrou-se de uma situao em que ela no pensava h muito tempo: alguns dias antes de Ali desaparecer, as cinco amigas foram a uma excurso 
ao teatro People's Light, para assistir a Romeu e Julieta. Poucos alunos do stimo ano que quiseram ir - o restante dos alunos presentes era do ensino mdio. Praticamente 
todas as turmas de ensino mdio do Rosewood Day estavam l - o irmo mais velho de Ali, Jason; a irm de Spencer, Melissa; Ian Thomas; Katy Houghton, a amiga de 
hquei da Ali e Preston Kahn, um dos irmos Kahn. Depois que a pea acabou, Aria e Emily correram para o banheiro, Hanna e Ali se sentaram no muro de pedra e comearam 
a comer o almoo, e Spencer correu para falar com a sra. Delancey, a professora de ingls, que estava sentada perto dos alunos.
        - Ela s est l porque quer ficar perto dos meninos mais velhos - grunhiu Ali, encarando Spencer.
        - Ns podemos ir para l tambm, se voc quiser - sugeriu Hanna.
        Ali fez que no.
        - Eu estou brava com a Spencer.
        - Por qu? - Hanna quis saber. 
        Ali suspirou.
        -  uma histria longa e chata.
        Hanna deixou para l. Ali e Spencer frequentemente ficavam bravas uma com a outra sem razo. Ela comeou a sonhar acordada sobre como o ator que fez Teobaldo 
tinha olhado bem para ela durante a cena em que morria. Teobaldo achara Hanna bonita... ou gorda? Ou talvez ele no estivesse olhando para ela mesmo, talvez s estivesse 
fazendo seu papel de morto de olhos abertos. Quando Hanna olhou para cima de novo,Ali estava chorando.
        - Ali - sussurrou Hanna. Ela nunca tinha visto Ali chorar. - O que aconteceu?
        As lgrimas corriam silenciosas pelas bochechas de Ali. Ela nem se incomodou em limp-las. Olhava na direo de Spencer e da sra. Delancey.
        - Esquece.
        -  Droga! Olha l! - gritou Mason Byers, tirando Hanna dos velhos pensamentos do stimo ano. Alto l no cu, um avio, um biplano cortou as nuvens em linha 
reta. Passou por Rosewood Day, fez a volta e passou zunindo de novo. Hanna se ajeitou no banco e olhou ao redor. Onde diabos estaria Mona?
        - Isso  um velho Curtiss? - perguntou James Freed.
        - Acho que no - respondeu Ridley Mayfield. - Eu acho que  um Travel Air D4D.
        -  mesmo - concordou James, como se soubesse disso o tempo todo.
        O corao de Hanna batia animadamente. O avio fez alguns rabiscos no ar, soltando uma trilha de fumaa que formava perfeitamente a letra A.
        -  Est escrevendo alguma coisa! - gritou uma menina perto da porta.
        O avio passou para o F, depois E, e a, acrescentou um S. Hanna estava quase explodindo. Aquele era o melhor presente de uma menina da corte de todos os 
tempos.
        Mason olhava fixamente para o avio, que mergulhava e fazia manobras elaboradas no cu.
        - A festa da Mona... Vai ser a... - leu ele.
        Neste exato momento, Mona sentou-se ao lado de Hanna, jogando a bolsa cinza-escuro acolchoada Louis Vuitton em uma cadeira.
        - E a, Han - disse ela, abrindo uma caixa de comida chinesa e desembrulhando os palitinhos de madeira -Voc nunca vai acreditar em quem Naomi e Riley contrataram 
para tocar na minha festa de aniversrio.  o melhor presente de todos os tempos!
        -  Esquece isso - esgoelou-se Hanna. - Eu vou dar uma coisa mais legal para voc.
        Hanna tentou apontar o avio no cu, mas Mona estava alvoroada.
        - Elas conseguiram a Lexi - continuou ela, rpido. - Lexi! Para mim! Na minha festa! Voc acredita?
        Hanna deixou a colher cair de volta no pote de iogurte. Lexi era uma cantora de hip-hop da Filadlfia. Uma gravadora poderosa a tinha contratado e ela ia 
virar uma superestrela. Como Naomi e Riley tinham conseguido aquilo?
        -  Que seja. - Hanna moveu rapidamente o queixo da Mona em direo s nuvens. -Veja o que eu fiz para voc.
        Mona olhou para o cu com os olhos semicerrados. O avio tinha acabado de escrever a mensagem e estava fazendo curvas em volta das letras. Quando Hanna leu 
a mensagem toda, seus olhos se arregalaram.
        - A festa da Mona vai ser a ... - o queixo de Mona caiu - ...peidada de sexta?
        - A festa da Mona vai ser a peidada de sexta! - gritou Mason. Outros que viram tambm estavam repetindo. Um calouro perto do mural de pintura abstrata assoprou 
nas mos para fazer um barulho de peido.
        Mona encarou Hanna. Ela estava meio verde.
        - Mas que diabos  isso, Hanna?
        - No, est errado! - guinchou Hanna. - Era para escreverem "A festa da Mona vai ser a pedida de sexta!" P-E-D-I-D-A! Eles erraram a palavra!
        Mais gente fez barulho de peido.
        - Nojento! - gritou uma menina perto delas. - Por que ela escreveria isso?
        -   horrvel! - gritou Mona, colocando o casaco por sobre a cabea, exatamente da mesma forma que as celebridades fazem para evitar os paparazzi.
        - Eu vou ligar para eles agora mesmo para reclamar - exaltou-se Hanna. Ela pegou o BlackBerry e, tremendo, digitou o nmero da companhia responsvel pelo 
avio. No era justo. Ela usou a mais clara e bem-feita letra cursiva possvel quando mandou o fax da mensagem de aniversrio da Mona para a companhia.
        - Eu sinto muito, Mon. Eu no sei como isso aconteceu. 
        O rosto do Mona estava ocultado pelo casaco.
        -Voc sente muito, no ? - sussurrou ela. - Eu aposto que sente. - Mona deixou o casaco cair sobre os ombros, endireitou-se e caminhou para longe o mais 
rpido que suas rasteirinhas de palha Celine podiam lev-la.
        - Mona! - Hanna correu atrs dela. Hanna tocou o brao de Mona e ela se virou.
        - Foi um engano! Eu nunca faria isso com voc! 
        Mona deu um passo  frente. Hanna podia sentir o cheiro do sabo em p francs de lavanda que era usado na roupa da amiga.
        - Perder o Arniganiversrio  uma coisa, mas nunca pensei que voc tentaria destruir minha festa - grunhiu ela, alto o suficiente para todo mundo ouvir. 
- Mas voc quer jogar assim? Est certo. Voc nem precisa ir. Voc est oficialmente desconvidada.
        Mona entrou pisando duro pela porta da cantina, praticamente empurrando dois calouros com cara de nerd para dentro das jardineiras de pedra.
        - Mona, espera! - gritou Hanna, fraquinho.
        -V para o inferno - respondeu Mona por sobre o ombro.
        Hanna deu alguns passos para trs, seu corpo todo tremia. Quando ela olhou em volta do ptio, todos a estavam encarando.
        - Vi! Essa doeu! - Hanna ouviu Desdemona Lee cochichar com sua amiga do softball.
        -  Tsssc - fez um grupo de meninos mais novos, que estava perto dos chafarizes cobertos de musgo.
        - Fracassada - gritou uma voz annima.
        O cheiro da pizza da cantina, cheia de molho e com casquinha macia, que enchia o ar, estava comeando a dar a Hanna aquela velha e familiar sensao de estar 
ao mesmo tempo nauseada e com vontade de comer. Ela procurou no bolso lateral da bolsa, a cabea em outro lugar, pelo pacote de Cheetos de queijo cheddar para emergncias. 
Colocou um aps o outro na boca, sem nem mesmo sentir o gosto. Quando olhou para o cu, as nuvens fofas que anunciavam a festa da Mona tinham se dissipado.
        A nica letra que tinha ficado intacta era a ltima que o avio havia escrito: uma ntida e angular letra A.
16
ALGUM ESTEVE DANDO UNS
AMASSOS NO FORNO
Naquele mesmo intervalo do almoo de quarta-feira, Emily entrou depressa pelo corredor da sala de artes.
        -  Ooooiiiii, Emily - cantarolou Cody Wallis, a estrela do tnis de Rosewood Day.
        - Oi? - Emily olhou por sobre seu ombro. Ela era a nica pessoa por ali. Ser que Cody estava mesmo dizendo oi para ela?
        - Voc est tima, Emily Fields.- murmurou John Dexter, o capito incrivelmente sexy do time de Rosewood Day. Emily no conseguiu nem balbuciar um ol. A 
ltima vez que John tinha falado com ela fora na aula de educao fsica, no quinto ano. Eles estavam jogando queimado, e John tinha acertado o peito de Emily para 
elimin-la. Mais tarde, ele tinha vindo escondido e dito:
        - Desculpe por ter acertado seu seio.
        Ela nunca tinha visto tantas pessoas - especialmente rapazes - sorrindo, acenando e dando oi para ela. Naquela manh, Jared Coffey, um aluno do ltimo ano, 
que vinha para a escola numa antiga moto Indian e era descolado demais pra falar com qualquer um, tinha insistido em comprar para ela um bolinho de amora da mquina 
de doces. E quando Emily mudara de sala naquela manh, urna pequena comitiva de calouros a seguiu. Um filmou-a no seu Nokia - o vdeo provavelmente j estava no 
YouTube. Ela tinha ido para a escola preparada para ser ridicularizada por causa da foto que A tinha espalhado na reunio do dia anterior, ento, isso era meio que... 
inesperado.
        Quando uma mo se projetou da sala de modelagem em argila, Emily se esquivou e soltou um gritinho. a rosto de Maya materializou-se na porta.
        - Psiu, Em!
        Emily saiu do meio do trfego.
        - Maya. ai.
        Maya lhe lanou uma piscadela. 
        -Vem comigo.
        - Agora no posso. - Emily checou seu enorme relgio da Nike. Ela estava atrasada para o almoo com Becka, a srta.Tree Tops. - Que tal depois da aula?
        -  No, isso s vai levar um segundo! - Maya voou pra dentro da sala vazia e passou em volta de um labirinto de mesas viradas para um forno de cermica do 
tamanho de uma sala. Para surpresa de Emily, Maya empurrou a pesada porta do forno e enfiou-se l dentro. Maya colocou a cabea para fora e sorriu.
        -Vem?
        Emily deu de ombros. Dentro do forno, tudo era escuro, amadeirado e quente - como uma sauna. Dzias de tigelas feitas pelos estudantes estavam nas prateleiras. 
O professor de cermica no as tinha assado ainda, por isso, ainda estavam vermelho-tijolo e tinham uma aparncia grudenta.
        -  arrumado aqui - falou Emily, suavemente. Ela sempre gostara do cheiro mido de terra da argila molhada. Em uma das prateleiras estava um vaso em forma 
de mola que ela fizera dois semestres antes. Ela achara que tinha feito um bom trabalho, mas, vendo de novo, notou que um dos lados estava meio amassado.
        De repente, Emily sentiu as mos de Maya passando pelas suas costas at os ombros. Maya virou Emily de frente para ela e seus narizes se tocaram. O hlito 
de Maya, como sempre, cheirava a chiclete de banana.
        - Eu acho que esta  a sala mais sexy da escola, voc no acha?
        - Maya - avisou Emily. Elas tinham que parar... mas, as mos de Maya eram to gostosas...
        - Ningum vai ver - protestou Maya. Ela passou as mos pelo cabelo ressecado de cloro de Emily. - E, alm disso, todo mundo sabe da gente mesmo.
        -Voc no est chateada pelo que aconteceu ontem? -perguntou Emily, se desvencilhando. - Voc no se sente... invadida?
        Maya pensou por um momento.
        - No particularmente. E ningum parece ligar.
        -  Isso  que  estranho. - Emily concordou. - Eu achei que todo mundo ia ser mau hoje, tipo, me provocando ou coisa assim. Mas em vez disso... eu de repente 
virei uma pessoa muito popular. As pessoas no deram tanta ateno para mim nem quando Ali desapareceu.
        Maya sorriu e tocou o queixo de Emily.
        - Viu s? Eu falei que no seria to ruim assim. No foi uma boa ideia?
        Emily deu um passo para trs. Na luz fraca do forno, o rosto de Maya brilhava num tom verde fantasmagrico. No dia anterior, Maya estava na arquibancada 
da piscina... mas quando Emily soube da foto, no conseguiu achar Maya em lugar nenhum. Maya queria tornar o relacionamento delas pblico. Uma sensao de nusea 
a atingiu.
        - O que voc quer dizer com boa ideia? 
        Maya deu de ombros.
        - Eu s quis dizer que quem quer que tenha feito isso tornou as coisas mais fceis para ns.
        - M-mas no est mais fcil - gaguejou Emily, lembrando-se de onde ela deveria estar naquele exato momento. - Meus pais esto passados com aquela foto. Eu 
vou ter que entrar num programa de aconselhamento para provar a eles que no sou homossexual. E, se eu me recusar a fazer isso, eles vo me mandar para Iowa, para 
morar com a minha tia Helene e meu tio Allen. Para sempre.
        Maya franziu a testa.
        - Por que voc no contou a verdade aos seus pais? Que  assim que voc , e que no  algo que voc possa, tipo, mudar? Mesmo em Iowa. - Ela deu de ombros. 
- Eu contei para minha famlia que era bi no ano passado. Eles no encararam to bem no comeo, mas depois aceitaram.
        Emily movia os ps para a frente e para trs contra o cho lisinho do forno.
        - Seus pais so diferentes.
        - Talvez - concordou Maya. - Mas, escuta, desde o ano passado, quando eu finalmente fui sincera comigo mesma e com todo mundo, eu me sinto superbem.
        Os olhos de Emily recaram instintivamente na cicatriz em forma de serpente da parte de dentro do brao da Maya. Ela costumava se cortar, dizia que era a 
nica coisa que a fazia sentir-se bem. Ser sincera sobre como ela era teria mudado isso?
        Emily fechou os olhos e imaginou a cara brava de sua me. E a si mesma entrando num avio para viver em Iowa. Nunca mais dormir em sua cama de novo. Seus 
pais a odiando para sempre. Ficou com um n na garganta.
        - Eu tenho que fazer o que eles querem. - Emily focou num pedao de chiclete que algum tinha colocado numa prateleira do forno de cermica. - Preciso ir. 
- Ela abriu a porta do forno e voltou para a sala de aula.
        Maya a seguiu.
        - Espera! - Ela pegou no brao de Emily, e quando Emily se virou, os olhos de Maya esquadrinharam seu rosto. - O que voc est dizendo? Voc est terminando 
comigo?
        Emily olhou atravs da sala. Havia um adesivo acima da mesa da professora que dizia Eu AMO CERMICA! S que algum tinha desenhado uma folha de maconha em 
cima do ponto de exclamao.
        - Rosewood  meu lar, Maya. Eu quero ficar aqui. Sinto muito.
        Ela serpenteou por entre os tanques de verniz e tornos.
        - Em! - Maya chamou atrs dela. Mas Emily no se virou. 
        Ela passou pela sada que levava diretamente da sala de cermica para o ptio, sentindo que tinha cometido um erro enorme. A rea estava vazia - todos estavam 
almoando - mas, por um segundo, Emily jurou ter visto uma figura parada no telhado da torre do sino de Rosewood Day. A figura tinha longos cabelos loiros e segurava 
um binculo perto do rosto. At parecia a Ali.
        Depois que Emily piscou, tudo que viu foi o sino de bronze, gasto pelas intempries. Seus olhos devem t-la enganado. Provavelmente, tinha visto uma rvore 
retorcida.
        Ou... ser que tinha mesmo visto alguma coisa?
Emily se arrastou pela pequena calada, que dava na capela Lorence, que parecia menos uma capela do que a casa de biscoito de gengibre que Emily fez para a competio 
de Natal do Shopping KingJames, no quarto ano. O lado do prdio que era cheio de curvas era marrom-canela e o elaborado batente, os balastres e as beiradas do telhado 
eram cor de creme. Flores multicoloridas emolduravam as jardineiras das janelas. Dentro, uma menina estava sentada em um dos bancos da frente, virada para a capela 
vazia.
        - Desculpe pelo atraso - ofegou Emily, escorregando pelo banco. Havia um prespio sobre o altar, virado para o salo, esperando para ser montado. Emily balanou 
a cabea. No era nem novembro ainda.
        -  No tem problema. - A menina estendeu a mo. - Rebecca Johnson. Mas pode me chamar de Becka.
        - Emily.
        Becka usava uma longa bata de renda, jeans justos, e discretas sandlias cor-de-rosa. Delicados brincos de flores pendiam de suas orelhas, e o cabelo estava 
preso com uma faixa de renda. Emily se perguntou se ela ia acabar se parecendo com aquela garota se fizesse o programa Tree Tops at o fim.
        Alguns minutos se passaram. Becka pegou um tubo de brilho labial cor-de-rosa e aplicou uma nova camada.
        - Ento, voc gostaria de saber alguma coisa sobre o Tree Tops?
        Na verdade, no, Emily queria responder. Maya provavelmente estava certa: Emily nunca seria verdadeiramente feliz at parar de se sentir envergonhada e de 
negar seus sentimentos. Embora... ela deu uma olhada em Becka. Ela parecia bem.
        Emily abriu sua Coca.
        - Ento, voc gostava de meninas? - Emily no acreditava nisso inteiramente.
        Becka pareceu surpresa.
        - E-eu gostava... mas no gosto mais.
        - Bem, quando voc... como voc teve certeza? - perguntou Emily, se dando conta de que estava enchendo a menina de perguntas.
        Becka mordeu um minsculo pedao de seu sanduche. Tudo dela era pequeno e parecia de boneca, at mesmo suas mos.
        - Parecia diferente, eu acho. Melhor.
        -  O mesmo comigo! - Emily praticamente gritou. - Eu tinha namorados quando era menor... mas sempre me senti diferente em relao s meninas. Eu at achava 
minhas Barbies bonitas.
        Becka limpou delicadamente a boca com um guardanapo.
        - A Barbie no faz meu tipo.
        Emily sorriu, quando outra pergunta ocorreu a ela.
        - Por que voc acha que ns gostamos de meninas? Pois eu estava lendo que isso  gentico, mas ento significa que, se eu tivesse uma filha, ela acharia 
suas Barbies bonitas tambm? - Emily pensou por um momento, antes de voltar a divagar. Ningum estava por perto e era bom poder perguntar as coisas que estavam enchendo 
sua cabea. Era isso que deveria acontecer nessa reunio, certo? - Embora... minha me parea a mulher mais htero da face da Terra - continuou Emily, um pouco enlouquecida.- 
Talvez pule uma gerao?
        Emily parou, percebendo que Becka a estava encarando com a cara mais esquisita.
        - Eu no acho - disse ela, desconfortvel.
        - Desculpe. Eu estou, tipo, falando feito uma doida. Eu s estou muito... confusa. E nervosa. - E magoada, ela queria adicionar, se apegando por um segundo 
em como a expresso de Maya desabara quando Emily falou que tudo estava acabado.
        - Tudo bem - sussurrou Becka.
        - Voc teve namorada antes de comear o Tree Tops? - perguntou Emily, mais baixo desta vez.
        Becka mastigou a unha de um dos dedes.
        -Wendy - disse ela, quase inaudvel. - Ns trabalhvamos juntas na Body Shop do Shopping King James.
        -Voc e a Wendy... davam uns amassos? - Emily mordiscou uma batata frita.
        Becka olhou desconfiada para as figuras perto da manjedoura no altar, como se pensasse que Jos e Maria e os trs reis magos estivessem ouvindo.
        - Talvez - disse ela bem baixinho.
        - Como foi?
        Uma pequena veia perto da tmpora de Becka pulsava.
        -  Pareceu errado. Ser... homossexual... no  fcil mudar isso, mas eu acho que voc pode. O Tree Tops me ajudou a entender por que eu estava com a Wendy. 
Eu cresci com trs irmos, e minha conselheira disse que eu fui criada num mundo muito centrado em meninos.
        Essa era a coisa mais estpida que Emily j tinha ouvido.
        - Eu tenho um irmo, mas tenho duas irms, tambm. Eu no fui criada num mundo centrado em meninos. Ento, o que est errado comigo?
        -  Bem, talvez a raiz do seu problema seja diferente. - Becka deu de ombros. -As conselheiras vo ajud-la a descobrir isso. Elas fazem voc falar de um 
monte de sentimentos e memrias. A ideia  substitu-los por novas ideias.
        Emily franziu a testa.
        - Eles esto fazendo voc esquecer coisas?
        - No exatamente.  mais como deixar para trs. 
        Mesmo com Becka tentando fazer o programa parecer melhor, o Tree Tops parecia horrvel. Emily no queria deixar Maya para trs. Ou Ali, pelo menos no que 
dizia respeito quela questo.
        De repente, Becka estendeu a mo e colocou-a sobre a de Emily. Aquilo era uma surpresa.
        - Eu sei que isso no faz muito sentido para voc agora, mas eu aprendi algo muito importante no Tree Tops. A vida  difcil. Se ns continuamos com esses 
sentimentos que so... que so errados, nossas vidas sero uma luta constante. As coisas j so difceis o bastante, sabia? Por que torn-las ainda pior?
        Emily sentiu seus lbios tremerem. As vidas de todas as lsbicas eram uma batalha constante? E aquelas duas mulheres homossexuais que so donas da loja de 
triatlo, duas cidades adiante? Emily tinha comprado seus New Balance l, e elas pareciam muito felizes. E Maya? Ela costumava se cortar, mas agora estava melhor.
        - Ento, Wendy est bem com voc estando no Tree Tops? - perguntou Emily.
        Becka olhou para a janela de vidros manchados atrs do altar.
        - Eu acho que ela entende. 
        -Vocs ainda se veem? 
        Becka deu de ombros.
        - Na verdade, no. Mas ainda somos amigas, eu acho. 
        Emily passou a lngua nos dentes.
        -Talvez ns pudssemos todas sair juntas, qualquer hora? - Seria bom ver duas ex-homossexuais que realmente so amigas. Talvez ela e Maya pudessem ser amigas, 
tambm.
        Becka levantou a cabea, parecendo surpresa.
        - Tudo bem. Que tal sbado  noite?
        - Parece bom para mim - respondeu Emily.
        Elas terminaram de almoar e Becka se despediu. Emily comeou a descer a colina coberta por uma grama bem verde, indo parar na fila com os outros jovens 
de Rosewood Day que voltavam para a aula. Seu crebro estava sobrecarregado com informao e emoes.
        As lsbicas do triatlo podiam estar felizes e Maya podia estar melhor, mas talvez Becka tambm estivesse certa. Como seria na faculdade, e depois da faculdade, 
e para arrumar emprego? Ela teria que explicar sua sexualidade para as pessoas milhares de vezes. Algumas no a aceitariam.
        Antes do dia anterior, as nicas pessoas que sabiam como ela realmente se sentia eram Maya, seu ex, Ben, e Alison. Dois dos trs no encararam isso muito 
bem.
        Talvez eles estivessem certos.
17
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MELOSOS DOS RELACIONAMENTOS
ACONTECEM EM CEMITRIOS
Quarta-feira, depois da escola, Aria observava Sean pedalar, a mountain bike Gary Fisher dele se distanciando, subindo com facilidade a estrada de West Rosewood.
        - Me alcana! - provocou ele.
        -  Fcil para voc dizer! - respondeu Aria, pedalando furiosamente na velha bicicleta Peugeot de dez marchas, dos tempos de faculdade da me, que ela trouxera 
consigo quando mudou para a casa do Sean.
        - Eu no corro dez quilmetros toda manh!
        Sean surpreendeu Aria depois da aula, ao anunciar que no iria ao futebol para que eles pudessem ficar juntos. O que era uma grande coisa - nas vinte e quatro 
horas em que estava morando com ele, Aria tinha percebido que Sean era viciado em futebol, da mesma forma que seu irmo era doido por lacrosse. Toda manh, Sean 
corria dez quilmetros, treinava e praticava chutes a gol numa rede colocada no quintal dos Ackard at a hora de ir para a escola.
        Aria lutou para subir o morro e ficou feliz de ver que havia uma longa descida  frente. Fazia um dia lindo, ento eles tinham decidido dar uma volta de 
bicicleta pelos arredores de West Rosewood. Pedalaram por diversas fazendas e por quilmetros de bosques intocados.
        No fundo do vale, passaram por uma cerca de ferro trabalhado com um porto cheio de adornos. Aria pisou no freio.
        -  Espera a. Eu tinha esquecido completamente deste lugar.
        Eles tinham parado na frente do cemitrio Saint Basil, o mais antigo e assustador de Rosewood, onde Aria costumava copiar as inscries das lpides. Ele 
abrigava hectares e mais hectares de montanhas e lindos gramados bem cuidados, e algumas das lpides datavam de 1700. Antes de Aria achar seu lugarzinho com Ali, 
ela tinha passado por uma fase gtica, adotando tudo que tivesse a ver com morte, Tim Burton, Halloween e unhas extremamente compridas. Os carvalhos cheios de folhas 
do cemitrio faziam uma sombra perfeita para sentar e descansar.
        Sean parou ao lado dela. Aria virou-se para ele.
        - Podemos entrar por um minuto? 
        Ele pareceu alarmado.
        -Voc tem certeza?
        - Eu amava vir aqui.
        - Tudo bem. - Relutante, Sean prendeu sua bicicleta e a de Aria a uma lata de lixo de ferro e foi atrs dela pelas primeiras lpides. Aria lia os nomes e 
as datas que tinha praticamente decorado alguns anos atrs. EDITH JOHNSTON, 1807-1856. PEQUENA AGNES, 1820-1821. SARAH WHITTIER, com aquela frase de Milton, A MORTE 
 A CHAVE DOURADA QUE ABRE O PALCIO DA ETERNIDADE. Morro acima, Aria sabia, estavam os tmulos de um cachorro chamado Puff, um gato chamado Rover e um periquito 
chamado Lily.
        -  Eu adoro tmulos - disse Aria, ao passarem por um tmulo com uma enorme esttua de um anjo. - Eles me lembram "O corao delator".
        - O qu?
        Aria levantou uma das sobrancelhas.
        - Ah, vai! Voc leu o conto. Edgar Allan Poe? O cara morto enterrado no cho? O narrador ainda consegue ouvir seu corao batendo?
        - No.
        Aria ps suas mos nos lbios, estarrecida. Como o Sean podia no ter lido isso?
        -  Quando voltarmos, vou achar meu livro do Poe para que voc possa ler.
        - Tudo bem - concordou Sean, depois mudou de assunto. -Voc dormiu bem noite passada?
        - Muito bem. - Uma mentira inofensiva. Seu quarto estilo hotel parisiense era lindo, mas Aria achou difcil dormir l. A casa do Sean era... perfeita demais. 
O edredom parecia fofo demais, o colcho acolchoado demais, o quarto tranquilo demais. Cheirava bem demais e era limpo demais tambm.
        Mais do que isso, ela estava extremamente preocupada com a movimentao do lado de fora da janela do seu quarto de hspedes, com a possibilidade de ver o 
perseguidor, e com o bilhete de A, que dizia que o assassino da Ali estava mais perto do que ela imaginava. Aria se revirara por horas, sozinha, certa de que iria 
abrir os olhos e ver o perseguidor - ou o assassino de Ali - diante da sua cama.
        -  Mas sua madrasta ficou toda neurtica comigo esta manh. - Aria deu a volta numa cerejeira japonesa em flor. - Eu esqueci de arrumar a minha cama. Ela 
me fez voltar para cima e ajeit-la. -Aria riu. - Minha me no faz isso h bilhes de anos.
        Quando ela olhou de volta, Sean no estava rindo com ela.
        - Minha madrasta trabalha duro para manter a casa limpa. Excurses da Casa Histrica de Rosewood vm quase todos os dias.
        Aria irritou-se. Ela queria contar a ele que a Sociedade Histrica de Rosewood tambm tinha considerado a casa dela para o tour - um protegido de Frank Lloyd 
Wright a tinha projetado. Em vez disso, suspirou.
        - Desculpe.  que... minha me no me ligou depois que eu deixei o recado dizendo que ficaria com voc. Eu me sinto to... abandonada.
        Sean acariciou o brao dela.
        - Eu sei, eu sei.
        Aria encostou a lngua no ponto do fundo de sua boca onde seu nico siso havia estado.
        - Este  o problema - disse ela, suavemente. -Voc no sabe. - A famlia de Sean era perfeita. O sr. Ackard tinha preparado waffles belgas naquela manh, 
e a sra. Ackard tinha feito o almoo de todo mundo, inclusive o de Aria. At mesmo o cachorro, um Airedale, era bem-comportado.
        - Ento me explica - disse Sean.
        Aria suspirou.
        - No  to simples assim.
        Eles passaram por uma rvore retorcida, cheia de ns. De repente, Aria olhou para baixo... e logo parou. Logo  frente dela havia uma nova lpide. Os coveiros 
ainda no tinham cavado o buraco para o caixo, mas havia uma marcao, do tamanho certo. O mrmore da lpide j havia sido colocado, entretanto. Dizia apenas ALISON 
LAUREN DILARENTIS.
        Um pequeno som, borbulhante, escapou da garganta de Aria. As autoridades ainda estavam examinando os restos mortais  procura de veneno e traumatismos, ento, 
os pais dela ainda no a haviam enterrado. Aria no sabia que eles planejavam enterr-la ali.
        Ela olhou para Sean, desamparada. Ele ficou plido.
        - Eu achei que voc soubesse.
        - Eu no fazia a menor ideia - sussurrou ela de volta.
        A lpide no dizia nada alm do nome de Ali. Nada de filha devotada, ou maravilhosa jogadora de hquei na grama, ou a mais bela menina de Rosewood. No havia 
nem o dia, ms, ou ano da morte. Aquilo era um problema porque ningum sabia a data exata.
        Aria estremeceu.
        -Voc acha que eu deveria dizer alguma coisa?
        Sean fez um biquinho com seus lbios cor-de-rosa.
        -  Quando eu visito o tmulo de minha me, s vezes eu digo.
        - Tipo o qu?
        - Eu a coloco a par dos que est acontecendo. - Ele olhou para ela de lado e ficou corado. - Eu fui depois da Foxy. Contei a ela sobre voc.
        Aria tambm corou. Ela encarou a lpide, mas sentiu-se desconfortvel. Falar com gente morta no era sua praia. Eu no acredito que voc esteja morta, pensou 
Aria, sem poder falar em voz alta. Eu estou parada aqui, olhando para o seu tmulo e, ainda assim, no  real. Eu odeio no saber o que aconteceu. O assassino ainda 
est aqui? A est falando a verdade?
        Siiiiim, Aria podia jurar que ouviu uma voz ao longe falar. Parecia a voz da Ali.
        Ela pensou sobre a mensagem de A. Algum queria ter algo de Ali - e a tinha matado por isso. O qu? Todo mundo j quisera alguma coisa de Ali - at mesmo 
suas melhores amigas. Hanna queria a personalidade de Ali, e parecia ter se apropriado dela depois que Ali sumiu. Emily tinha amado Ali mais que qualquer uma - elas 
costumavam chamar Emily de "delegada", o co de guarda de Ali. Aria queria a habilidade de flertar de Ali, sua beleza, seu carisma. E Spencer sempre teve muito cime 
dela.
        Aria olhou para a rea demarcada que seria o tmulo de Ali e perguntou a frase que estava lentamente se formando em sua mente: Sobre o que era realmente 
a briga de vocs?
        -  Isso no est dando certo pra mim - sussurrou Aria, depois de um momento. -Vamos embora.
        Ela deu um olhar de despedida para o tmulo de Ali. Ao virar-se para ir embora, os dedos de Sean se entrelaaram nos dela. Eles andaram calados por um tempo, 
mas a meio caminho do porto, Sean parou.
        - Um coelhinho. - Ele apontou para um coelho do outro lado da clareira e beijou os lbios de Aria.
        A boca de Aria curvou-se para cima em um sorriso.
        - Eu ganho um beijo s porque voc viu um coelho?
        - Sim. - Sean a agarrou, brincalho. -  como o jogo em que voc d um soco em algum quando v um fusca. Conosco, pode ser com beijos. E coelhos.  o nosso 
jogo de casal.
        -Jogo de casal? -Aria deu uma risadinha, achando que ele estava brincando.
        Mas a feio de Sean estava sria.
        - Voc sabe, um jogo s nosso.  bom que seja com coelhos, pois h milhares deles em Rosewood.
        Aria estava com medo de tirar sarro dele, mas, realmente - um jogo de casal? Isso lembrava a ela uma coisa que Jennifer Thatcher e Jennings Silver pudessem 
fazer. Jennifer e Jennings eram um casal de sua classe que estavam juntos desde antes de Aria ir para a Islndia, no fim do sexto ano. Eles eram conhecidos apenas 
como Duplo-J, ou Dois-J, e eram chamados assim mesmo, individualmente. Aria no podia ser uma Dois-J.
        Ao observar Sean andando na frente dela, em direo s bicicletas, os delicados cabelos de sua nuca se arrepiaram. Parecia que algum a estava observando. 
Mas, quando olhou em volta, tudo o que viu foi um gigantesco corvo negro, no topo da lpide da Ali.
        O corvo olhou para ela, sem piscar, e depois abriu as asas enormes e levantou voo em direo s rvores.
18
UM BOM TAPA NA NUCA
NUNCA FEZ MAL A NINGUM
Na quinta-feira de manh, a dra. Evans fechou a porta de seu escritrio, ajeitou-se em sua cadeira de couro, juntou as mos placidamente, e sorriu para Spencer, 
que estava sentada do lado oposto a ela.
        - Ento. Eu soube que voc teve uma sesso de fotos e uma entrevista ontem para o Sentinel.
        - Isso mesmo - confirmou Spencer.
        - E como foi?
        - Bem. - Spencer deu um gole no seu vanilla latte extra-grande, do Starbucks. A entrevista realmente tinha corrido bem, mesmo depois de toda a preocupao 
de Spencer e das ameaas de A, Jordana quase no tinha perguntado sobre o trabalho, e Matthew dissera que as fotos tinham ficado primorosas.
        - E como sua irm reagiu a voc ser o centro das atenes? - perguntou a dra. Evans. Quando Spencer levantou uma das sobrancelhas, a terapeuta deu de ombros 
e inclinou-se para a frente. -J te ocorreu que ela pudesse ter cime de voc?
        Spencer olhou ansiosamente para a porta fechada do consultrio. Melissa estava sentada do lado de fora, no sof da sala de espera, lendo Viagem & Lazer. 
Mais uma vez, ela tinha marcado sua sesso para logo depois da de Spencer.
        - No se preocupe, ela no consegue ouvir voc - assegurou a dra. Evans.
        Spencer suspirou.
        - Ela parecia bem... chateada - sussurrou ela. - Normalmente, tudo diz respeito a Melissa. Mesmo quando meus pais fazem uma pergunta endereada apenas a 
mim, Melissa imediatamente tenta manobrar a conversa de volta para ela. -Spencer encarava o anel de prata da Tiffany, revirando-o na ponta de um dos dedos indicadores. 
- Eu acho que ela me odeia.
        A dra. Evans tamborilou sobre um caderno.
        - Faz muito tempo que voc acha que ela te odeia, certo? Como voc se sente em relao a isso?
        Spencer deu de ombros, abraando contra o peito uma das almofadas de chenile verde-floresta da terapeuta.
        - Com raiva, eu acho. s vezes, fico muito frustrada com o jeito que as coisas esto, eu s queria... bater nela. Nunca fiz isso, claro, mas...
        - Mas seria muito bom, no seria?
        Spencer fez que sim, olhando para a luminria pescoo de ganso cromada da dra. Evans. Uma vez, depois que Melissa dissera a Spencer que ela no era uma boa 
atriz, Spencer tinha chegado perto de dar um tapa na cara da irm. Em vez disso, tinha jogado um dos pratos de Natal da Spode da me pela sala de jantar. Ele tinha 
se espatifado, deixando uma rachadura em forma de borboleta na parede.
        A dra. Evans folheou seu caderno de anotaes.
        - Como seus pais lidam com a animosidade entre voc e sua irm?
        Spencer deu de ombros.
        - Em geral, no lidam. Se voc perguntar para minha me, ela provavelmente diria que ns nos damos perfeitamente bem.
        A dra. Evans se recostou e pensou por um longo tempo. Ela batucou no passarinho de brinquedo em sua mesa, e o passarinho de plstico comeou a tomar goles 
de gua medidos de uma caneca de EU AMO Rosewood.
        -  apenas uma teoria precoce, mas talvez Melissa tenha medo de que, se seus pais reconhecerem algo que voc tenha feito bem, eles vo amar voc em vez dela.
        Spencer levantou a cabea.
        - Mesmo?
        - Talvez. Voc, por outro lado, acha que seus pais no te amam mesmo. Tudo gira ao redor de Melissa. Voc no sabe como competir com ela,  a que entra 
seu namorado. Mas talvez no seja exatamente que voc queira os namorados da Melissa, mas que voc queira feri-la. Faz sentido?
        Spencer concordou, pensativa:
        - Talvez...
        -Vocs duas esto sofrendo muito - disse a dra. Evans baixinho, seu rosto se suavizando. - Eu no sei o que provocou esse comportamento. Pode ter sido alguma 
coisa h muito tempo, algo que voc pode nem se lembrar, mas vocs criaram um padro para lidar uma com a outra desse jeito, e vo continuar com isso, a no ser 
que reconheam o que est na base disso, aprendam como respeitar os sentimentos uma da outra e mudem. O padro pode estar se repetindo em seus outros relacionamentos, 
tambm. Voc pode estar escolhendo amigos e namorados que tratem voc do mesmo jeito que Melissa porque voc se sente confortvel dentro desta dinmica, dentro dela, 
voc conhece o seu papel.
        - O que voc quer dizer? - perguntou Spencer, abraando os joelhos. Para ela, aquilo soava como uma baboseira psicolgica.
        -As suas amigas so um tipo de... centro de tudo? Elas tm tudo que voc quer, elas te obrigam a fazer as coisas, voc nunca se sente bem o suficiente?
        A boca de Spencer ficou seca. Ela certamente tivera uma amiga assim: Ali.
        Ela fechou seus olhos e visualizou a lembrana de Ali que a atormentara a semana toda.A lembrana era de uma briga, Spencer tinha certeza disso. A questo 
 que, normalmente Spencer se lembrava de todas as brigas com Ali, melhor do que lembrava dos bons momentos daquela amizade. Seria um sonho?
        - No que voc esta pensando? - perguntou a dra. Evans. 
        Spencer respirou fundo.
        - Na Alison.
        - Ah. - A dra. Evans balanou a cabea. -Voc acha que a Alison era como Melissa?
        - Eu no sei. Talvez.
        A terapeuta puxou um leno de papel da caixa em sua mesa e assoou o nanz.
        - Eu vi um vdeo de vocs duas na TV Voc e Alison pareciam bravas uma com a outra. Estavam mesmo?
        Spencer respirou fundo.
        - Mais ou menos.
        -Voc se lembra do motivo?
        Spencer pensou por um momento e olhou em volta da sala. Havia uma placa na mesa da dra. Evans que ela no tinha notado da ltima vez em que estivera l. 
Dizia:
        O NICO CONHECIMENTO VERDADEIRO NA VIDA  
        SABER QUE  VOC NO SABE NADA. - SCRATES.
        -  Naquelas semanas, antes de Alison desaparecer, ela comeou a agir... de um jeito diferente. Como se odiasse a gente. Nenhuma de ns queria admitir isso, 
mas eu acho que ela estava planejando nos abandonar naquele vero.
        - Como voc se sentiu com isso? Com raiva?
        - Sim. Claro. - Spencer fez uma pausa. - Ser amiga de Ali era timo, mas ns tivemos que fazer muitos sacrifcios. Ns aguentamos muita coisa juntas, e muitas 
delas no foram boas. Era como:'Ns passamos por tudo isso por voc, e voc retribui nos descartando?'
        - Ento ela estava em dbito com voc. 
        -Talvez - respondeu Spencer.
        - Mas voc se sente culpada tambm, certo? - sugeriu a dra. Evans.
        Spencer abaixou os ombros.
        - Culpada? Por qu?
        - Porque Alison est morta. Porque, de certa forma, voc ficou ressentida. Talvez voc quisesse que alguma coisa ruim acontecesse com Alison porque ela a 
estava magoando.
        - Eu no sei - sussurrou Spencer.
        - E a, seu desejo virou realidade. Agora voc acha que o desaparecimento de Alison  culpa sua, que se voc no tivesse se sentindo desse jeito em relao 
a Alison, ela no teria sido assassinada.
        Os olhos de Spencer encheram-se de lgrimas. Ela no conseguia responder.
        -  No  culpa sua - afirmou a dra. Evans com energia, inclinando-se para a frente na cadeira. - Ns nem sempre amamos nossas amigas todo o tempo. Alison 
machucou voc. S porque voc teve um pensamento maldoso sobre Alison no significa que voc causou a morte dela.
        Spencer fungou. Ela olhou para a frase de Scrates mais uma vez. O NICO CONHECIMENTO VERDADEIRO NA
VIDA  SABER QUE VOC NO SABE NADA.
        - Tem uma lembrana que fica voltando  minha cabea - desabafou Spencer. - Sobre a Ali. Ns estamos brigando. Ela fala sobre algo que li em seu dirio. 
Ela sempre achou que eu estava lendo o dirio dela, mas eu nunca li. Mas eu... no estou nem mesmo certa de que essa lembrana seja real.
        A dra. Evans ps a caneta na boca.
        - As pessoas lidam com as coisas de maneiras diferentes. Para algumas, se elas presenciam ou fazem algo perturbador, o crebro, de alguma maneira, edita 
isso. Mas, frequentemente, a lembrana tenta reaparecer.
        A boca de Spencer coou, como se tivesse palha de ao por dentro.
        - Nada de perturbador aconteceu.
        - Eu poderia tentar hipnotizar voc para trazer a memria de volta.
        A boca de Spencer ficou seca.
        - Hipnotizar?
        A dra. Evans estava olhando para ela.
        - Poderia ajudar.
        Spencer pegou um pedao de cabelo com a boca. Ela apontou para a frase de Scrates.
        - O que significa aquilo?
        - Aquilo? - A dra. Evans deu de ombros. - Pense nisso voc mesma. Tire suas prprias concluses. - Ela sorriu. - Agora, est pronta? Deite-se e fique confortvel.
        Spencer afundou-se no sof. Enquanto a dra. Evans descia as persianas de bambu, Spencer se encolheu. Isso foi exatamente o que a Ali fez no celeiro, na noite 
antes de sua morte.
        - Apenas relaxe. - A dra. Evans desligou o abajur de sua mesa. - Sinta-se ficando mais calma.Tente esquecer tudo sobre o que falamos hoje. Est bem?
        Spencer no estava nem um pouco relaxada. Os joelhos haviam travado e os msculos tremiam. At seus dentes rangiam. Agora ela vai andar em volta de mim e 
comear a contagem regressiva a partir de cem. Ela vai tocar minha testa, e eu estarei em seu poder.
        Quando Spencer abriu os olhos, ela no estava mais no consultrio da dra. Evans. Estava do lado de fora do celeiro. Era de noite. Alison estava olhando para 
ela, balanando a cabea do mesmo jeito que fizera em todos os flashes de memria de que ela havia se recordado durante a semana. De repente, Spencer sabia que aquela 
era a noite em que Ali havia desaparecido. Ela tentou se desvencilhar da lembrana, mas seus membros pareciam pesados e inteis.
        - Voc tenta roubar tudo de mim - dizia Ali, com uma entonao  aterrorizantemente familiar. - Mas voc no pode ter.
        - No posso ter o qu? - O vento estava gelado. Spencer estremeceu.
        - Ah, qual ? - provocou Ali, colocando as mos nos quadris. -Voc leu sobre isso no meu dirio, no leu?
        - Eu no leria seu dirio idiota - rebateu Spencer. - Eu no dou a mnima.
        - At parece. - Ali se inclinou para a frente. Seu hlito era mentolado.
        -Voc est delirando - acusou Spencer.
        - No, no estou - rosnou Ali. - Voc est.
        De repente, Spencer se encheu de raiva. Ela se inclinou para a frente e empurrou Ali.         Ali pareceu surpresa.
        - Amigas no empurram amigas.
        - Bem, talvez ns no sejamos amigas - retrucou Spencer.
        - Acho que no.
        Ela deu uns passos e virou-se de volta. Ento disse mais alguma coisa, Spencer via a boca de Ali se mover, depois, sentiu a sua prpria boca se movendo, 
mas no conseguia ouvir as palavras. Tudo que ela sabia era que seja l o que Ali dissera, isso a deixara brava. De algum lugar distante veio um som agudo e rpido. 
Os olhos de Spencer abriram-se imediatamente.
        - Spencer - chamou a voz da dra. Evans. - Ei, Spencer. 
        A primeira coisa que ela viu foi a placa do outro lado da sala. O NICO CONHECIMENTO VERDADEIRO NA VIDA  SABER QUE VOC NO SABE NADA. Ento, o rosto da 
dra.
Evans entrou em seu campo de viso. Ela tinha uma expresso de dvida e preocupao no rosto.
        -Voc est bem? - perguntou a dra. Evans.
        Spencer piscou algumas vezes.
        - Eu no sei. - Ela se sentou e passou uma das mos na testa. A sensao era a mesma de quando ela acordou da anestesia depois de tirar o apndice. Tudo 
parecia borrado e sem sentido.
        - Me diga o que voc v na sala - pediu a dra. Evans. - Descreva tudo.
        Spencer olhou em volta.
        - O sof de couro, o tapete branco fofo, o...
        O que Ali tinha dito? Por que Spencer no tinha conseguido ouvi-la? Aquilo realmente tinha acontecido?
        - Um cesto de lixo de arame - gaguejou ela. - Uma vela em forma de pera da Anjou.
        - Certo. - A dra. Evans colocou uma das mos no ombro de Spencer. - Sente-se aqui. Respire.
        A janela da dra. Evans estava aberta, e Spencer podia sentir o cheiro do asfalto fresco do estacionamento. Duas pombas arrulhavam uma para a outra. Quando 
ela finalmente levantou-se e disse  dra. Evans que a veria na prxima semana, se sentia mais lcida. Passou reto pela sala de espera sem perceber Melissa. Ela s 
queria sair logo de l.
        No estacionamento, Spencer deslizou para dento do carro e sentou-se em silncio. Ela listou todas as coisas que viu ali, tambm. A bolsa de l escocesa. 
O letreiro da feira livre do outro lado da rua onde se lia OMATES FRESCOS. O T tinha cado no cho. O Chevy azul mal estacionado na frente das barracas. A alegre 
casa de passarinho pendurada num carvalho ali perto. A placa na porta do escritrio que dizia que s era permitida a entrada de ces-guia. O perfil de Melissa na 
janela do consultrio da dra. Evans.
        Os cantos da boca da irm estavam espalhados num grande sorriso, e ela gesticulava animadamente com as mos. Quando Spencer olhou de volta para a feira, 
notou que o pneu do Chevy estava murcho. Havia algo se esquivando atrs do caminho. Um gato, talvez.
        Spencer sentou-se ereta. No era um gato, mas uma pessoa. Olhando para ela.
        Os olhos da pessoa no piscavam. E a, de repente, quem quer que fosse virou a cabea, agachou-se na sombra e desapareceu.
19
 MELHOR QUE UMA PLAQUINHA 
DIZENDO "CHUTE-ME"
Quinta-feira  tarde, Hanna seguia sua turma de qumica pelo ptio at o mastro da bandeira. Tinha havido um treinamento para incndio, o sr. Percival estava contando 
para ter certeza de que nenhum aluno havia fugido. Era outro dia extremamente quente de outubro, e com o sol arrebentando a cabea de Hanna, ela ouviu duas garotas 
do primeiro ano cochichando.
        - Voc ficou sabendo que ela  cleptomanaca? - silvou Noelle Frazier, uma menina alta com cachos louros.
        - Eu sei - disse Anna Walton, uma morena mida, de peitos enormes. - Ela, tipo, organizou aquele roubo imenso na Tiffany. E depois ela destruiu o carro do 
sr. Ackard.
        O corpo de Hanna enrijeceu. Normalmente, ela no se incomodaria com duas retardadas do primeiro ano, mas estava se sentindo um tanto vulnervel. Fingiu estar 
interessada num monte de pinheiros que os jardineiros tinham acabado de plantar.
        - Eu ouvi dizer que ela vai parar na delegacia tipo, todo dia - falou Noelle.
        - E voc soube que ela no est mais convidada para a festa da Mona, certo? - sussurrou Anna. - Elas tiveram uma superbriga porque Hanna a humilhou com aquele 
lance de escrever no cu.
        - Mona queria largar dela j h uns dois meses - completou Noelle, como se soubesse de tudo. - Hanna virou uma superperdedora.
        Isso era demais. Hanna virou-se.
        - Onde voc ouviu isso?
        Anna e Noelle trocaram uma risadinha sarcstica. E a, correram morro abaixo, sem responder.
        Hanna fechou os olhos e recostou-se no mastro da bandeira, tentando ignorar o fato de que todos da sua turma de qumica a estavam encarando. J haviam passado 
24 horas desde o desastre da escrita no cu, e as coisas iam de mal a pior. Hanna tinha deixado pelo menos dez mensagens pedindo desculpas no celular de Mona na 
noite anterior... mas Mona no tinha ligado de volta. E, naquele dia, ela ouviu coisas estranhas e desagradveis sobre si mesma... da boca de todo mundo.
        Ela pensou na mensagem de A. E Mona? Ela tambm no  sua amiga. Ento, .fica esperta. Hanna observou a multido de jovens no ptio. Perto das portas, duas 
meninas em uniforme de animadora de torcida ensaiavam de brincadeira. Perto de um eucalipto, dois meninos estavam fazendo "Briga de Blazer" - batendo um no outro 
com seus blazers do uniforme de Rosewood Day. O irmo de Aria, Mike, passou jogando em seu PSP. Finalmente, ela visualizou o cabelo loiro-claro de Mona. Ela estava 
voltando para o prdio principal por uma das portas laterais, com uma cara de entediada, arrogante. Hanna arrumou seu blazer, apertou e soltou as mos e foi direto 
at sua melhor amiga.
        Quando alcanou Mona, ela deu um tapinha em seu ombro ossudo. Mona olhou para ela.
        - Ah.  voc - disse ela em um tom montono, do jeito que costumava cumprimentar os derrotados que no eram descolados o suficiente para estar em sua presena.
        - Voc est espalhando coisas a meu respeito? - questionou Hanna, colocando suas mos nos quadris, caminhando junto com Mona, que estava dando passadas rpidas 
pela porta lateral em direo ao corredor do estdio de artes.
        Mona segurou sua bolsa cor de tangerina da Dooney & Bourke ainda mais alto em um dos ombros.
        - Nada que no seja verdade.
        O queixo da Hanna caiu. Ela se sentiu como o Coiote em um daqueles desenhos antigos do Pernalonga que ela costumava assistir: ele corria sem parar e de repente 
caa de um penhasco. O Coiote parava, sem saber o que estava acontecendo por um segundo, e ento caa rapidamente.
        - Ento, voc acha que eu sou uma derrotada? - esgoelou Hanna.
        Mona levantou uma das sobrancelhas.
        - Como eu disse, nada que no seja verdade.
        Ela deixou Hanna parada no meio do corredor, os alunos indo e vindo em volta dela. Mona andou para o fundo do corredor e parou num grupo de meninas. De cara, 
elas pareciam todas iguais - bolsas caras, cabelos brilhantes, pernas magricelas com bronzeamento artificial - mas, ento, os olhos de Hanna desanuviaram. Mona estava 
parada perto de Naomi e de Riley, e elas estavam todas cochichando.
        Hanna tinha certeza que ia chorar. Ela cambaleou pela porta do banheiro e se fechou numa das cabines ao lado da Velha Confivel, a privada famosa por aleatoriamente 
espirrar gua aos montes, ensopando voc se fosse burra o suficiente para us-la. O banheiro dos meninos tambm tinha uma privada que espirrava. Por muitos anos, 
os encanadores tentaram consertar as duas, mas como no conseguiram descobrir a causa, as Velhas Confiveis tinham virado lenda nos anais de Rosewood Day.Todo mundo 
sabia muito bem que no devia us-los.
        Exceto que... Mona tinha usado a Velha Confivel apenas algumas semanas depois de ela e Hanna terem ficado amigas, no tempo em que Mona ainda no tinha rumo. 
Ela havia mandado uma mensagem de texto desesperada para Hanna durante a aula de programas de sade, e Hanna tinha corrido at o banheiro para emprestar uma saia 
e uma blusa do uniforme que ela tinha no armrio. Hanna lembrava-se de ter embrulhado a saia ensopada de Mona numa sacola plstica e passado por baixo da porta da 
cabine para que Mona pudesse se trocar discretamente - Mona sempre tinha sido engraada com esse lance de se trocar na frente de outras pessoas.
        Como Mona podia no se lembrar disso?
        Como se estivesse esperando, a Velha Confivel entrou em erupo. Hanna deu um grito e encostou-se  parede oposta da cabine quando uma coluna de gua azul 
da privada subiu pelos ares. Algumas gotas pesadas respingaram nas costas do blazer de Hanna, e ela se curvou contra a parede e, finalmente, comeou a soluar. Ela 
odiava que Mona no precisasse mais dela. E que Ali tivesse sido assassinada. E que seu pai ainda no tivesse ligado. Por que isso estava acontecendo? O que ela 
tinha feito para merecer isso?
        Quando a Velha Confivel diminuiu para apenas um borbulho, a porta principal foi aberta. Hanna dava pequenos soluos, tentando chorar baixinho. A pessoa 
que entrou foi para a pia, e Hanna espiou por debaixo da porta. Ela viu um par de sapatos pretos masculinos.
        - Ol? - falou uma voz de menino. -Tem... algum a? 
        Hanna colocou a mo na boca. O que um menino estava fazendo naquele banheiro?
        A no ser... No. Ela no tinha feito isso.
        -  Hanna? - Os sapatos pararam em frente  sua cabine. Hanna tambm reconheceu a voz.
        Ela espiou pelo vo da porta. Era Lucas, o menino do Rive Gauche. Podia ver a ponta do nariz dele e um longo pedao de cabelos loiros. Havia um broche grande 
na lapela dele dizendo: VAI, TIME DE FUTEBOL DE ROSEWOOD!
        - Como voc sabia que era eu?
        - Eu vi voc entrar aqui - respondeu ele. -Voc sabia que este  o banheiro dos meninos, certo?
        Hanna respondeu com uma fungada envergonhada. Ela tirou o blazer molhado, se arrastou para fora da cabine, andou at a pia, e apertou o dispensador de sabonete 
com fora demais. O sabo tinha aquele cheiro artificial de amndoa que Hanna odiava.
        Os olhos de Lucas se desviaram para a Velha Confivel.
        - Essa coisa entrou em erupo?
        - Sim.
        E, ento, Hanna no conseguiu mais controlar suas emoes. Ela se curvou sobre a pia, as lgrimas pingando na cuba.
        Lucas ficou parado por momento, ento, ps a mo no meio das costas dela. Hanna sentiu que a mo dele tremia um pouco.
        -  apenas a Velha Confivel. Ela entra em erupo, tipo, a cada hora. Voc sabe dessa parada.
        - No  isso. - Hanna pegou uma toalha de papel spera e assoou o nariz. - Minha melhor amiga me odeia. E est fazendo todas as outras pessoas me odiarem 
tambm.
        - O qu? Claro que ela no te odeia. Que loucura.
        - Sim, ela me odeia! - A voz aguda de Hanna ecoou nas paredes de azulejo do banheiro. - Agora, Mona est saindo com essas meninas que ns odivamos, e est 
fazendo fofoca sobre mim, tudo porque eu perdi o Amiganiversrio e o avio escreveu "A festa da Mona vai ser a peidada de sbado" em vez de "Pedida de sbado" no 
cu, e ela me desconvidou para sua festa de aniversrio, e eu deveria ser sua melhor amiga!
        Ela falou tudo isso numa longa frase sem respirar, sem se preocupar com onde estava ou com quem estava falando. Quando terminou, olhou para Lucas, de repente 
irritada, pois ele estava l e tinha ouvido tudo.
        Lucas era to alto que praticamente tinha que se abaixar para no bater com a cabea no teto.
        - Eu poderia comear a espalhar rumores sobre ela. Tipo, que talvez ela tenha uma doena que faz com que ela precise comer meleca quando ningum est olhando?
        O corao da Hanna amoleceu. Isso era nojento... mas ao mesmo tempo engraado... e amvel.
        - No precisa.
        - Bem, fica valendo a oferta. - Lucas tinha um olhar honesto no rosto. Na horrorosa luz verde do banheiro, ele at que era bonitinho. - Mas, espera! Eu sei 
de uma coisa que ns podemos fazer para te animar.
        Hanna olhou para ele, incrdula. O qu? O Lucas achava que eles eram amigos agora, porque ele a tinha visto no banheiro? Ainda assim, ela estava curiosa.
        - O qu?
        - No posso te contar.  supersecreto. Eu vou te pegar amanh de manh.
        Hanna lanou um olhar de aviso na direo dele.
        - Tipo... um encontro?
        Lucas levantou as mos, como se estivesse se rendendo.
        - De jeito nenhum. Apenas... como amigos.
        Hanna engoliu em seco. Ela precisava de um arrugo naquele momento. Nada bom.
        - Tudo bem - concordou ela baixinho, sentindo-se cansada demais para discutir. Ento, com um suspiro, saiu do banheiro dos meninos e se encaminhou para sua 
prxima aula. Estranhamente, se sentia um pouquinho melhor.
        Mas, ao virar para o corredor da ala de lnguas estrangeiras, Hanna ps a mo para trs para colocar seu blazer de volta e sentiu alguma coisa grudada em 
suas costas. Ela puxou um pedao amassado se papel. Sinta pena de mim, dizia, em letra cursiva cor-de-rosa.
        Hanna olhou para os alunos passando ao redor, mas nenhum deles estava prestando ateno. Por quanto tempo ela estaria andando com o bilhete pendurado? Quem 
teria feito isso? Poderia ter sido qualquer um. Ela tinha estado no meio da multido durante o treinamento de incndio. Todos haviam estado l.
        Hanna olhou para o papel de novo e virou-o. Do outro lado tinha uma mensagem impressa. Hanna estava com aquela sensao de estmago afundado.
        Hanna, lembra quando voc viu a Mona sair da clnica de 
        cirurgia plstica Bill Beach? Al, lipo!! Mas, shhh! Voc no 
        soube por mim. - A
20
A VIDA IMITA A ARTE
Quinta-feira  tarde na hora do almoo, Aria virou no corredor da ala administrativa de Rosewood Day. Todos os professores tinham gabinetes ali e costumavam dar 
aulas particulares ou aconselhamento para alunos durante o horrio de almoo.
        Aria parou diante da porta fechada do gabinete de Ezra. A sala havia mudado bastante desde o comeo do ano. Ele tinha instalado uma lousa branca, e ela estava 
completamente cheia de recados de estudantes em tinta azul. Sr. Fitz, quero falar do meu trabalho sobre o Fitzgerald. Passo a depois da aula. - Kelly. Tinha uma 
frase de Hamlet na parte de baixo:  vilo, vilo, que ri, vilo maldito! Abaixo do suporte de canetas havia um recorte de um cartoon de um cachorro num div de 
analista, tirado da New Yorker. E na maaneta estava uma placa de NO PERTURBE de um hotel; Ezra a tinha virado do outro lado: ARRUMADEIRA, POR FAVOR, LIMPE ESTE 
CMODO.
        Aria bateu, hesitante.
        - Entre. - Ela o ouviu dizer do outro lado. Aria esperava que Ezra estivesse com outro aluno. Pelos comentrios que ouviu em classe, ela achou que a hora 
do almoo no gabinete dele eram sempre movimentadas, mas l estava Ezra, sozinho, com uma caixa de McLanche Feliz em sua mesa. A sala cheirava a McNuggets.
        - Aria! - exclamou Ezra, levantando uma das sobrancelhas. - Que surpresa. Sente-se.
        Aria pulou no sof de tweed arranhado de Ezra, do mesmo tipo que havia no gabinete do diretor de Rosewood Day. Ela apontou para a mesa dele.
        - McLanche Feliz?
        Ele sorriu, envergonhado.
        - Eu gosto dos brinquedos. - Ele segurou um carro que fazia parte de algum filme infantil. - McNuggets? - Ele ofereceu a caixa. - Peguei molho barbecue.
        Ela acenou que no.
        - Eu no como carne.
        -  mesmo. - Ele comeu um nugget, com os olhos presos aos dela. - Eu esqueci.
        Aria sentiu algo - uma mistura de intimidade e desconforto. Ezra olhou para o outro lado, provavelmente sentindo o mesmo. Ela olhou a mesa dele. Estava cheia 
de pilhas de papis, um minijardim zen, e cerca de mil livros.
        - Ento... - Ezra limpou a boca com um guardanapo, sem notar a expresso de Aria. - O que posso fazer por voc?
        Aria apoiou o cotovelo no brao do sof.
        - Bem, eu gostaria de saber se voc pode prorrogar meu prazo para a entrega do trabalho sobre A letra escarlate, que  para amanh.
        Ele apoiou o refrigerante na mesa.
        - Mesmo? Estou surpreso. Voc nunca se atrasa com nada.
        - Eu sei - murmurou ela, envergonhada. Mas a casa dos Ackard no era convidativa ao estudo. Primeiro: era muito quieta. Aria estava acostumada a estudar 
enquanto simultaneamente ouvia msica, a TV e Mike falando ao telefone no quarto ao lado. Segundo: era difcil se concentrar quando ela sentia que algum... a estava 
observando. - Mas no  grande coisa. S preciso de mais um final de semana.
        Ezra coou a cabea.
        - Bem... eu ainda no tenho uma poltica para a prorrogao de prazos. Mas tudo bem. Apenas desta vez. Na prxima, eu vou ter que tirar um ponto de voc.
        Ela colocou o cabelo atrs da orelha.
        - No pretendo fazer isso o tempo todo.
        - Bom. Ento, o que ?Voc no est gostando do livro? Ou ainda no comeou?
        - Eu terminei hoje. Mas eu o odiei. Odiei Hester Prynne.
        - Por qu?
        Aria brincou com a fivela dos sapatos Urban Outfitters cor de marfim.
        - Ela presume que o marido esteja perdido no mar e, ento, tem um caso com outro - murmurou ela.
        Ezra inclinou-se para a frente apoiado sobre um dos cotovelos, parecendo se divertir.
        - Mas o marido dela no  um homem muito bom. Isso  o que torna tudo complicado.
        Aria olhou para os livros socados nas prateleiras de madeira lotadas. Guerra e paz. O arco-ris da gravidade. Uma coleo cara de e.e.cummings e poesia de 
Rilke, e no um, mas dois exemplares de Sem sada. Havia a coleo de Edgar Allan Poe, que Sean no tinha lido. Todos os livros pareciam amassados e usados por terem 
sido lidos e relidos.
        -  Mas eu no consegui ver alm do que a Hester fez - confessou Aria, baixinho. - Ela traiu.
        - Mas ns devamos ter pena da luta dela, e de como a sociedade a rotulou, e de como ela luta para construir sua prpria identidade e no permitir que algum 
crie uma para ela.
        - Eu a odeio, certo? - explodiu Aria. - E no vou perdo-la nunca!
        Ela cobriu o rosto com as mos. Lgrimas escorreram por suas bochechas. Quando fechou os olhos, ela imaginou Byron e Meredith como os amantes ilcitos do 
livro, e Ella como o criticado marido vingativo de Hester. Mas se a vida realmente imita a arte, eram Byron e Meredith que deveriam estar sofrendo... no Aria. Ela 
havia tentado ligar para casa na noite anterior, mas no momento em que Ella ouviu a voz de Aria do outro lado da linha, desligou. Quando Aria acenou para Mike do 
outro lado da sala de ginstica, ele imediatamente se virou e entrou de volta no vestirio. Ningum estava do seu lado.
        - Ei - disse Ezra, baixinho, depois que Aria deu um suspiro sufocado. - Est tudo bem. Ento, voc no gostou do livro. No tem problema.
        - Desculpe. Eu s... - Ela sentiu as lgrimas quentes na palma das mos. A sala de Ezra ficou muito quieta. Havia apenas a vibrao do disco rgido do computador. 
O zumbido da lmpada fluorescente. Os gritos alegres do playground da pr-escola. Todas as crianas estavam do lado de fora para o intervalo.
        - H algo que voc queira me contar? - perguntou Ezra. 
        Aria enxugou os olhos com a parte de trs da manga do blazer. Ela pegou um boto solto em uma das almofadas do assento do sof.
        - Meu pai teve um caso com uma aluna, trs anos atrs - desabafou ela. - Ele  professor na Hollis. Eu sempre soube, mas ele me pediu para no contar para 
minha me. Bem, agora ele est com essa aluna de novo... e minha me descobriu. Ela est furiosa porque eu sabia h muito tempo... e agora meu pai foi embora.
        - Meu Deus - sussurrou Ezra. - Isso foi h pouco tempo?
        - Sim. H algumas semanas.
        - Cus. - Ezra olhou para o teto de vigas por um momento. - Isso no parece muito justo da parte do seu pai. Nem da de sua me.
        Aria deu de ombros. Seu queixo comeou a tremer de novo.
        - Eu no deveria ter escondido isso da minha me. Mas o que eu poderia ter feito?
        Ele levantou da cadeira, deu a volta indo para a frente da mesa, empurrou uns papis para o lado e se sentou na beirada.
        -  Certo. Bem, eu nunca disse isso para ningum, mas quando eu estava no ensino mdio, eu vi minha me beijando o mdico dela. Ela estava com cncer na poca, 
e, como meu pai estava viajando, ela me pediu para lev-la s sesses de quimioterapia. Um dia, enquanto eu estava esperando, tive que ir ao banheiro e, quando estava 
andando de volta pelo corredor, vi a porta do consultrio aberta. Eu no sei por que olhei l para dentro, mas quando olhei... l estavam eles. Se beijando.
        Aria engasgou.
        - O que voc fez?
        - Eu fingi que no vi. Minha me no fazia a menor ideia que eu tinha visto. Ela saiu vinte minutos depois, toda arrumada, sbria e apressada. Eu realmente 
queria falar sobre o assunto, mas, ao mesmo tempo, no podia. - Ele balanou a cabea. - Dr. Poole. Nunca mais o vi da mesma maneira.
        -Voc no disse que seus pais tinham se divorciado? - perguntou Aria, lembrando-se de uma conversa que haviam tido na casa de Ezra. - Sua me ficou com o 
dr. Poole?
        - No. - Ezra estendeu a mo e pegou um McNugget da caixa. - Eles se divorciaram uns dois anos depois. O dr. Poole e o cncer j tinham passado.
        - Deus. - Foi tudo em que Aria pde pensar em dizer.
        -  uma droga. - Ezra brincou com uma das pedras do minijardim zen, que estava na beira da mesa dele. - Eu idolatrava o casamento dos meus pais. Para mim, 
no parecia que eles tinham problemas. Todo o meu ideal de relacionamento estava destrudo.
        - O meu tambm - disse Aria, entristecida, passando um dos ps sobre uma pilha de papis no cho. - Meus pais pareciam muito felizes juntos.
        - No tem nada a ver com voc. Isso  uma grande coisa que eu aprendi.  uma coisa deles. Infelizmente, voc tem que lidar com isso, e eu acho que isso a 
torna mais forte.
        Aria gemeu e bateu a cabea no encosto duro do sof.
        - Detesto quando as pessoas me dizem coisas assim. Que essas coisas vo me fazer uma pessoa melhor, mesmo que tudo esteja uma droga.
        Ezra sorriu.
        - Para dizer a verdade, eu tambm detesto.
        Aria fechou os olhos, achando aquele momento agridoce. Ela estava esperando por algum com quem conversar sobre tudo isso - algum que realmente, verdadeiramente, 
entendesse. Ela queria dar um beijo em Ezra por ter uma famlia to problemtica quanto a dela.
        Ou, talvez, ela quisesse dar um beijo em Ezra... porque ele era Ezra.
        Os olhos de Ezra encontraram os dela. Aria podia ver seu reflexo nas pupilas escuras dele. Com uma das mos, Ezra empurrou o pequeno carrinho do McLanche 
Feliz para que deslizasse sobre a mesa, pela beirada, caindo no colo dela. Um sorriso apareceu no rosto dele.
        - Voc tem namorada em Nova York? - desembuchou Aria.
        A testa de Ezra formou uma ruga.
        - Uma namorada... - Ele piscou algumas vezes. - Eu tinha. Mas ns terminamos neste vero.
        -Ah.
        - De onde saiu isso? - quis saber ele.
        - Alguns alunos estavam falando sobre isso, eu acho. E eu... eu fiquei imaginando como ela era.
        Um olhar demonaco danou pelo rosto de Ezra, mas ele logo perdeu essa expresso. Ele abriu a boca para dizer algo, mas mudou de ideia.
        - O que foi? - perguntou Aria a ele.
        - Eu no deveria.
        -  O qu?
        -  que... - Ele avaliou o questionamento dela. - Ela no era nada comparada a voc.
        Um calor atravessou o corpo de Aria. Lentamente, sem tirar os olhos dela, Ezra deslizou da mesa e se ps de p. Aria foi para a beirada do sof. O momento 
se prolongou eternamente. E, ento, Ezra se debruou, pegou Aria pelos ombros e a pressionou contra seu corpo. Os lbios dela bateram nos dele. Ela segurou o rosto 
dele com ambas as mos, e ele passou as dele pelas costas dela. Eles se separaram e olharam um para o outro, ento, se juntaram de novo. O cheiro de Ezra era delicioso, 
como uma mistura de Pantene, menta e ch e alguma coisa que era apenas... Ezra. Aria nunca se sentira assim com um beijo. Nem mesmo com Sean, nem com ningum.
        Sean. A imagem dele apareceu na cabea de Aria. Sean deixando-a encostar-se nele enquanto assistiam a verso da BBC de The Office, na noite anterior. Sean 
beijando-a antes da aula de biologia, consolando-a, pois eles iam comear a fazer dissecaes naquele dia. Sean segurando sua mo durante o jantar com a famlia 
dele. Sean era seu namorado.
        Aria empurrou Ezra e deu um pulo.
        - Preciso ir.
        Ela estava suada, como se algum tivesse aumentado o termostato uns cinquenta graus. Ela rapidamente juntou suas coisas, com o corao disparado e as bochechas 
em brasa.
        - Obrigada pela prorrogao - disse ela, saindo desajeitadamente porta afora.
        L fora, no corredor, ela respirou fundo por alguns instantes. Mais adiante, uma figura desapareceu rapidamente, virando num corredor. Aria ficou tensa. 
Algum tinha visto.
        Ela notou algo na porta de Ezra e arregalou os olhos. Algum tinha apagado todas as mensagens do velho quadro branco, substituindo-as por uma nova mensagem 
escrita com uma caneta rosa-shocking desconhecida.
        Cuidado, cuidado! Eu estou sempre de olho! - A 
        E depois, em letras menores, l embaixo.
        Aqui vai uma segunda pista: Todas vocs conheciam cada 
        centmetro do quintal dela. Mas, para uma de vocs, foi to, 
        to fcil.
        Aria puxou a manga do blazer pra baixo e rapidamente apagou as letras. Quando chegou na assinatura, apagou com mais fora, esfregando sem parar at que no 
houvesse mais nenhum trao de A.
21
COMO SE SOLETRA
D-R-O-G-A  D-E  V-I-D-A?
Quinta-feira  noite, Spencer se acomodou nas cadeiras fofas e vermelhas do restaurante do country club de Rosewood e olhou pela janela. No campo de golfe, dois 
caras mais velhos, usando casacos de gola em V e calas cqui, estavam tentando acertar mais alguns buracos antes de o sol se pr. L fora, no deque, as pessoas 
aproveitavam os ltimos dias de calor do ano, tomando gin tnica e comendo camaro e bruschetta. O sr. e a sra. Hastings mexeram seus Martinis Bombay Sapphire, e 
depois se entreolharam.
        - Eu proponho um brinde. - A sra. Hastings ps os cabelos curtos e loiros atrs das orelhas, seu anel de diamante de trs quilates brilhando contra o pr 
do sol que podia ser visto pela janela. Os pais de Spencer sempre brindavam antes de tomar alguma bebida... qualquer uma, at mesmo gua.
        A sra. Hastings ergueu o copo.
        - A Spencer, por estar na final da Orqudea Dourada. 
        O sr. Hastings brindou.
        - E por estar na capa do Sentinel de domingo. 
        Spencer levantou seu copo e brindou com eles, mas o esforo foi desinteressado. Ela no queria estar ali. Queira estar em casa, protegida e segura. Ela no 
conseguia parar de pensar na estranha consulta com a dra. Evans naquela manh. A viso que tivera - a briga esquecida com Ali na noite em que a amiga desapareceu 
- a estava assombrando. Por que ela no havia se lembrado daquilo antes? Tinha alguma coisa a mais? E se ela tivesse visto o assassino da Ali?
        - Parabns Spencer. - A me dela interrompeu seus pensamentos. - Espero que voc ganhe.
        - Obrigada - balbuciou Spencer. Ela dobrou seu guardanapo verde como se fosse uma sanfona, depois, deu a volta na mesa e dobrou todos os outros tambm.
        - Nervosa com alguma coisa? - A me apontou com o queixo para os guardanapos.
        Spencer parou na mesma hora.
        - No - respondeu ela depressa.
        Toda vez que fechava os olhos, voltava para a lembrana de Ali. Tudo se tornara to claro. Conseguia sentir o cheiro das flores que cresciam no bosque e 
que cercavam o celeiro, sentir a brisa de vero, ver os vaga-lumes piscando contra o cu escuro. Mas aquilo no podia ser real.
        Quando Spencer olhou para cima, seus pais estavam olhando para ela de forma estranha. Eles provavelmente tinham perguntado algo que ela no tinha ouvido. 
Pela primeira vez, gostaria que Melissa estivesse ali, monopolizando a conversa.
        -Voc est nervosa por causa da mdica? - sussurrou a me.
        Spencer no conseguiu esconder o sorriso sarcstico. Adorava que a me chamasse a dra. Evans de "a mdica" em vez de "terapeuta".
        - No, eu estou bem.
        -Voc acha que conseguiu algum... - seu pai parecia estar procurando pelas palavras, brincando com o prendedor da gravata. - ...progresso, com a mdica?
        Spencer balanou o garfo para a frente e para trs. Defina progresso, ela queria dizer.
        Antes que pudesse responder, o garom apareceu. Era o mesmo garom que os atendia h anos, o cara baixinho e careca, que tinha voz de ursinho Puff.
        - Ol sr. e sra. Hastings. - Puff apertou a mo do pai dela. - E Spencer. Voc est adorvel.
        - Obrigada - murmurou Spencer, apesar de estar certa de que no estava. Ela no tinha lavado o cabelo depois do hquei, e, na ltima vez em que tinha se 
olhado no espelho, seus olhos tinham uma aparncia selvagem, assustada. Continuava tendo espasmos, tambm, e olhando ao redor do restaurante para ver se algum a 
estava observando.
        - Como esto todos esta noite? - perguntou Puff. Ele afofou os guardanapos que Spencer tinha acabado de redobrar e os colocou no colo de cada um deles. - 
 uma ocasio especial?
        - Na verdade, sim - disse a sra. Hastings com um gritinho. - Spencer  finalista da competio Orqudea Dourada.  um prmio acadmico de grande importncia.
        - Me - reclamou Spencer. Ela odiava o jeito com que a me anunciava os feitos da famlia. Particularmente neste caso, j que ela tinha trapaceado.
        - Que maravilha! - urrou Puff. -  bom ter boas notcias, para variar. - Ele se debruou para se aproximar dos Hastings. - Muitos de nossos clientes acham 
que viram aquele perseguidor de que todo mundo est falando. Alguns disseram que ele esteve perto do clube, na noite passada.
        - Esta cidade j no passou pelo bastante? - reclamou o sr. Hastings.
        A sra. Hastings olhou, preocupada, para o marido. 
        -Voc sabe, eu juro que vi algum me observando quando fui encontrar com Spencer na mdica, na segunda-feira. 
        Spencer levantou a cabea, com o corao disparado. 
        -Voc conseguiu ver quem era? 
        A sra. Hastings deu de ombros.
        - Na verdade, no.
        - Alguns dizem que  um homem. Outros, que  uma mulher - informou Puff.
        Todos soltaram um tsc de preocupao.
        Puff anotou os pedidos deles. Spencer murmurou que queria atum grelhado - a mesma coisa que pedia desde que parara de pedir pratos do cardpio infantil. 
Conforme o garom se afastava, Spencer olhou vagamente para o salo. Era decorado no estilo dos barcos naufragados de Nantucket, com cadeiras escuras de vime e montes 
de boias salva-vidas e cabeas de bronze. A parede do fundo ainda tinha o mural de oceano completo, com uma lula gigante horrorosa, uma baleia assassina e um sereio 
com fluidos cabelos loiros e um nariz quebrado, estilo Owen Wilson. Quando Spencer, Ali e as outras iam jantar sozinhas ali - um superprograma, quando estavam no 
sexto e no stimo ano - elas adoravam sentar perto do sereio. Uma vez, quando Mona Vanderwaal e Chassey Bledsoe vieram ali sozinhas, Ali mandou Mona e Chassey darem 
um beijo de lngua no sereio. Lgrimas de vergonha rolaram pelos seus rostos quando elas enfiaram a lngua nos lbios pintados.
        Ali era to m, pensou Spencer. Seu sonho reapareceu. Voc no vai conseguir isso, dissera Ali. Spencer se perguntou por que ficara to brava. Ali ia contar 
para Melissa sobre Ian naquela noite. Seria esse o motivo? E o que a dra. Evans quis dizer quando afirmou que algumas pessoas apagam coisas que aconteceram com elas? 
Ser que Spencer j tinha feito isso antes?
        - Me? - De repente, Spencer estava muito curiosa. - Voc sabe se eu alguma vez, aleatoriamente, esqueci um monte de coisas? Se eu j tive... tipo, amnsia 
temporria?
        Sua me segurou a bebida a meio caminho da boca.
        - Po...por que voc est perguntando isso?
        A nuca de Spencer ficou ensopada. A me falou do mesmo jeito perturbado do tipo eu no quero lidar com isso que usou quando o irmo dela, o tio de Spencer, 
Daniel, ficou bbado demais numa festa e revelou alguns segredos cuidadosamente varridos para debaixo do tapete pela famlia. Foi como Spencer descobriu que sua 
av era viciada em morfina, e que sua tia Penlope tinha dado uma criana para adoo quando tinha dezessete anos.
        - Espere, aconteceu?
        A me dela passou a mo pela borda arredondada do prato.
        -Voc tinha sete anos. E estava gripada.
        As veias do pescoo da me estavam saltadas, o que queria dizer que ela estava prendendo a respirao. E isso significava que ela no estava contando tudo 
a Spencer.
        - Me.
        A me passou um dedo na borda do copo de Martini.
        - No  nada importante.
        - Oh, conte a ela,Vernica - disse o pai de Spencer, rspido. - Ela aguenta.
        A sra. Hastings respirou bem fundo.
        - Bem, Melissa, voc e eu fomos ao Instituto Franklin. Vocs duas amavam andar naquela rplica gigante de um corao. Lembra?
        -  Claro - assentiu Spencer. A exposio do corao do Instituto Franklin tinha 450 metros quadrados, veias do tamanho do brao de Spencer e batia to forte 
que, quando se estava dentro dos ventrculos, o batimento era o nico barulho audvel.
        -  Ns estvamos voltando para o carro - continuou a me, olhando para o prprio colo. - No caminho, um homem nos parou. - Ela fez uma pausa e pegou a mo 
do pai de Spencer. Os dois pareciam extremamente solenes. - Ele... ele tinha uma arma na jaqueta. Ele queria minha carteira.
        Spencer arregalou os olhos.
        -  O qu?
        - Ele nos fez deitar de bruos na calada. - A boca da sra. Hastings tremia. - Eu no me incomodei em dar minha carteira, mas estava apavorada por vocs 
duas.Voc ficou gemendo e chorando, perguntando se ns amos morrer.
        Spencer torceu a ponta do guardanapo que estava em seu colo. Ela no se lembrava daquilo.
        -  Ele me mandou contar at cem antes de levantar de novo - prosseguiu a me. - Quando pareceu seguro, corremos para o carro, e eu as trouxe para casa. Dirigi 
bem acima do limite de velocidade, eu me lembro.  impressionante que eu no tenha sido parada.
        Ela fez uma pausa e tomou um gole da bebida. Algum tinha derrubado um monte de pratos na cozinha, e muitos dos clientes viraram os pescoos na direo da 
loua que se despedaava, mas a sra. Hastings parecia no ter ouvido nada.
        - Quando chegamos em casa, voc estava com muita febre - continuou ela. - Apareceu de repente. Ns levamos voc para o pronto-socorro. Ficamos com medo que 
estivesse com meningite, pois havia surgido um caso a algumas cidades daqui. Tivemos que ficar perto de casa enquanto aguardvamos os resultados, no caso de precisarmos 
lev-la de volta correndo para o hospital. Perdemos o campeonato nacional de soletrao de Melissa. Lembra do quanto ela estava se preparando para isso?
        Spencer lembrava. Algumas vezes ela e Melissa brincavam de soletrar - Melissa como participante, Spencer como juza, bombardeando Melissa com palavras de 
uma longa lista. Aquilo era na poca em que Melissa e Spencer gostavam uma da outra. Mas, pelo que Spencer se lembrava, Melissa tinha optado por sair da competio 
porque ela tinha um jogo de hquei no mesmo dia.
        - Melissa foi para a competio de soletrao, no fim das contas? - quis saber Spencer.
        - Ela foi, mas com a famlia da Yolanda. Lembra da amiga dela,Yolanda? Ela e Melissa estavam sempre juntas nessas competies de conhecimento.
        Spencer franziu a testa. 
        -Yolanda Hensler?
        - Isso mesmo.
        - Melissa nunca foi... - Spencer interrompeu-se. Ela estava prestes a dizer que Melissa nunca foi amiga de Yolanda Hensler. Yolanda era o tipo de menina 
que era um doce na frente dos adultos e uma terrorista mandona por trs. Spencer sabia que Yolanda, uma vez, havia forado Melissa a responder todas as amostras 
de perguntas de competies de conhecimento sem parar, mesmo Melissa tendo dito um milho de vezes que precisava fazer xixi. Melissa acabou fazendo xixi na cala 
e molhando todo o edredom Lilly Pulitzer de Yolanda.
        - De qualquer forma, uma semana depois, sua febre cedeu - prosseguiu a me. - Mas quando voc acordou, tinha esquecido de tudo aquilo. Voc se lembrava de 
ter ido ao Instituto Franklin, e se lembrava de ter andado dentro do corao, mas, ento, eu perguntei se voc se lembrava do homem mau na cidade. E voc perguntou: 
"Que homem mau?"Voc no se lembrava do pronto-socorro, de fazer os exames, de estar doente, de nada. Voc simplesmente... apagou tudo. Ns ficamos de olho em voc 
pelo resto daquele vero. Tnhamos medo de que voc ficasse doente de novo. Melissa e eu perdemos  o  acampamento  de  caiaque para mes  e  filhas  no Colorado 
e aquele recital de piano incrvel em Nova York, mas eu acho que ela entendeu.
        O corao de Spencer estava acelerado.
        - Por que ningum nunca me contou isso? 
        A me olhou para o pai.
        - A coisa toda foi to estranha. Eu achei que pudesse magoar voc, saber que voc esqueceu uma semana inteira. Voc ficou to preocupada depois daquilo.
        Spencer segurou a beirada da mesa. Eu posso ter esquecido mais que uma semana da minha vida, ela queria dizer para os pais. E se no tivesse sido apenas 
um apago?
        Ela fechou os olhos. Tudo que conseguia ouvir era o barulho de sua memria. E se ela tivesse tido um apago antes da Ali desaparecer? O que ela tinha esquecido 
sobre aquela noite?
        Quando Puff trouxe os pratos fumegantes, Spencer estava tremendo. A me inclinou a cabea.
        - Spencer? Qual  o problema? - Ela se virou para o pai de Spencer. - Eu sabia que no deveramos ter contado a ela.
        - Spencer? - O sr. Hastings abanou as mos na frente do rosto da filha. -Voc est bem?
        Os lbios de Spencer estavam dormentes, como se estivessem anestesiados.
        - Estou com medo.
        - Com medo? - repetiu o pai, se debruando. - De qu? 
        Spencer piscou. Sentiu que estava tendo aquele sonho recorrente no qual sabia o que queria dizer em sua cabea, mas em vez de palavras sarem da sua boca, 
saa uma concha. Ou uma minhoca. Ou uma fumaa roxa. Ento, apertou os lbios com fora. De repente, se deu conta da resposta que estava procurando, do que tinha 
medo. 
        Dela mesma.
22
NO H LUGAR COMO ROSEWOOD
- VISTA A MIL METROS DE ALTITUDE
Sexta-feira de manh, Hanna saiu do Volkswagen Jetta vinho de Lucas. Eles estavam no estacionamento do Parque Estadual Ridley Creek, e o sol havia acabado de aparecer.
        - Esta  a grande surpresa que deveria fazer eu me sentir melhor? - Ela olhou ao redor. O Parque Estadual era cheio de jardins ondulantes e trilhas de escalada. 
Ela viu passar um bando de meninas, de shorts de corrida e camisetas de manga comprida. Ento, um grupo de ciclistas com shorts de spandex. Isso fez Hanna se sentir 
preguiosa e gorda. No eram nem seis horas da manh e ali estavam aquelas pessoas, j queimando suas calorias virtuosamente. Eles provavelmente tambm no haviam 
se entupido com uma caixa cheia de biscoitinhos de cheddar na noite anterior.
        - Eu no posso contar - respondeu Lucas. - Seno, no seria uma surpresa.
        Hanna grunhiu. O ar cheirava a folhas queimadas, o que Hanna sempre achou assustador. Ao passar pelo cascalho do estacionamento, ela imaginou ter ouvido 
algum. Virou-se rapidamente, alerta.
        - Algo errado? - Lucas parou alguns passos atrs. 
        Hanna apontou para as rvores.
        -Voc viu algum?
        Lucas fez sombra nos olhos com uma das mos.
        -Voc est preocupada com aquele perseguidor?
        - Mais ou menos.
        A ansiedade abocanhou a barriga de Hanna. No caminho, ainda na semiescurido, Hanna sentiu que um carro os estava seguindo. A? Ela no conseguia parar de 
pensar na mensagem bizarra do dia anterior sobre Mona ter ido a Bill Beach para fazer plstica. Por um lado, fazia sentido - Mona nunca tinha usado nada que mostrasse 
muito da sua pele, mesmo ela sendo muito mais magra que Hanna. Mas cirurgia plstica - a no ser uma turbinada nos peitos - era tipo... vergonhoso. Significaria 
que a gentica estava contra voc, e que voc no conseguia ter o corpo ideal apenas com exerccio. Se Hanna espalhasse essa fofoca sobre Mona, o coeficiente de 
popularidade dela cairia alguns pontos. Hanna teria feito isso com qualquer outra menina sem nem piscar... mas, com Mona? Mago-la parecia diferente.
        - Eu acho que estamos a salvo. - Lucas andou pelo caminho de pedregulho. - Dizem que o perseguidor s espiona as pessoas em suas casas.
        Hanna esfregou os olhos, nervosa. Daquela vez, no tinha que se preocupar em borrar seu rmel. Ela no tinha colocado quase nenhuma maquiagem naquela manh. 
E estava vestindo calas legging da Juicy e um bluso cinza, que ela normalmente usava para correr. Isso tudo era para mostrar que eles no estavam em um encontro 
matinal feliz.
        Quando Lucas apareceu na porta, Hanna ficou aliviada por ele estar usando um jeans rasgado, uma camiseta velha e um bluso cinza igualmente detonado. Ento, 
ele tinha cado numa pilha de folhas no caminho para o carro e rolado nela, como fazia o cachorrinho de Hanna, Dot. Foi realmente fofo. O que era completamente diferente 
de achar que Lucas era bonitinho, obviamente.
        Eles entraram numa clareira e Lucas virou-se para Hanna.
        - Pronta para sua surpresa?
        -  melhor que seja boa. - Hanna revirou os olhos. - Eu ainda poderia estar na cama.
        Lucas a guiou pelas rvores. Na clareira havia um balo de ar quente de listras com as cores do arco-ris. Estava murcho e cado para o lado, com a cesta 
parcialmente virada. Dois caras estavam em volta enquanto ventiladores enchiam o balo de ar, fazendo-o ondular.
        - Tch-ram! - gritou Lucas.
        - T booooom. - Hanna fez sombra nos olhos com as mos. - Eu vou olhar os caras encherem um balo? - Ela sabia que aquilo no era uma boa ideia. Lucas era 
to atrapalhado.
        - No exatamente. - Lucas se apoiou nos calcanhares. - Voc vai subir nele.
        - O qu? - esganiou Hanna. - Sozinha? 
        Lucas bateu na cabea dela.
        - Eu vou com voc, d. - Ele comeou a andar em direo ao balo. - Eu tenho licena para pilotar bales. Estou aprendendo a voar num Cessna, tambm. Mas 
esta  minha maior realizao. - Ele pegou uma garrafa de ao inox. - Eu fiz milk-shake para ns esta manh. Foi a primeira vez que usei um liquidificador, a primeira 
vez que usei algum utenslio de cozinha, na verdade. Voc no est orgulhosa de mim?
        Hanna deu um meio sorriso. Sean sempre cozinhava para ela, o que a fazia se sentir mais inadequada do que mimada. Ela achava bom que Lucas fosse masculinamente 
sem noo.
        - Eu estou orgulhosa. - Hanna sorriu. - E, claro, vou subir nessa armadilha com voc.
        Depois de o balo ficar cheio e firme, Hanna e Lucas subiram no cesto, e ele soltou uma longa chama dentro do envelope. Em segundos, eles comearam a subir. 
Hanna ficou surpresa que o seu estmago no embrulhou como acontecia s vezes em elevadores e, quando olhou para baixo, ficou maravilhada de ver que os dois caras 
que ajudaram a encher o balo pareciam duas manchas na grama. Ela viu o Jetta vermelho de Lucas no estacionamento... depois o riacho de pescaria, a trilha sinuosa, 
a Rodovia 352.
        - Ali est o prdio da Hollis! - gritou Hanna, animada, apontando para a construo a distncia.
        - Legal, no ? - Lucas sorriu.
        -  sim - admitiu Hanna. Era to legal e silencioso ali em cima. No havia barulho de trfego nem pssaros chatos, apenas o som do vento. O melhor de tudo, 
A no estava ali em cima. Hanna se sentiu to livre. Parte dela queria voar, ir embora em um balo para sempre, como o Mgico de Oz.
        Eles sobrevoaram o bairro de Old Hollis, com suas casas vitorianas e seus gramados bagunados. Depois o Shopping King James, com o estacionamento quase vazio. 
Hanna sorriu quando eles passaram sobre o internato Quaker. Tinha um obelisco vanguardista no gramado frontal que foi apelidado o Pnis de Willian Penn.
        Eles flutuaram sobre a velha casa de Alison DiLaurentis. Dali de cima, parecia to sem problemas. Ao lado estava a casa de Spencer, com seu moinho, estbulos, 
celeiro e uma piscina com deque de pedra. Algumas casas depois ficava a de Mona, era uma bonita casa de tijolos vermelhos, cercada por cerejeiras, com uma garagem 
destacada ao lado do jardim. Uma vez, logo depois do tratamento de beleza delas, elas haviam pintado HM+MV= MAPTS, melhores amigas para todo o sempre com tinta fosforescente 
no telhado. Elas nunca souberam como era visto de cima. Ela pegou seu BlackBerry para mandar uma mensagem para Mona contando isso.
        Ento, Hanna se lembrou. Elas no eram mais amigas. Ela suspirou.
        - Tudo bem? - perguntou Lucas. 
        Hanna desviou o olhar.
        - Sim. Tudo bem.
        As sobrancelhas de Lucas formaram um V.
        - Eu estou no Clube do Sobrenatural na escola. Ns praticamos leitura de mente. Eu consigo ler sua mente extrassensorialmente. - Ele fechou os olhos e colocou 
as mos nas tmporas. -Voc est chateada porque... a Mona vai fazer uma festa de aniversrio e voc no foi convidada.
        Hanna segurou uma risada de deboche. Como se isso fosse difcil de deduzir. Ela encontrou Lucas no banheiro logo depois que a coisa toda aconteceu. Ela desenroscou 
a tampa da garrafa de milk-shake.
        - Por que voc, tipo, faz parte de todos os clubes que existem em Rosewood Day? - Ele era uma verso mais boba de Spencer, com essa mania de se filiar a 
todos os clubes possveis.
        Lucas abriu os olhos. Eles eram de um azul-claro, lmpido - como o giz de cera da caixa de 64 cores da Crayola.
        - Eu gosto de estar ocupado o tempo todo. Se no estou fazendo nada, comeo a pensar.
        - Sobre o qu?
        O pomo de ado do Lucas subiu e desceu quando ele engoliu em seco.
        - Meu irmo mais velho tentou se matar faz um ano. 
        Hanna arregalou os olhos.
        - Ele  bipolar. Ele parou de tomar o medicamento e... alguma coisa errada aconteceu na cabea dele. Ele tomou um monte de Aspirinas, e eu o achei desmaiado 
em nossa sala de estar. Ele est num hospital psiquitrico agora. Eles do a ele um monte de remdios e... ele no  mais a mesma pessoa, ento...
        - Ele era aluno de Rosewood Day? - perguntou Hanna.
        - Sim, mas ele  seis anos mais velho que a gente.Voc no deve se lembrar dele.
        - Meu Deus. Eu sinto muito - sussurrou Hanna. - Isso  ruim.
        Lucas deu de ombros.
        -  Muitas pessoas provavelmente apenas se sentariam no quarto para se drogar, mas me manter ocupado funciona melhor pra mim.
        Hanna cruzou os braos.
        - Meu jeito de me manter s  comer uma tonelada de salgadinhos de queijo e depois vomitar.
        Ela cobriu a boca. Hanna no conseguia acreditar que tinha dito aquilo.
        Lucas levantou uma das sobrancelhas.
        - Salgadinhos de queijo, hein? Tipo Cheetos? Doritos?
        -Ar. - Hanna olhou para o fundo de madeira do cesto do balo.
        Os dedos de Lucas se moveram, nervosamente. As mos dele eram fortes e proporcionais e pareciam ser muito boas para esfregar as costas. De repente, Hanna 
queria toc-las.
        - Minha prima teve esse... problema... tambm - disse Lucas, .suavemente. - Ela superou.
        - Como?
        - Ela ficou feliz. E foi em frente.
        Hanna olhou para fora do cesto. Eles estavam sobrevoando Cheswold, o condomnio mais caro de Rosewood. Hanna sempre quis morar numa casa em Cheswold, e l 
de cima as propriedades pareciam ainda mais incrveis do que no nvel da rua. Mas tambm pareciam rgidas e formais, e no muito reais - mais a ideia de uma casa 
em vez de alguma coisa em que uma pessoa realmente quisesse morar.
        - Eu era feliz - suspirou Hanna. - Eu no fazia... esse negcio... do queijo h alguns anos. Mas a minha vida anda horrvel ultimamente. Eu estou chateada 
com a Mona. Mas tem mais.  tudo. Desde que eu recebi o primeiro recado, as coisas foram de mal a pior.
        -Volta. - Lucas inclinou-se para trs. - Recado? 
        Hanna parou. Ela no queria mencionar A.
        - So s esses recados que eu tenho recebido. Algum est me provocando com um monte de coisas pessoais. - Ela deu uma olhada para Lucas, esperando que ele 
no estivesse interessado, a maioria dos meninos no se interessaria. Infelizmente, ele parecia preocupado.
        - Isso parece cruel. - Lucas franziu a testa. - Quem os est mandando?
        - No sei. Primeiro, achei que fosse Alison DiLaurentis. - Ela parou, tirando o cabelo dos olhos. - Eu sei que  idiota, mas os primeiros recados falavam 
de coisas que s ela sabia.
        Lucas fez uma cara de nojo.
        -  O corpo da Alison foi achado h, o qu, um ms? Algum est se passando por ela? Isso ... isso  loucura.
        Hanna balanou os braos.
        - No, eu comecei a receber os recados antes de o corpo de Ali ser encontrado, at ento, ningum sabia que ela estava morta... -A cabea de Hanna comeou 
a doer. -  confuso e... no se preocupe com isso. Esquea que eu disse qualquer coisa.
        Lucas olhou para ela, desconfortvel.
        - Talvez voc devesse chamar a polcia. 
        Hanna fungou.
        - Quem quer que seja no violou nenhuma lei.
        - Mas voc no sabe com quem est lidando.
        - , provavelmente, algum garoto burro. 
        Lucas parou.
        - A polcia no fala que se voc est sendo perturbado, tipo, recebendo trotes,  muito mais provvel que seja algum que voc conhea? Eu ouvi isso num 
seriado policial uma vez.
        Hanna sentiu um friozinho na barriga. Ela pensou nos recados de A. Uma de suas antigas amigas est escondendo algo de voc. Ela pensou de novo em Spencer. 
Uma vez, no muito tempo depois do desaparecimento de Ali, o pai de Spencer levou as quatro para o Wildwater Kingdom, um parque aqutico no muito distante da casa 
delas. Quando Hanna e Spencer estavam subindo a escada para um tobog chamado Devil Drop, Hanna tinha perguntado se ela e Ali estavam bravas uma com a outra por 
algum motivo.
        O rosto de Spencer tinha ficado da mesma cor vermelha do seu biquni de lacinho Tommy Hilfiger.
        - Por que voc est perguntando isso?
        Hanna franziu a testa, segurando sua prancha de isopor contra o peito.
        - Eu s estou curiosa.
        Spencer deu um passo mais para perto. O ar ficou parado e todos os barulhos de mergulho e a gritaria pareciam ter evaporado.
        - Eu no estava brava com a Ali. Ela  que estava brava comigo. Eu no tenho ideia do motivo, ok? - Depois, ela deu um giro de cento e oitenta graus e comeou 
a marchar escada abaixo, praticamente batendo nas outras crianas ao passar.
        Hanna encolheu os dedos dos ps. Ela no pensava sobre esse dia havia algum tempo.         Lucas limpou a garganta.
        - Os recados so sobre o qu? O lance do queijo? 
        Hanna olhou para as luzes  no  topo  da Abadia de Rosewood, o lugar do funeral da Ali. Que se dane, pensou ela. Ela tinha contado a Lucas sobre A, por que 
ento no sobre todo o resto? Era como aquele exerccio para confiana que ela havia feito na excurso do sexto ano: uma menina da sua turma, chamada Viviana Rogers, 
ficou atrs de Hanna e ela teve que cair nos braos da menina, confiando que ela iria peg-la em vez de deix-la se estatelar na grama.
        - Sim, o queijo - disse ela, baixinho. - E... bem, voc pode ter ouvido algumas das outras paradas. Muita coisa est sendo dita por a sobre mim. Como meu 
pai. Ele se mudou uns dois anos atrs e agora mora com a enteada. Ela veste tamanho trinta e quatro.
        - Que tamanho voc usa? - perguntou Lucas, confuso. 
        Ela respirou fundo, ignorando a pergunta.
        -  E eu fui pega roubando, tambm. Algumas joias da Tiffany e o carro do pai do Sean Ackard.
        Ela olhou para cima, surpresa de ver que Lucas no tinha pulado do balo de tanto nojo.
        -  No stimo ano, eu era uma gorda desajeitada e feia. Mesmo sendo amiga da Alison, eu me sentia... como nada. Mona e eu trabalhamos duro para mudar, e eu 
achei que ns duas nos tornaramos... a Alison. Funcionou por um tempo, mas agora j era.
        Ouvir seus problemas em alto e bom som a fazia parecer uma perdedora. Mas tambm se sentiu como quando ela foi com a Mona para um spa e fez uma lavagem do 
clon. O procedimento era nojento, entretanto, depois ela se sentiu to livre!
        - Eu fico feliz que voc no seja Alison - disse Lucas, baixinho.
        Hanna revirou os olhos.
        - Todo mundo amava a Alison.
        - Eu no. - Lucas desviou do olhar surpreso de Hanna. - Eu sei que isso  horrvel de falar, e eu sinto muito pelo que aconteceu com ela. Mas Alison no 
era legal comigo. - Ele soprou uma chama de fogo para dentro do balo. - No stimo ano, Ali espalhou um boato de que eu era hermafrodita.
        Hanna olhou para cima, desconcertada.
        - Ali no espalhou esse boato.
        - Espalhou, sim. Na verdade, eu comecei isso para ela. Ela perguntou se eu era hermafrodita durante um jogo de futebol. Eu disse que eu no sabia. Eu no 
fazia a menor ideia do que era um hermafrodita. Ela riu e contou para todo mundo. Um tempo depois, quando me toquei do que estava rolando era tarde demais... todo 
mundo j estava comentando. 
        Hanna olhou para ele sem acreditar.
        - Ali no faria isso.
        Mas... Ali faria aquilo sim. Fora Ali quem fizera todo mundo chamar Jenna Cavanaugh de Neve. Ela tinha espalhado o boato de que Toby tinha brnquias. Todos 
tomavam o que a Ali dizia como algo sagrado.
        Hanna espiou pela beirada do cesto. Aquele boato sobre o Lucas ser hermafrodita tinha comeado depois que elas souberam que ele ia mandar uma caixa de bombom 
em formato de corao para Hanna, no Dia do Chocolate. Ali tinha at ido com a Hanna comprar uma cala nova, de bolsos e com purpurina, da Sevens, para a ocasio. 
Ela disse que adorou a cala, mas provavelmente estava mentindo sobre isso tambm.
        - E voc no deveria dizer que  feia, Hanna - disse Lucas. -Voc  to, to bonita.
        Hanna enfiou o queixo dentro da gola da camiseta, sentindo-se inesperadamente tmida,
        -Voc . Eu no consigo parar de olhar para voc. - Lucas sorriu. - Opa. Eu provavelmente ultrapassei muito o lance de amizade, hein?
        - Tudo bem. - O calor se espalhou pela pele de Hanna. Ouvir que era bonita a fez sentir-se muito bem. Quando tinha sido a ltima vez que algum falou aquilo 
para ela? Lucas era to diferente do perfeito Sean quanto qualquer menino podia ser. Lucas era alto e esguio, e no seguia nem um pouquinho a moda, com seu emprego 
no Rive Gauche, o clube de experincias extrassensoriais e o adesivo do SCISSOR SISTERS na traseira do carro, que podia ser uma banda, um cabeleireiro ou uma religio. 
Mas havia algo a mais ali, tambm... s tinha que cavar fundo para achar, como Hanna e seu pai tinham uma vez revirado as praias de Nova Jersey com um detector de 
metal. Eles tinham procurado por horas e tinham achado no um, mas dois brincos de diamante escondidos na areia.
        - Ento, oua - disse Lucas. - Eu tambm no fui convidado para a festa da Mona. Voc no quer sair comigo e fazer uma antifesta? Na minha casa tem piscina. 
Ela  aquecida. Ou, voc que sabe, se esse no for o seu lance, ns poderamos... sei l. Jogar pquer.
        - Pquer? - Hanna olhou para ele, intrigada. - S se no for strip.
        - E voc acha que eu jogo isso? - Lucas ps a mo sobre o seu peito. - Estou falando de Texas Hold'Em. S que voc vai ter de tomar cuidado. Eu sou bom.
        -T bom. Claro. Eu vou at l e vamos jogar pquer. - Ela se recostou de volta no balo, se dando conta de que estava ansiosa pelo jogo. Ela deu um sorriso 
tmido para Lucas. - Mas no mude de assunto. Agora que fiz papel de idiota, voc tem que me confessar alguma coisa embaraosa sobre voc, tambm. O que mais voc 
est evitando com todas essas atividades?
        Lucas se inclinou para trs.
        -Vejamos. Tem o fato de eu ser hermafrodita.
        Seu rosto estava srio como a morte. Hanna arregalou os olhos, pega de surpresa. Mas, a, Lucas sorriu e comeou a gargalhar, ento, Hanna riu tambm.
23
AS ROSEIRAS TM OLHOS
Sexta-feira, na hora do almoo, Emily sentou-se na estufa de Rosewood Day, onde folhagens altas e algumas espcies de borboletas floresciam na umidade. Apesar de 
estar quente e o lugar cheirar a terra, muitas pessoas estavam almoando ali. Talvez fosse para escapar do tempo chuvoso - ou, talvez, elas apenas quisessem estar 
perto da Garota do Momento, Emily Fields.
        - Ento, voc vai  festa da Mona? - O irmo de Aria, Mike, olhou com expectativa para Emily. Ele e alguns outros meninos do time de lacrosse estavam sentados 
num banco na frente dela e prestavam ateno em cada palavra que ela dizia.
        -  Eu no sei - respondeu Emily, terminando sua batata frita. Tinha dvidas de que sua me a deixasse ir  festa de Mona, e tambm no sabia se queria ir.
        -Voc deveria vir curtir a minha banheira depois. - Noel Kahn escreveu o nmero de seu celular num pedao de folha de fichrio. Ele o arrancou e entregou 
a ela. -  quando a verdadeira festa vai comear.
        - Traga sua namorada, tambm - sugeriu Mike, com um olhar faminto. - E fique  vontade para beij-la perto de ns. Ns temos a mente bem aberta.
        - Eu poderia pegar minha cabine de foto para voc - ofereceu Noel, dando uma piscadela para Emily. - Qualquer coisa que a deixe excitada.
        Emily revirou os olhos. Quando os meninos saram de mansinho, ela se debruou sobre as pernas e deu uma respirada cansada. Era uma pena que ela no fosse 
do tipo que tirava vantagem - ela provavelmente podia ganhar um dinheiro com esses meninos de Rosewood Day que s pensavam em sexo e mulher-com-mulher.
        De repente, sentiu uma pequena mo segurar seu pulso. 
        -Voc est saindo com um garoto bobo? - sussurrou Maya em seu ouvido. - Eu o vi passando o telefone dele para voc.
        Emily olhou para cima. Seu corao deu um salto. Parecia que ela no via Maya h semanas, e no conseguia parar de pensar nela. O rosto de Maya aparecia 
diante dela a cada vez que fechava os olhos. Ela pensou na sensao dos lbios de Maya durante as sesses de beijos no rochedo, perto do riacho. 
        No que aquelas sesses de beijo pudessem acontecer de novo.
        Emily puxou sua mo. 
        - Maya. Ns no podemos.
        Maya fez beicinho. Ela olhou em volta. Havia alguns alunos sentados perto da fonte e nos bancos de madeira, prximos aos jardins de flores ou perto do santurio 
das borboletas, calmamente pegando e comendo seus almoos.
        - No  como se algum estivesse nos vigiando.
        Emily estremeceu. Parecia que algum estava. Durante o almoo inteiro, ela teve a horripilante sensao de que havia algum atrs dela, espiando. As plantas 
da estufa eram to altas e espessas que davam cobertura fcil para as pessoas se esconderem.
        Maya soltou um chaveiro com um canivete suo da mochila e cortou uma rosa de um arbusto exuberante atrs delas.
        - Aqui - disse ela, entregando-a a Emily.
        - Maya! - Emily deixou a rosa cair em seu colo. -Voc no pode colher flores aqui!
        - Eu no me importo - insistiu Maya. - Quero que voc fique com ela.
        - Maya. - Emily bateu as mos com fora nas coxas.         -Voc deveria ir embora.
        Maya franziu a testa, olhando para ela.
        -Voc est levando o lance do Tree Tops a srio?
        Quando Emily acenou que sim, Maya grunhiu:
        - Eu achei que voc era mais forte que isso. E parece to assustador.
        Emily fechou a sacola com seu almoo. Ela j no tinha passado por isso?
        - Se eu no fizer o Tree Tops, vou ter que ir para Iowa. E eu no posso. Meu tio e minha tia so loucos.
        Ela fechou os olhos e pensou nos tios e nos trs primos de Iowa. Ela no os via h anos, e tudo que podia visualizar eram cinco sobrancelhas enrugadas de 
desaprovao.
        - Na ltima vez em que os visitei, minha tia Helene disse que eu deveria comer sucrilhos e s sucrilhos no caf da manh, pois isso suprimia o desejo sexual. 
Meus dois primos faziam longas corridas pelas plantaes de milho toda manh, para drenar as energias sexuais. E minha prima, Abby, que tem a minha idade, queria 
ser freira. Ela provavelmente j , agora. Ela andava com um caderno por todo canto, que chamava de "O Livro do mal de Abby", onde escrevia tudo que achava que era 
pecado. Ela escreveu trinta coisas pecaminosas sobre mim. Abby achava at que andar descala era pecado!
        Maya deu uma risadinha.
        - Se voc tiver ps realmente horrorosos, .
        - No  engraado! - gritou Emily. - E isso no tem a ver com eu ser forte ou achar que o Tree Tops est certo ou mentir pra mim mesma. Eu no posso lidar 
com isso.
        Emily mordeu o lbio, sentindo subir aquele calor tpico de quando ia chorar. Nos dois ltimos dias, se seus pais passavam por ela nos corredores da casa 
ou na cozinha, nem olhavam na direo de Emily. Eles no lhe dirigiam a palavra durante as refeies. Ela sentia que era estranho sentar-se no sof com eles para 
ver televiso. E a irm de Emily, Carolyn, parecia no ter ideia de como lidar com ela. Desde a reunio da natao, Carolyn ficara distante do quarto que dividiam. 
Geralmente, elas faziam a lio de casa em suas escrivaninhas, murmurando uma com a outra sobre os problemas de matemtica, trabalhos de histria, ou fofocas em 
geral que ouviam na escola. Na noite anterior, Carolyn s subiu quando Emily j estava na cama. Ela se trocou no escuro e se deitou em sua cama sem dizer uma nica 
palavra.
        - Minha famlia no vai me amar se eu for homossexual - explicou Emily, olhando nos olhos arredondados e castanhos de Maya. - Imagine se sua famlia acordasse 
e decidisse que odeia voc.
        - Eu s quero estar com voc - murmurou Maya, revirando a rosa em suas mos.
        -  Bem, eu tambm - respondeu Emily. - Mas no podemos.
        - Vamos nos ver em segredo - sugeriu Maya. - Eu vou a festa de Mona Vanderwaal amanh. Me encontre l. Ns vamos embora e achamos um lugar para ficarmos 
sozinhas.
        Emily roeu a unha de um dos dedes. Ela gostaria, de poder... mas as palavras de Becka a perseguiam. A vida j  dura o suficiente. Por que a tornar ainda 
mais difcil? No dia anterior, durante seu tempo livre, Emily havia entrado no Google e digitado, A vida das lsbicas  dura? Mesmo quando estava digitando aquela 
palavra - lsbica - sua mo direita indo para o L e a esquerda para o E, S, B, parecia estranho pensar que aquilo se aplicava a ela. Ela no gostava dessa palavra 
- como pudim de arroz, que ela detestava. Todos os links na lista apontavam para um site porn bloqueado.  claro, Emily tinha posto as palavras lsbica e dura no 
mesmo campo de busca.
        Ela sentiu o olhar de algum. Emily olhou as trepadeiras e os arbustos l fora, e viu Carolyn e algumas outras meninas do time de natao sentadas perto 
das bougainvlleas. A irm a encarou, com um olhar de nojo no rosto. 
        Emily pulou do banco. 
        - Maya, v embora. Carolyn est nos vendo. 
        Ela deu uns passos para longe, fingindo estar fascinada por alguns cravos, mas Maya no se moveu.
        - Rpido! - silvou Emily. - Saia daqui! 
        Emily sentiu os olhos de Maya sobre si.
        - Eu vou  festa da Mona, amanh - informou ela em voz baixa. -Voc vai estar l ou no?
        Emily balanou a cabea, sem encontrar os olhos de Maya.
        - Me desculpe. Eu preciso mudar.
        Maya puxou violentamente a bolsa verde e branca de lona de Emily.
        -Voc no pode mudar quem voc .Eu j te falei isso mil vezes.
        - Mas talvez eu possa - insistiu Emily. - E talvez eu queira. 
        Maya largou a rosa de Emily na bancada e saiu pisando com fora. Emily a viu ziguezaguear pelas fileiras de plantas e passar pela porta de vidro embaado 
para sair da estufa e quis chorar. Sua vida estava uma baguna horrvel. Sua velha e simples vida - aquela que ela tinha antes de aquele ano letivo comear - parecia 
pertencer a uma menina completamente diferente.
        De repente, sentiu as unhas de algum tocarem sua nuca. Um frio percorreu suas costas, e ela se virou. Era s um galho da roseira, com seus espinhos gordos 
e afiados, as rosas gorduchas. Ento, Emily notou algo em uma das janelas, a um metro dela. Seu queixo caiu. Havia algo escrito, embaado. Estou vendo voc. Dois 
olhos bem abertos, cheios de clios estavam desenhados perto das palavras. Estava assinado A.
        Emily correu at a mensagem para apag-la com a manga do blazer. Aquilo estivera ali o tempo todo? Por que ela no tinha visto isso? Ento, outra coisa a 
arrebatou. Por causa da umidade da estufa, a gua s condensava no lado de dentro da janela, ento, quem quer que havia escrito aquilo tinha de estar... ali dentro.
        Emily virou-se, procurando por algum sinal revelador, mas as nicas pessoas olhando na direo dela eram Maya, Carolyn e os meninos do lacrosse. Todos os 
outros estavam circulando perto da porta da estufa, esperando que o intervalo do almoo acabasse, e Emily no podia deixar de imaginar se A no estava entre eles.
24
E NUM JARDIM DO OUTRO
LADO DA CIDADE...
Na sexta-feira  tarde, Spencer se curvou sobre os canteiros da me, arrancando as teimosas ervas daninhas. A me costumava fazer ela mesma o trabalho de jardinagem, 
mas Spencer estava fazendo aquela tarefa numa tentativa de ser legal - e de ser perdoada por alguma coisa, apesar de no ter certeza do qu. 
        Os bales multicoloridos que a me comprara alguns dias antes, para comemorar o Orqudea Dourada, ainda estavam amarrados  grade do ptio. Parabns, Spencer! 
estava escrito. Junto da frase havia desenhos de medalhas e trofus. Spencer olhou para os bales metalizados e sua imagem curvada a olhou de volta. Era como um 
espelho de parque de diverses - seu rosto comprido e no arredondado, os olhos pequenos em vez de grandes, e seu nariz empinado parecia largo, enorme. Talvez tivesse 
sido a garota no balo, e no Spencer quem trapaceara para se tornar a finalista do Orqudea Dourada. E talvez tivesse sido a garota no balo quem brigara com Ali 
na noite de seu desaparecimento, tambm.
        O sistema de irrigao da casa ao lado, a antiga casa dos DiLaurentis, comeou a funcionar. Spencer olhou para a antiga janela de Ali. Era a ltima da parte 
de trs da casa e ficava em frente  janela de Spencer. Ela e Ali se sentiam to sortudas por seus quartos ficarem voltados um para o outro! Elas tinham linguagem 
de sinais para se comunicar pela janela depois do toque de recolher - um sinal com a luz da lanterna significava "No consigo dormir, e voc?". Dois sinais significavam 
"Boa-noite".Trs, significavam "Precisamos escapulir e conversar pessoalmente".
        A lembrana do consultrio da dra. Evans danava diante dela mais uma vez. Spencer tentou afast-la de sua mente, mas ela teimava em no desaparecer. Voc 
se preocupa demais, Ali havia dito. E aquele barulho de algo se quebrando. De onde tinha vindo aquilo?
        - Spencer - sussurrou uma voz. Ela olhou em volta, o corao disparado. Olhou para as rvores que contornavam a parte de trs de sua casa. Ian Thomas estava 
ali, entre dois cornisos.
        - O que voc est fazendo aqui? - sibilou ela, dando uma olhada na direo do quintal. O celeiro de Melissa ficava a poucos metros dali.
        -  Observando minha garota favorita. - Os olhos de Ian percorreram o corpo dela.
        - Tem um perseguidor por a - advertiu Spencer com rispidez, tentando ignorar a onda de calor e excitao que sempre sentia quando Ian olhava para ela. -Voc 
precisa ter cuidado.
        Ian zombou:
        - E quem foi que disse que eu no fao parte da vigilncia comunitria? Talvez eu esteja protegendo voc do perseguidor. - Ele se apoiou contra a rvore.
        - Faz? - perguntou Spencer. 
        Ian balanou a cabea.
        - No. Na verdade eu s peguei um atalho por aqui para chegar  minha casa. Eu vim ver Melissa. - Ele fez uma pausa, enfiando as mos nos bolsos da cala 
jeans. - O que voc acha de Melissa e eu voltarmos a namorar?
        Spencer deu de ombros.
        - No  da minha conta.
        - No ? - Ian sustentou o olhar de Spencer sem piscar. Ela desviou os olhos, o rosto ardendo. Ian no estava se referindo ao fato de eles j terem se beijado. 
No podia ser.
        Ela reviveu aquele momento. A boca de Ian havia encontrado a dela com tanta fora que seus dentes de chocaram. Depois daquilo, seus lbios tinham ficado 
doloridos e sensveis. Quando Spencer contou para Ali aquela supernovidade, Ali gargalhou alto.
        - O que, voc acha que Ian vai sair com voc? - ridicularizou ela. - Duvido muito.
        Spencer deu uma olhada em Ian, calmo, casual, como sem perceber que ele era o motivo de toda o seu conflito. Ela meio que desejou no t-lo beijado. Parecia 
que aquilo havia desencadeado um efeito domin - levara  briga no celeiro, que levara  sada intempestiva de Ali, que levara a... qu?
        - Ento, Melissa me disse que vocs esto fazendo terapia, no ? - perguntou Ian. - Que loucura.
        Spencer ficou tensa. Parecia esquisito, Melissa falando com Ian sobre a terapia. As sesses deveriam, supostamente, ficar entre elas.
        - No  loucura.
        -  mesmo? Melissa me disse que ouviu voc gritando. 
        Spencer piscou.
        - Gritando? 
        Ian concordou.
        - O... O que eu estava dizendo?
        - Ela no disse que voc falou alguma coisa. S que estava gritando.
        A pele de Spencer pinicou. Parecia que o irrigador dos DiLaurentis espalhava um bilho de pequenas guilhotinas, cortando as cabeas das folhas da grama.
        - Preciso ir. - Spencer andou de um jeito meio esquisito em direo a casa. - Acho que preciso tomar gua.
        - Espera um segundo. - Ian se plantou na frente dela. -Voc viu o que h l nas suas rvores?
        Spencer nem se mexeu. Ian estava com uma cara to estranha que Spencer se perguntou se tinha alguma coisa a ver com Ali. Um de seus ossos. Uma pista. Alguma 
coisa que batesse com as lembranas que Spencer tinha.
        Ento, Ian estendeu a mo aberta para ela. E nela havia seis amoras, gorduchas e suculentas.
        -Vocs tm os ps de amora mais incrveis ali atrs. Quer uma?
        As amoras tinham manchado a palma da mo de Ian de vermelho escuro, cor de sangue. Spencer pde ver a linha do amor e a da vida e todas as manchas esquisitas 
prximas aos dedos. Ela balanou a cabea.
        - Eu no comeria nada que venha ali de trs - disse ela. 
        Afinal de contas, Ali havia sido assassinada ali.
25
ENTREGA ESPECIAL PARA
HANNA MARIN
Sexta-feira  noite, um atendente da loja de celulares T-Mobile, cheio de espinhas e com o cabelo melecado de gel, inspecionava a tela do BlackBerry de Hanna.
        - Parece estar tudo certo com o seu telefone, na minha opinio - informou ele. - E a bateria est funcionando.
        - Bem, voc no deve estar olhando direito - insistiu Hanna de maneira estpida, debruando-se sobre o balco de vidro da loja. - E o sinal? O da minha operadora 
est ruim?
        -  No. - O jovem vendedor apontou para as barras no visor do BlackBerry. -V? Cinco barras. Parece timo.
        Hanna respirou forosamente pelo nariz. Alguma coisa estava acontecendo com seu BlackBerry. Seu telefone no tinha tocado nenhuma vez a noite toda. Mona 
podia t-la abandonado, mas Hanna se recusava a acreditar que todo mundo havia feito a mesma coisa to rapidamente. E ela pensou que A poderia ter mandado mais uma 
mensagem, dando mais informaes sobre Mona e sua provvel lipo, ou explicando o que queria dizer com uma de suas amigas ter um segredo enorme, que ainda seria revelado.
        -Voc gostaria de comprar um outro BlackBerry? - perguntou o vendedor.
        - Sim - afirmou Hanna usando uma voz que soava surpreendentemente como a de sua me. - Um que funcione desta vez, por favor.
        O vendedor parecia cansado.
        - Entretanto, eu no vou conseguir transferir seus dados para o celular novo. Ns no fazemos isso nesta loja.
        - Tudo bem - rebateu Hanna. - Eu tenho uma cpia de tudo em casa.
        O vendedor pegou um telefone novo dos fundos, tirou-o de sua embalagem de isopor e comeou a apertar alguns botes. Hanna se debruou no balco e olhou a 
corrente de consumidores que passava pelo trio do Shopping King James, tentando no pensar no que ela e Mona faziam nas sextas  noite. Primeiro, elas comprariam 
uma roupa Sexta Feliz, para recompens-las por terem passado por mais uma semana; depois, iriam a um sushi bar para comer uma travessa de salmo; e, ento - a parte 
favorita de Hanna -, elas iriam para casa e fofocariam na cama queen size de Hanna, rindo e tirando sarro da coluna do "Ops! do dia" da CosmoGirl!. Hanna tinha que 
admitir que era difcil falar com Mona sobre certas coisas - ela tinha posto de lado qualquer conversa emocional sobre o Sean, pois Mona achava que ele era gay, 
e elas nunca conseguiam falar sobre o desaparecimento da Ali porque Hanna no queria trazer memrias ruins sobre suas amigas de volta. De fato, quanto mais ela pensava 
nisso, mais se perguntava sobre o que ento ela e Mona conversavam. Garotos? Sapatos? Pessoas que elas odiavam?
        - S um minuto. - O vendedor franziu as sobrancelhas e olhou alguma coisa no monitor do computador. - Por alguma razo, a nossa rede no est funcionando.
        A-h, pensou Hanna. Havia alguma coisa errada com a rede.
        Algum riu ao entrar na T-Mobile, e Hanna olhou. Ela no teve tempo para se esquivar quando viu Mona entrando com Eric Kahn.
        O cabelo louro claro de Mona contrastava com o vestido cinza-chumbo de gola rul, acompanhado por uma da mesma cor fuseau preta e botas pretas de cano alto. 
Hanna queria poder se esconder, mas no sabia onde - o caixa da T-Mobile era uma ilha no meio da loja. Aquele lugar idiota no tinha nenhum corredor onde ela pudesse 
se abaixar, ou prateleiras para se enfiar embaixo, apenas quatro paredes de telefones celulares e acessrios para os aparelhos.
        Antes que ela pudesse fazer qualquer coisa, Eric a viu. Os olhos dele brilharam com o reconhecimento, e ele acenou com a cabea para Hanna. As pernas dela 
congelaram. Agora ela sabia como um veado se sentia quando ficava frente a frente com uma carreta vindo em sua direo.
        Mona seguiu o olhar de Eric.
        - Oh - disse ela, secamente, quando seus olhos encontraram os de Hanna.
        Eric, que deve ter percebido que ali havia problemas de menina, deu de ombros e foi para o fundo da loja. Hanna deu uns passos em direo  Mona.
        -Oi.
        Mona olhou para a parede de fones de ouvido e adaptadores de carro.
        -Oi.
        Um bom tempo se passou. Hanna coou o lado do nariz. Ela tinha pintado as unhas com o esmalte Chanel preto, da edio limitada LaVernis - Hanna lembrava 
da vez em que elas tinham roubado dois frascos da Sephora. A lembrana quase trouxe lgrimas aos olhos de Hanna. Sem Mona, Hanna se sentia como uma roupa maravilhosa 
sem acessrios combinando, um Hi-Fi s de suco de laranja e sem nenhuma vodca, um iPod sem os fones de ouvido. Ela se sentia errada. Hanna pensou sobre aquela vez 
no vero depois do oitavo ano quando ela tinha ido com sua me a uma viagem de negcios. O celular de Hanna estava sem sinal, e quando voltou, havia vinte mensagens 
de voz da Mona.
        - Ficou estranho no falar com voc todos os dias, ento, eu decidi te contar tudo nas mensagens - explicara Mona.
        Hanna deixou escapar uma respirao longa e trmula. A T-Mobile tinha um cheiro muito forte de limpador de carpete e suor, que ela esperava que no fosse 
o dela.
        - Eu vi a mensagem que ns pintamos no topo da sua garagem outro dia - disse Hanna, quebrando o silncio. - Sabe, HM+MV=MAPTS? D pra ver do cu. Claro como 
o dia.
        Mona pareceu surpresa. Sua expresso se suavizou.
        - D mesmo?
        - Ah. - Hanna olhou para um dos psteres promocionais da T-Mobile do outro lado da loja. Era uma foto de duas meninas gargalhando de alguma coisa, segurando 
seus celulares no colo. Uma era ruiva, a outra loira, como Hanna e Mona.
        - Est tudo muito confuso - disse Hanna, baixinho. - Eu nem sei como isso comeou. Me desculpe por ter perdido o Amiganiversrio, Mon. Eu no queria sair 
com as minhas antigas amigas. Eu no estou me reaproximando delas nem nada assim.
        Mona enfiou o queixo no peito.
        - No? - Hanna mal podia ouvi-la com o barulho do trenzinho infantil, que chacoalhava bem do lado de fora da loja da T-Mobile. Havia apenas um menino gorducho 
e tristonho no trem.
        - De jeito nenhum - respondeu Hanna depois que o trenzinho passou. - Ns estamos apenas... h coisas estranhas acontecendo conosco. Eu no posso explicar 
tudo agora, mas se voc for paciente comigo, vou poder te contar em breve. - Ela suspirou. - E voc sabe que eu no escrevi aquele negcio no cu de propsito. Eu 
no faria isso com voc.
        Hanna deixou escapar um pequeno soluo barulhento. Ela sempre soluava quando estava prestes a chorar copiosamente, e Mona sabia disso. Mona torceu a boca, 
e, por um segundo, o corao de Hanna saltou. Talvez as coisas fossem ficar bem.
        Ento, foi como se o programa de garota superdescolada dentro da cabea de Mona tivesse reiniciado. Seu rosto rapidamente voltou a ser brilhante e confiante. 
Ela endireitou a postura e deu um sorriso gelado. Hanna sabia exatamente o que Mona estava fazendo - ela e Hanna tinham combinado nunca, jamais chorar em pblico. 
Elas at tinham uma regra sobre isso: se pensassem que iam chorar, tinham que encolher o bumbum, lembrar a si mesmas de que eram lindas, e sorrir. Alguns dias antes, 
Hanna teria feito a mesma coisa, mas naquele momento, no via motivo.
        -  Sinto saudades de voc, Mona - falou Hanna. - Eu quero que as coisas voltem a ser como antes.
        - Talvez - respondeu Mona, afetuosamente. - Ns temos que ver.
        Hanna tentou forar um sorriso. Talvez? O que talvez significa?
Quando parou na entrada da garagem, Hanna reparou no carro de polcia de Wilden, perto do Lexus de sua me. Dentro da casa, ela encontrou a me e Darren Wilden abraadinhos 
no sof, assistindo ao jornal. Havia uma garrafa de vinho e duas taas na mesinha de centro. Pela aparncia da camiseta e do jeans do Wilden, Hanna achou que o Superpolicial 
no estava trabalhando naquela noite.
        O jornal mostrava de novo o vdeo das cinco amigas que tinha vazado. Hanna encostou-se no batente da porta entre a sala e a cozinha e assistiu a Spencer 
se jogar no namorado da . irm, Ian; e a Ali sentada na beirada do sof, parecendo entediada. Quando o vdeo acabou, Jssica DiLaurentis, a me de Alison, apareceu 
na tela.
        -   difcil assistir ao vdeo - disse A sra. DiLaurentis. - Tudo isso nos fez passar por outro sofrimento de novo. Mas ns queremos agradecer a todos de 
Rosewood. Vocs foram to maravilhosos! O tempo que ns passamos aqui para a investigao do caso de Alison fez com que meu marido e eu nos dssemos conta do quanto 
sentamos falta disso.
        Por um breve momento, a cmera mostrou as pessoas atrs da senhora DiLaurentis. Um deles era Wilden, todo arrumadinho no uniforme policial.
        -  L est voc! - gritou a me de Hanna, apertando o ombro de Wilden.-Voc ficou timo no vdeo.
        Hanna queria vomitar. Sua me no tinha ficado animada desse jeito nem no ano anterior, quando Hanna havia sido nomeada Rainha Snowflake e tinha desfilado 
num inflvel, na parada do Festival de Mscaras da Filadlfia.
        Wilden virou-se, percebendo a presena de Hanna na porta.
        -Ah. Oi, Hanna. - Ele se moveu lentamente para longe da sra, Marin, como se Hanna o tivesse flagrado fazendo alguma coisa errada.
        Hanna deu um oi, depois virou, abriu o armrio da cozinha e pegou uma caixa Ritz Bits de manteiga de amendoim.
        - Han, chegou um pacote pra voc - chamou a me, abaixando o volume da TV
        - Pacote? - repetiu Hanna, com a boca cheia de biscoito.
        - Sim. Estava no degrau da entrada quando chegamos. Eu coloquei no seu quarto.
        Hanna levou o pacote de Ritz Bits para cima com ela. De fato, havia uma grande caixa perto de sua escrivaninha e da cama Gucci da sua pinscher miniatura, 
Dor. Dot se esticou para fora da cama, abanando o rabinho cot. Os dedos de Hanna tremiam enquanto ela usava a tesoura de unha para abrir a fita adesiva do pacote. 
Quando abriu a caixa, algumas folhas de leno de papel se espalharam pelo quarto. E a... um vestido sem mangas Zac Posen champanhe estava no fundo.
        Hanna engasgou. O vestido da corte de Mona. Todo arrumado, passado, e pronto para usar. Ela vasculhou o fundo da caixa procurando por um bilhete de explicao, 
mas no achou nenhum. Que seja. Aquilo s podia significar uma coisa: ela estava perdoada.
        As beiradas dos lbios de Hanna lentamente se expandiram em um sorriso. Ela se jogou na cama e comeou a pular, fazendo o colcho de molas ranger. Dot circulou 
em volta fazendo festinha.
        - Iiiiisso - gritou Hanna, aliviada. Ela sabia que Mona ia recuperar o bom-senso. Ela seria louca de ficar brava com Hanna por muito tempo.
        Sentou-se na cama e pegou seu novo BlackBerry. Estava em cima da hora - ela provavelmente no conseguiria remarcar os horrios de cabelo e maquiagem que 
tinha cancelado quando achava que no iria  festa. Ento, ela se lembrou de outra coisa: Lucas, Eu tambm no fui convidado para a festa de Mona, dissera ele.
        Hanna parou, tamborilando os dedos na tela do BlackBerry. Ela no poderia lev-lo  festa de Mona. No como seu par. Nem como nada mais. Lucas era fofo, 
claro, mas ele no era digno de uma festa.
        Ela sentou-se ereta e folheou a agenda de couro vermelha da Coach, procurando o e-mail de Lucas. Ia escrever um e-mail curto e grosso, para que ele soubesse 
exatamente em que p eles estavam: em nenhum. Ele ia ficar arrasado, mas, realmente, Hanna no podia agradar a todos, podia?
26
AS COISAS ESQUENTAM
PARA SPENCER... LITERAL
E FIGURATIVAMENTE
Sexta-feira  noite, Spencer estava de molho na banheira da famlia. Era uma de suas coisas favoritas, especialmente  noite, quando todas as estrelas brilhavam 
no cu escuro. Naquela noite, os nicos sons em volta dela eram o das bolhas do jato da hidromassagem e o barulho de um dos labradores da famlia, Beatrice, mastigando 
um osso.
        Ento, de repente, ela ouviu um graveto quebrando. Depois outro. E, ento... algum respirando. Spencer virou quando a irm, vestida num biquni xadrez Nova, 
da Burberry, desceu a escada e entrou na banheira tambm.
        Por um tempo, nenhuma delas disse nada. Spencer escondeu-se embaixo de uma barba de bolhas, e Melissa estava olhando para a mesa do guarda-sol, perto da 
piscina. De repente, Melissa inspecionou a irm.
        - Ento, eu estou um pouco irritada com dra. Evans.
        - Por qu?
        Melissa mexeu as mos em volta da gua.
        - s vezes, ela fala um monte coisas sobre mim, como se me conhecesse h anos. Ela faz isso com voc?
        Spencer deu de ombros. Melissa no a tinha avisado de que a dra. Evans faria isso?
        Melissa pressionou a palma da mo contra a prpria testa.
        - Ela me disse que escolho homens que no so dignos de confiana para namorar. Que eu vou atrs de caras que sei que nunca iro se comprometer ou que no 
vo assumir nada duradouro, porque eu tenho medo de ficar prxima a algum.
        Melissa estendeu o brao e bebeu de sua grande garrafa de Evian que estava perto da banheira. Acima de sua cabea, Spencer viu a silhueta de um grande pssaro 
- ou talvez um morcego - passar voando diante da lua.
        - Eu fiquei brava com isso no princpio, mas agora... eu no sei. - Melissa suspirou. -Talvez ela esteja certa. Eu comecei a pensar sobre todos os meus relacionamentos. 
Alguns dos caras com os quais sa realmente no pareciam ser dignos de confiana, desde o princpio.
        Seus olhos espetaram Spencer, e Spencer ficou vermelha.
        - O Wren  um que  bvio - continuou Melissa, como que lendo os pensamentos de Spencer, que olhou para o outro lado, para a cachoeira da piscina. - Ela 
me fez pensar no Ian tambm. Acho que ele me traiu quando ns estvamos no ensino mdio.
        Spencer ficou tensa.
        - Mesmo?
        - Ah. - Melissa inspecionou as unhas pintadas de pssego, perfeitamente manicuradas. Seus olhos estavam escuros.
        - Eu tenho quase certeza. E eu acho que sei com quem.
        Spencer mordeu uma pelezinha que escapava de um dos dedes. E se Melissa tivesse escutado Spencer e Ian antes, no campo? Ian tinha comentado sobre o beijo 
que haviam dado. Ou, pior: e se a Ali tivesse contado a Melissa o que Spencer fizera anos antes?
        No muito tempo antes de a Ali desaparecer, o pai de Spencer tinha levado as cinco amigas para jogar paintball. Melissa tinha ido junto tambm.
        - Eu vou contar para Melissa o que voc fez - cantarolou Ali para Spencer enquanto elas punham os macaces no vestirio.
        -Voc no faria isso - silvou Spencer de volta.
        - Ah, no? - provocou Ali. - Me aguarde.
        Spencer seguiu Ali e as outras at o campo. Todas elas se agacharam atrs de um fardo de feno, esperando o jogo comear. Ento, Ali se debruou e tocou o 
ombro de Melissa.
        - Ei, Melissa. Eu tenho uma coisa pra te contar. 
        Spencer a cutucou.
        - Para com isso.
        O apito tocou. Todo mundo comeou a atirar uns contra os outros. Todos que estavam l, exceto Ali e Spencer. Spencer pegou no brao de Ali e a arrastou para 
trs de um fardo de feno prximo. Ela estava to brava que seus msculos estavam trmulos.
        - Por que voc est fazendo isso? - questionou Spencer. 
        Ali tentou sair, debruando-se no feno.
        - Por que voc est fazendo isso? - imitou ela num falsete.
        - Porque  errado. Melissa merece saber.
        A raiva se espalhou pelo corpo da Spencer como nuvens antes da tempestade. Amigas no guardavam os segredos umas das outras? Elas haviam guardado o segredo 
de Jenna por Ali, afinal de contas - fora Ali quem acendera o rojo, Ali  que tinha cegado Jenna -, e todas elas tinham jurado no contar. Ali no se lembrava disso?
        Spencer no teve a inteno de apertar o gatilho da arma de paintball... a coisa aconteceu. Tinta azul se espalhou por todo o macaco de Ali, e ela deu um 
grito assustado. E se ela tivesse contado para Melissa naquela poca, e Melissa tivesse esperado todo esse tempo pelo momento certo para despejar isso em Spencer?
        - Algum palpite de quem possa ser? - provocou Melissa, arrancando Spencer de suas lembranas.
        Spencer afundou ainda mais nas bolhas da banheira, seus olhos ardendo com o cloro. Um beijo mal se qualifica como traio, e tinha sido h tanto tempo.
        - No. No fao a menor ideia. 
        Melissa suspirou.
        - Talvez a dra. Evans esteja exagerando. Afinal, o que ela sabe, de verdade?
        Spencer estudou sua irm com cuidado. Ela pensou sobre o que a dra. Evans tinha dito sobre Melissa - que a irm precisava de validao. Que ela tinha cime 
de Spencer. Essa era uma possibilidade to esquisita. E ser que os problemas da Melissa tinham a ver com a vez em que elas foram assaltadas, quando Spencer ficara 
doente, e que Melissa teve que ir ao campeonato de soletrar com Yolanda? Quantas outras coisas sua irm teria perdido naquele vero porque os pais estavam ocupados 
demais se preocupando com Spencer? Quantas vezes ela teria sido deixada de lado?
        Eu gostava quando ramos amigas, disse uma voz dentro da cabea de Spencer. Eu gostava de cantar as palavras para voc soletrar. Eu detesto o jeito como 
as coisas so agora. Eu detesto faz um bom tempo.
        - Faz mesmo diferena se Ian traiu voc no ensino mdio? - disse Spencer baixinho. - Quer dizer, faz tanto tempo.
        Melissa olhou para cima, para o cu limpo e escuro. Todas as estrelas estavam l.
        - Claro que importa. Foi errado. E se eu algum dia descobrir que  verdade, Ian vai se arrepender para o resto de sua vida.
        Spencer se encolheu. Ela nunca tinha visto Melissa to vingativa.
        - E o que voc vai fazer com a menina?
        Melissa virou-se bem devagar e deu um sorriso venenoso para Spencer. Nesse mesmo momento, as luzes com timer do quintal dos fundos se acenderam. Os olhos 
de Melissa brilharam.
        - Quem disse que eu j no fiz algo a ela?
27
VELHOS HBITOS DEMORAM
A MORRER
No fim da tarde de sbado, Aria se abaixou atrs de uma rvore no quintal dos McCreadys, que ficava em frente a sua casa. Ela viu trs escoteiras que vendiam biscoitos
caminharem para a porta da frente da casa de sua famlia. Ella no est em casa, mas podem deixar umas duas caixas de Thin Mints, ela queria dizer para as meninas.
So os favoritos dela.
        As meninas esperaram. Como ningum respondeu, foram para a casa ao lado.
        Aria sabia que era estranho ter pedalado da casa de Sean at ali, para espionar sua prpria casa como se fosse um clube de celebridades de robe de veludo 
e ela fosse um paparazzo, mas Aria morria de saudade da famlia. Os Ackard eram como se fossem Montgomery bizarros. O sr. e a sra. Ackard tinham se juntado  Vigilncia 
Comunitria do Perseguidor de Rosewood. Eles tinham montado uma linha de denncia 24 horas, e dentro de alguns dias seria a vez do sr. e da sra. Ackard fazerem a 
ronda noturna. E toda vez que algum deles olhava para ela, Aria sentia como se soubessem o que ela havia feito com Ezra no escritrio dele. Era como se ela passasse 
a ostentar uma grande letra A em sua camiseta.
        Aria precisava espairecer e tirar Ezra de dentro dela. S que no conseguia parar de pensar nele. Essa volta de bicicleta era um lembrete depois do outro. 
Ela tinha passado por um homem gorducho comendo Chicken McNuggets e ficado com as pernas bambas por causa do cheiro. Ela tinha visto uma menina com copos plsticos 
pretos como os de Ezra e teve arrepios. At mesmo um gato no muro de um jardim a tinha lembrado Ezra, por nenhuma razo especfica. Mas o que ela estava pensando? 
Como alguma coisa podia estar to errada... e ainda assim to certa ao mesmo tempo?
        Quando passou por uma casa de pedra com sua prpria roda d'gua, um carro de notcias do Canal 7 passou zunindo e desapareceu ladeira abaixo. O vento passou 
pelas rvores, e o cu ficou subitamente negro. De repente, Aria sentiu como se cem aranhas estivessem andando sobre ela. Algum estava olhando.
        A?
        Quando seu Treo tocou uma musiquinha, ela quase caiu da bicicleta. Ela apertou os freios, parou na calada', e o pegou no bolso. Era Sean.
        - Onde voc est? - perguntou ele.
        - ... eu sa para dar uma volta de bicicleta. - Ela mastigou o punho do casaco vermelho surrado.
        - Bem, venha logo pra casa - disse Sean. - Seno vamos nos atrasar para a festa da Mona.
        Aria suspirou. Ela tinha esquecido completamente da festa de Mona Vanderwaal.
        Ele tambm suspirou de volta.
        -Voc no quer ir?
        Aria apertou os freios da bicicleta e olhou para a linda casa estilo neogtico  sua frente. Os donos tinham decidido pint-la de azul royal. Os pais de 
Aria foram os nicos do bairro que no assinaram a petio exigindo que os donos artistas a pintassem de uma cor mais conservadora, mas o abaixo-assinado no tinha 
sido aprovado no frum.
        - Eu no sou amiga da Mona - murmurou Aria. - Nem das outras pessoas que vo  festa.
        - Do que voc est falando? - disse Sean, perplexo. - Elas so minhas amigas, ento, so suas amigas. Vamos nos divertir. bastante. E, quer dizer, a no 
ser pelo nosso passeio de bicicleta, sinto que no tenho visto voc de verdade desde que voc veio morar comigo. O que  estranho, se pararmos para pensar.
        De repente, o sinal de ligao em espera de Aria piscou. Ela tirou o telefone de perto da orelha e olhou para a tela. Ezra. Ela tampou a boca com a mo.
        -  Posso te colocar na espera s por um segundo? - Ela tentou conter a animao na voz.
        - Por qu? - perguntou Sean.
        - S... espera. - Aria apertou o boto.Ela limpou a garganta e alisou o cabelo, como se Ezra a estivesse vendo pela cmera do celular.
        - Al? - Ela tentou soar casual mas sedutora.
        - Aria? - Ela delirou com a voz sonolenta e grave de Ezra.
        - Ezra. - Aria fingiu surpresa. - Oi.
        Alguns segundos de silncio se passaram. Aria virou o pedal da bicicleta com o p e viu um esquilo correr pelo quintal da casa azul royal.
        - Eu no consigo parar de pensar em voc - admitiu Ezra finalmente. -Voc pode encontrar comigo?
        Aria fechou os olhos com muita fora. Ela sabia que no deveria ir. Engoliu em seco.
        - Espere um pouco.
        Ela voltou  ligao de Sean.
        - Hum, Sean?
        - Quem era? - perguntou ele.
        - Era... minha me - titubeou Aria.
        - Mesmo? Isso  timo, certo?
        Aria mordeu com fora a parte de dentro da bochecha. Ela se concentrou nas abboras entalhadas que adornavam os degraus da casa azul royal.
        - Eu tenho uma coisa para resolver - disse ela, finalmente. - Eu ligo mais tarde.
        - Espera - gritou Sean. - E a festa da Mona?
        Mas o dedo de Aria j estava indo de volta para Ezra.
        - Voltei. - Ela estava sem flego, sentindo-se como se tivesse competido em algum tipo de triatlo masculino. - Eu j chego a.
Quando Ezra abriu a porta do seu apartamento, numa antiga casa vitoriana, em Old Hollis, segurava uma garrafa de Glenlivet na mo direita.
        - Quer um usque? - perguntou ele.
        - Claro. - Aria andou at o meio da sala de Ezra e suspirou, feliz. Tinha pensado muito naquele apartamento desde a ltima vez em que estivera ali. Os bilhes 
de livros nas prateleiras, a cera azul de vela derretida espirrada pela moldura da lareira em montinhos parecidos com Smurfs e a enorme banheira intil no meio da 
sala... tudo fazia Aria se sentir to confortvel. Ela sentiu como se tivesse acabado de chegar em casa.
        Eles se jogaram na flexvel namoradeira mostarda de Ezra,
        - Obrigada por ter vindo - agradeceu Ezra, suavemente. 
        Ele estava usando uma camiseta azul-clara, com um rasgadinho no ombro. Aria queria enfiar o dedo no buraco.
        - De nada. -Aria tirou seus sapatos Vans xadrez. -Vamos brindar?
        Ezra pensou por um momento, um cacho de cabelo escuro caa sobre seus olhos.
        -  Por virmos de famlias bagunadas - decidiu ele, e encostou o copo no dela.
        - Sade. - Aria bebeu seu usque. Tinha gosto de limpa-vidro e cheirava a querosene, mas ela no se importava. Bebeu tudo rapidamente, sentindo o esfago 
queimar.
        -  Outro? - Ezra trouxe a garrafa de Glenlivet com ele quando se sentou.
        - Claro - respondeu Aria. Ezra se levantou para pegar mais cubos de gelo e olhou para a minscula TV sem som num canto. Havia um comercial de iPod passando. 
Era engraado assistir algum danando to entusiasticamente sem som.
        Ezra voltou e serviu outra dose a Aria. Com cada gole do usque, a parte durona de Aria derretia mais. Eles conversaram por um tempo sobre os pais de Ezra 
- a me dele se mudara para Nova York, o pai vivia em Wayne, uma cidade no muito distante. Aria comeou a falar sobre sua famlia de novo.
        - Voc sabe qual  a minha lembrana favorita dos meus pais? - disse ela, esperando que no estivesse falando mole. O usque amargo estava aprontando com 
as suas habilidades motoras. - Meu aniversrio de treze anos, na Ikea.
        Ezra levantou uma sobrancelha.
        -Voc est brincando. A Ikea  um pesadelo.
        - Parece estranho, no ? Mas meus pais conheciam uma pessoa realmente influente que administrava a loja da Ikea aqui perto, e ns a alugamos depois do horrio 
de funcionamento. Foi to divertido... Byron e Ella foram para l mais cedo e planejaram toda a caada de presentes pelos quartos, cozinhas e escritrios da Ikea. 
Eles estavam to animados com a festa. Ns todos tnhamos nomes de mveis suecos para a festa, o de Byron era Ektorp, eu acho, e o de Ella era Klippan. Eles pareciam 
to... unidos.
        Lgrimas brotaram dos olhos de Aria. Seu aniversrio era em abril; Aria tinha descoberto Byron com Meredith em maio, e Ali desaparecera em junho. Parecia 
que aquela festa havia sido a ltima noite perfeita e descomplicada de sua vida. Todos estavam to felizes, at mesmo Ali - especialmente Ali. Num certo ponto, numa 
caverna das cortinas de banho da Ikea, Ali pegara nas mos da Aria e sussurrara:
        - Estou to feliz, Aria! Eu estou to feliz!
        - Por qu? - quisera saber Aria. 
        Ali sorriu e gargalhou.
        - Eu vou te contar logo.  uma surpresa. 
        Mas ela nunca teria a chance.
        Aria passou um dos dedos em volta da borda do copo de usque. Havia acabado de comear o noticirio na TV Eles estavam falando de Ali de novo. Investigao 
de assassinato, informava a tarja embaixo da tela. A foto de Ali no stimo ano estava no canto esquerdo: Ali dando seu sorriso brilhante, os brincos de diamantes 
tilintando em suas orelhas, o cabelo loiro ondulado e lustroso, o blazer de Rosewood Day com caimento perfeito e sem amassados. Era to estranho o fato de que Ali 
estaria no stimo ano para sempre.
        - Ento - disse Ezra. -Voc falou com seu pai? 
        Aria desviou o olhar da TV
        - Na verdade, no. Ele queria falar comigo, s que agora provavelmente no quer mais. No depois do lance do A escarlate.
        Ezra franziu a testa.
        - Lance do A escarlate?
        Aria cutucou um fio solto dos seus jeans APC favoritos, comprados em Paris. Aquilo no era algo que ela pudesse explicar para algum que tivesse um diploma 
em literatura. inglesa. Mas Ezra estava se inclinando para a frente, seus lindos lbios abertos de expectativa. Ento, ela tomou mais um gole do usque e contou 
a ele tudo sobre Meredith, Hollis e o A vermelho, pingando.
        Para seu horror, Ezra comeou a gargalhar.
        -Voc est brincando. Voc realmente fez isso?
        - Sim - confirmou Aria. - Eu no devia ter te contado.
        -  No, no,  timo. Adorei. - Ezra agarrou as mos de Aria impetuosamente. As palmas das mos dele eram quentes e grandes e estavam ligeiramente suadas. 
Ele olhou para os olhos dela... depois a beijou. Primeiro de leve, depois Aria inclinou-se e o beijo se tornou mais forte. Eles pararam por um momento, e Aria voltou 
para o sof.
        -Voc est bem? - perguntou Ezra, delicadamente.
        Aria no tinha ideia se estava bem. Ela nunca sentira tantas coisas em sua vida. No sabia ao certo o que fazer com a prpria boca.
        - Eu no...
        - Eu sei que ns no deveramos estar fazendo isso - interrompeu Ezra. -Voc  minha aluna. Eu sou seu professor. Mas... - Ele suspirou, puxando um cacho 
de cabelo para trs. -Mas eu gostaria que talvez... de alguma forma... isso pudesse dar certo.
        Quo intensamente ela no havia desejado que Ezra tivesse dito essas coisas semanas atrs? Aria sentia-se perfeita com ele - mais viva, mais ela mesma. Mas, 
ento, o rosto de Sean apareceu em sua mente. Ela o viu se inclinando para beij-la no outro dia, no cemitrio, quando ele viu um coelho. E ela viu a mensagem de 
A: Cuidado, cuidado! Eu estou sempre de olho.
        Ela deu uma olhada para a TV mais uma vez. O conhecido vdeo passou pela bilionsima vez. Aria podia ler os lbios de Spencer: Querem ler as mensagens dela? 
As meninas se amontoaram em volta do telefone. Ali entrou na cena. Por um momento, Ali olhou diretamente para a cmera, seus olhos redondos e azuis. Parecia que 
ela estava olhando para fora da tela da TV, para a sala de Ezra... direto para Aria.
        Ezra virou a cabea e notou o que estava acontecendo.
        - Droga. Sinto muito.
        Ele revirou a pilha de revistas e menus de comida tailandesa da mesinha de centro e finalmente encontrou o controle remoto. Ele mudou para o canal seguinte, 
que era o QVC. Joan Rivers estava vendendo um broche enorme de liblula.
        Ezra apontou para a tela.
        - Eu compro isso para voc, se voc quiser. 
        Aria riu.
        - No, obrigada. - Ela colocou as mos nas de Ezra e respirou fundo. - Ento, o que voc disse... sobre isso dar certo. Eu... eu acho que tambm quero que 
d certo.
        O rosto de Ezra se iluminou e Aria pode ver seu prprio reflexo nos culos dele. O velho relgio de pndulo perto da mesa da sala de jantar de Ezra anunciou 
a hora.
        - Me... mesmo? - murmurou ele.
        - Sim. Mas eu tambm quero fazer da maneira correta. - Ela engoliu em seco. - Eu tenho um namorado neste momento. Ento... tenho que dar um jeito nisso, 
entende?
        Eles se entreolharam por pelo menos um minuto mais. Aria podia ter estendido o brao, arrancado os culos dele e o beijado um bilho de vezes.
        - Acho que devo ir embora agora - atestou ela com tristeza.
        -Tudo bem - respondeu Ezra com os olhos nos dela. Mas quando ela saiu do sof e tentou colocar os sapatos, ele puxou a beirada de sua camiseta. Mesmo querendo 
sair, ela simplesmente... no conseguia.
        - Venha aqui - sussurrou Ezra, e Aria voltou para perto dele. Ele estendeu os braos e a segurou.
28
ALGUMAS LETRAS DO NOME DELA
TAMBM FORMAM A PALAVRA CELA
Um pouco antes das oito, no sbado  noite, Spencer estava deitada em sua cama, olhando o ventilador de teto de folha de palmeira girar. O ventilador custara mais 
do que um bom carro, mas Spencer implorou  sua me que o comprasse porque era idntico ao ventilador da cabana onde a famlia havia ficado em Caves, na Jamaica. 
Agora, entretanto, parecia uma coisa to... Spencer aos treze anos.
        Ela saiu da cama e enfiou os ps dentro dos sapatos Chanel. Sabia que teria que arranjar algum entusiasmo para a festa da Mona.Teve de fazer isso ano anterior 
- mas  claro que tudo estava bem diferente na poca. O dia todo, ela tivera vises estranhas - brigando com Ali do lado de fora do celeiro, a boca da Ali se mexendo 
sem Spencer ouvir as palavras, Spencer dando um passo em direo a ela, um barulho. Era como se a lembrana, guardada por todos esses anos, quisesse vir  tona.
        Ela passou mais gloss cor de amndoa torrada nos lbios, arrumou seu vestido preto com manga de quimono e desceu as escadas. Quando chegou  cozinha, ficou 
surpresa ao ver que a me, o pai e Melissa estavam sentados  mesa em volta de um tabuleiro vazio de Scrabble, um jogo de palavras cruzadas. Os dois cachorros estavam 
acomodados aos ps deles. O pai no estava usando seu uniforme padro de andar de bicicleta, nem o terno, mas uma camiseta vinho clara e jeans. A me estava de calas 
de ioga. A cozinha cheirava a espuma de leite da cafeteira expressa Miele.
        - Oi. - Spencer no conseguia lembrar a ltima vez que tinha visto os pais em casa sbado  noite. Todos eles adoravam ser vistos, fosse na inaugurao de 
um restaurante, ou num concerto ou num dos jantares que os scios da firma do pai sempre davam.
        -  Spencer! A est voc! - gritou a sra. Hastings. -Adivinhe o que ns acabamos de pegar? - Com uma mesura, ela mostrou um impresso que estava segurando 
atrs das costas. Tinha o logotipo com letra gtica do Philadelphia Sentinel em cima. Embaixo, estava a manchete: Mexa-se, Trump! Spencer Hastings est chegando! 
Spencer olhou para a foto dela prpria sentada  mesa do pai. O terno cinza Calvin Klein com a camisa de seda vermelha por baixo tinha sido uma boa escolha.
        - Jordana acabou de nos mandar o link por e-mail - falou a me, animada. - A primeira pgina do domingo no vai ficar pronta at amanh de manh,  claro, 
mas sua histria j est na internet!
        - Uau - disse Spencer, trmula, dispersa demais para realmente ler a histria. Ento, isso estava mesmo acontecendo. At onde aquilo iria? E se ela ganhasse?
        - Ns vamos abrir uma garrafa de champanhe para celebrar - informou o Sr. Hastings. -Voc pode at tomar um pouco, Spence.Voc sabe, ocasio especial.
        - E talvez voc queira jogar Scrabble? - perguntou a sra. Hastings.
        -  Me, ela est toda arrumada para uma festa - disse Melissa. - Ela no quer sentar aqui, beber champanhe e jogar Scrabble.
        - E da? - retrucou a sra. Hastings. - Ainda no so nem oito horas. Festas no comeam assim to cedo, comeam?
        Spencer estava encurralada. Todos olhavam para ela.
        - Eu... eu acho que no - disse ela.
        Ela arrastou uma cadeira, sentou e tirou os sapatos. O pai pegou uma garrafa de Met da geladeira, tirou a rolha e pegou quatro taas Riedel do armrio. 
Serviu uma taa cheia para ele, para a me de Spencer, e para Melissa, e meia taa para Spencer. Melissa ps um dos suportes do jogo diante da irm.
        Spencer enfiou a mo dentro do saco de veludo e pegou algumas letras. O pai foi o prximo a pegar as letras. Spencer estava impressionada que ele soubesse 
como fazer isso. Ela nunca o tinha visto jogar nada, nem mesmo quando estava de frias.
        - Quando voc vai saber a deciso final dos juzes? - perguntou ele, tomando um gole de champanhe.
        Spencer deu de ombros.
        - Eu no sei. - Ela olhou para Melissa, que deu a ela um sorriso breve e indecifrvel. Spencer no tinha falado com Melissa desde a sesso na banheira na 
noite anterior, e se sentia um pouco estranha perto da irm. Apreensiva, na verdade.
        - Eu consegui ler o seu trabalho ontem - continuou o sr. Hastings, juntando as mos. - Eu adoro o jeito como voc atualizou o conceito para os tempos modernos.
        - Ento, quem vai primeiro? - perguntou Spencer, animada. No havia chance de eles falarem do assunto do trabalho. No perto de Melissa.
        - O ganhador do Orqudea Dourada de 1996 no recebeu um Pulitzer ano passado? - perguntou o sr. Hastings.
        - No, foi um Booker Prize - corrigiu Melissa.
        Por favor, parem de falar do Orqudea Dourada, pensou Spencer. Ento, ela se deu conta: pela primeira vez, eles estavam falando sobre ela e no sobre Melissa.
        Spencer olhou para suas peas. Tinha E, A, 5,J, M, R, O, N, H, T, I, 5. Ela rearranjou as letras e quase se engasgou com a prpria lngua. MENTIROSA SJH.
        SJH, como em Spencer Jill Hastings.
        L fora, o cu estava escuro. Um cachorro uivou. Spencer pegou sua taa de champanhe e tomou tudo em trs segundos.
        - Algum no vai dirigir por pelo menos uma hora -brincou o pai.
        Spencer tentou rir, sentando sobre as mos, para seu pai no ver que elas estavam trmulas.
        A sra. Hastings formou a palavra VERME com suas peas.
        - Sua vez, Spence - disse ela.
        Quando Spencer pegou seu M, o Motorola de Melissa tocou. Um violoncelo falso vibrou pelo alto-falante, tocando a msica de Tubaro.Tan-Tan.Tan-Tan. Spencer 
conseguiu ver a tela de onde estava sentada: nova mensagem de texto.
        Melissa abriu o telefone, mudando o ngulo para Spencer no ver. Ela franziu a testa.
        - H? - disse ela, alto.
        - O que foi? - perguntou a sra. Hastings, levantando os olhos de suas peas.
        Melissa coou a cabea.
        -   "O conceito da mo invisvel, do grande economista escocs Adam Smith, pode ser resumido muito facilmente, seja descrevendo os mercados do sculo XIX 
ou aqueles do sculo XXI: pode-se pensar que as pessoas esto fazendo coisas para ajudar, mas, na verdade, todo mundo est fazendo por si mesmo.JJ Que estranho! 
Por que algum iria me mandar parte de um trabalho que eu escrevi no ensino mdio?
        Spencer abriu a boca para falar, mas apenas uma expirao seca saiu,
        O sr. Hastings colocou sua taa na mesa.
        - Essa  o trabalho de Spencer para o Orqudea Dourada. 
        Melissa examinou a tela.
        - No, no ,  minha... - Ela olhou para Spencer. - No. 
        Spencer se encolheu na cadeira.
        - Melissa, foi um engano.
        Melissa ficou to boquiaberta que Spencer viu as obturaes nos molares dela.
        - Sua vagabunda!
        - As coisas ficaram descontroladas! - gritou Spencer. - A situao fugiu do meu controle!
        O sr. Hastings franziu a testa confuso.
        - O que est acontecendo?
        O rosto de Melissa se contorceu, os cantos dos seus olhos viraram para baixo e seus lbios se enrolaram de modo sinistro.
        - Primeiro voc rouba meu namorado. E, depois, meu trabalho? Quem voc pensa que ?
        - Eu pedi desculpas! - gritou Spencer ao mesmo tempo.
        - Esperem. ... o trabalho  de Melissa? -A sra. Hastings empalideceu.
        - Tem que haver algum engano - insistiu o sr. Hastings. 
        Melissa ps as mos na cintura.
        - Ser que eu devo contar a eles? Ou gostaria de fazer isso voc mesma?
        Spencer levantou-se.
        -  Conte por mim, como voc sempre faz. - Ela correu pelo corredor em direo s escadas. -Voc ficou muito boa nisso, a essa altura.
        Melissa a seguiu.
        - Eles tm que saber que mentirosa voc .
        -  Eles tm que saber que vagabunda voc  - rebateu Spencer.
        Os lbios de Melissa se abriram num sorriso.
        - Voc  to fraca, Spencer. Todo mundo acha isso. At a mame e o papai.
        Spencer se arrastou pelas escadas, de volta para baixo.
        - Eles no acham!
        - Sim, eles acham! - provocou Melissa. - E  verdade, no ?Voc  uma ladra de namorados, plagiadora e pattica vagabundinha!
        - Eu estou to cheia de voc! - gritou Spencer. - Por que voc no morre de uma vez?
        - Meninas! - o sr. Hastings gritou.
        Mas era como se as irms estivessem num campo de fora, isoladas. Melissa no tirava os olhos de Spencer. E Spencer comeou a tremer. Era verdade. Ela era 
pattica. Ela era imprestvel.
        - Apodrea no inferno! - gritou Spencer. Ela voltou a subir, dois degraus de cada vez.
        Melissa estava bem atrs dela.
        - Isso mesmo, bebezinho insignificante, foge!
        -  Cala a boca!
        -Bebezinho que rouba meus namorados! Que no  inteligente o suficiente para escrever seus prprios trabalhos! O que voc ia dizer na TV se ganhasse, Spencer? 
Sim, eu escrevi cada palavra sozinha. Sou uma menina inteligente. Inteligente! O que mais? Voc tambm cola no vestibular?
        Ela sentia como se unhas arranhassem seu corao.
        - Para com isso - gritou ela, quase tropeando numa caixa de J. Crew, que a me havia deixado num dos degraus.
        Melissa pegou no brao de Spencer e a virou. Ela colocou seu rosto bem perto do de Spencer. Seu hlito cheirava a caf expresso.
        -  O bebezinho quer tudo que  meu, mas sabe de uma coisa? Voc no pode ter o que eu tenho. Voc nunca poder.
        Toda a raiva que Spencer guardava por anos se soltou e tomou conta do seu corpo, fazendo-a ficar quente, depois molhada, depois trmula. Suas entranhas estavam 
to banhadas em fria que comeavam a secar. Ela se apoiou no corrimo, segurou Melissa pelos ombros e comeou a chacoalh-la como se ela fosse uma Bola Oito Mgica. 
Ento, a empurrou.
        - Eu disse para com isso!
        Melissa se desequilibrou, segurando-se no corrimo para no cair. Um olhar assustado tomou seu rosto.
        Uma vaga compreenso comeou a se formar no crebro de Spencer. Mas em vez de Melissa, ela via Ali. Elas duas usavam a mesma expresso presunosa, eu sou 
tudo e voc  nada. Voc tenta roubar tudo de mim. Mas voc no pode roubar isto. Spencer sentiu o cheiro da umidade do orvalho, viu os vaga-lumes e sentiu o hlito 
de Ali perto do seu rosto. Ento, uma estranha fora invadiu o corpo de Spencer. Ela soltou um grito agonizante vindo de algum lugar profundo dentro de si e avanou.
        Ela se viu estendendo os braos e empurrando Ali - ou era Melissa? - com toda a fora. Melissa e Ali caram para trs. Suas cabeas fizeram barulho de crnio 
rachando ao baterem em algo. A viso de Spencer clareou e ela viu Melissa rolando, rolando, rolando escada abaixo, caindo numa posio estranha l embaixo.
        - Melissa! - gritou a sra. Hastings.
        E, ento, tudo ficou preto.
29
H UMA LUA CHEIA NO
PLANETRIO DA HOLLIS
Hanna cambaleou at os portes do planetrio, um pouco depois das nove. Era a coisa mais estranha, mas era difcil andar num vestido de alta-costura. Ou sentar-se. 
Ou, bem, respirar.
        T bom, ento o treco estava muito apertado. Hanna tinha levado uma eternidade para se enfiar no negcio e depois ainda mais tempo para fechar o zper. Ela 
at tinha pensado em pegar emprestada a cinta Spanx da me, mas isso significaria tirar o vestido e passar pela tortura do zper de novo. O processo tinha levado 
tanto tempo que ela no tinha tido tempo para fazer quase nada antes de chegar ali, como retocar a maquiagem, ou contar as calorias que tinha comido naquele dia, 
ou colocar os nmeros do seu antigo telefone no novo BlackBerry.
        O tecido do vestido parecia ter encolhido ainda mais. Ele cortava sua pele e estava to apertado em seus quadris que ela no tinha ideia de como ia levant-la 
para fazer xixi. Toda vez que se mexia, ouvia os fiozinhos arrebentando. Havia alguns pontos, tambm, como em volta da barriga, os lados dos seios e na bunda, que 
estavam... enrugados.
        Ela tinha comido um monte de salgadinhos nos ltimos dois dias... e se esforou muito para no vomitar nada. Ser que tinha ganhado peso to rpido? E se 
alguma coisa houvesse acontecido com seu metabolismo? E se tivesse se tornado uma dessas meninas que ganham peso s de olhar pra comida?
        Mas ela tinha que usar aquele vestido. Talvez o tecido afrouxasse com o uso, como couro. Provavelmente estaria escuro na festa ento, ningum notaria. Hanna 
subiu os degraus do planetrio, sentindo-se um pouco como um pinguim meio duro cor de champanhe.
        Ela ouviu o barulho das batidas da msica vindo l de dentro e se preparou. No ficava to nervosa por causa de uma festa desde a festa de Halloween de Ali, 
no stimo ano, quando ela ainda se sentia uma fracassada. No muito depois de Hanna ter chegado, Mona e suas amigas bobas, Chassey Bledsoe e Phi Templeton, tinham 
aparecido como trs hobbits do Senhor dos anis. Ali tinha dado um fora nela:
        - Vocs parecem estar cheias de pulgas. - E ento riu na cara delas.
        No dia seguinte  festa de Ali, quando Hanna foi ao supermercado com a me, viu Mona e o pai na fila do caixa. L, na lapela da jaqueta jeans de Mona, estava 
o broche do Jack Lanterna, que foi parte da lembrancinha da festa. Mona o ostentava orgulhosamente, como se fosse da turma.
        Hanna sentiu um pouco de culpa de ter dado o cano em Lucas - ele no tinha respondido seu e-mail para cancelar o encontro - mas que opo havia? Mona fez 
tudo menos perdo-la na T-Mobile e, ento, mandou o vestido para ela. Melhores amigas sempre na frente, especialmente melhores amigas como Mona.
        Ela abriu a grande porta de metal com cuidado. Na mesma hora, a msica veio at ela, como uma onda. Viu esculturas de gelo azuladas no salo principal e, 
mais ao fundo, um trapzio gigante. Planetas brilhantes estavam pendurados no teto, e uma enorme tela de vdeo pairava acima do palco. Um Noel Kahn enorme olhava 
pelo telescpio, no telo.
        - Ai, meu Deus. - Hanna ouviu atrs dela. Ela virou. Naomi e Riley estavam no bar. Vestiam tubinhos esmeralda combinando e seguravam pequenas bolsinhas de 
amarrar, de cetim. Riley sorriu sarcasticamente por trs de uma das mos, avaliando Hanna. Naomi deu uma risada sonora. Hanna teria nervosamente encolhido sua barriga 
se o vestido j no o estivesse fazendo de modo no natural.
        - Bonito vestido, Hanna - disse Riley, calmamente. Com seus cabelos ruivo-fogo e seu vestido verde brilhante, ela parecia uma cenoura invertida.
        - Sim, est muito bem em voc - completou Naomi, sarcstica.
        Hanna endireitou-se e foi embora. Ela desviou de uma garonete carregando uma bandeja de minicroquetes de caranguejo e tentou no olhar para eles, com medo 
de que pudesse ganhar peso. Ento, viu quando a imagem do Jumbotron mudou. Nicole Hudson e Kelly Hamilton, as vagabundas que eram capachos de Riley e Naomi, apareceram 
na tela. Elas tambm usavam tubinhos verdes sedutores e seguravam as mesmas bolsas delicadas de cetim.
        - Feliz aniversrio, Mona, da sua corte de amigas da festa! - gritaram elas, mandando beijos.
        Hanna franziu a testa. Corte da festa? No. O vestido da corte no era verde... era champanhe. Certo?
        De repente, a multido de jovens que danava se afastou. Uma linda menina loira caminhou direto at Hanna. Era Mona!Ela vestia exatamente o mesmo vestido 
champanhe Zac Posen que Hanna - os mesmos que elas tinham experimentado na Saks. S que o dela no repuxava na barriga ou na bunda. O zper no estava enrugado e 
repuxado, e no havia sobras. Em vez disso, ele acentuava a cintura fina de Mona e mostrava suas longas e graciosas pernas.
        Os olhos de Mona se arregalaram.
        -  O que voc est fazendo aqui? - Ela olhou Hanna de cima a baixo, sua boca tremendo num sorriso. - E onde diabos voc conseguiu esse vestido?
        -Voc me mandou - respondeu Hanna. 
                Mona olhou para ela como se ela fosse louca. Apontou para Riley.
- Aquele  o vestido da corte. Eu mudei. Queria ser a nica vestida de champanhe, no todas ns. - Ela avaliou Hanna mais uma vez. - E, certamente, nenhuma baleia.
        Todos riram, at mesmo a garonete e o barman. Hanna deu um passo para trs, confusa. O salo ficou mais quieto por um momento - o DJ estava entre uma msica 
e outra. Mona enrugou o nariz e Hanna sentiu como se houvesse uma corda em sua garganta. Tudo fazia um sentido horroroso e doentio.
        Claro que Mona no mandara o vestido. A havia mandado.
        - Por favor, saia. - Mona cruzou os braos sobre o peito e olhou pontualmente para as diversas ruguinhas da roupa de Hanna. - Eu desconvidei voc, lembra?
        Hanna foi em direo a Mona, querendo se explicar, mas pisou em falso com seus saltos Jimmy Choo. Ela sentiu seu calcanhar virar, as pernas se dobraram, 
e os joelhos baterem no cho. Pior, Hanna ouviu um rasgo bem alto. De repente, sua bunda pareceu menos apertada. Quando se virou para verificar o estrago, a costura 
lateral tambm se desfez. O lado todo do vestido se abriu, do quadril de Hanna at suas costelas, mostrando a ala fininha do suti de renda Eberjey e sua calcinha.
        - Ai, meu Deus! - gritou Riley. Todos rolaram de rir. Hanna tentou se cobrir, mas no sabia por onde comear. Mona ficou ali parada e deixou tudo acontecer, 
linda, e parecendo uma rainha em seu vestido de caimento perfeito. Era difcil para Hanna imaginar que apenas alguns dias antes elas se gostavam como apenas melhores 
amigas se gostam.
        Mona colocou as mos nos quadris e olhou para as outras.
        - Vamos meninas - falou ela, em tom de desaprovao. - Esse desastre no  digno do nosso tempo.
        Os olhos de Hanna se encheram de lgrimas. O pessoal comeou a sair, e algum tropeou em Hanna, derramando cerveja quente em suas pernas. Esse desastre 
no  digno do nosso tempo. Hanna ouvia as palavras ecoarem em sua cabea. Ento, pensou em algo. Lembra quando voc viu Mona saindo da clnica de cirurgia plstica 
Bill Beach? Al, lipo!
        Hanna deu um jeito de se levantar do cho de mrmore gelado.
        - Ei, Mona.
        Mona virou e olhou para ela. 
        Hanna respirou fundo.
        - Voc est bem mais magra desde que eu a vi saindo da Bill Beach. Depois da lipo.
        Mona levantou a cabea. Mas no pareceu horrorizada ou envergonhada, apenas confusa. Ela fungou e revirou os olhos.
        - Que seja, Hanna.Voc  pattica.
        Mona jogou o cabelo no ombro e foi em direo ao palco. Uma muralha de jovens as separou. Hanna sentou-se, cobrindo o rasgado lateral com uma das mos e 
o rasgado da bunda com a outra, e, ento, ela viu: seu rosto, aumentado milhes de vezes no telo. Havia uma longa tomada do seu vestido. A gordura embaixo de seus 
braos fazia volume. As linhas da sua calcinha apareciam sob o tecido. A Hanna na tela deu um passo em direo a Mona e tropeou. A cmera gravou seu vestido rasgando.
        Hanna chorou e cobriu os olhos. Todas as risadas pareciam agulhas tatuando sua pele. Ento, sentiu a mo em suas costas.
        - Hanna.
        Hanna deu uma olhada.
        - Lucas?
        Ele estava usando calas escuras, uma camiseta da Atlantic Records e um blazer de risca de giz. Seu cabelo loiro compridinho parecia denso e selvagem. O 
olhar em seu rosto dizia que tinha visto tudo.
        Ele tirou sua jaqueta e a deu para ela.
        - Aqui.Vista isso.Vamos tirar voc daqui.
        Mona estava subindo no palco. A multido tremia de ansiedade. Em qualquer outra noite de festa, Hanna estaria bem na frente e pronta para arrebentar com 
a msica. Mas, desta vez, ela segurou no brao de Lucas.
30
MUDAR  BOM... EXCETO
QUANDO  RUIM
No sbado  noite, Emily amarrou seus patins para andar no gelo at quase no sentir mais a circulao nos ps.
        - Eu no acredito que a gente tem que usar trs pares de meias - reclamou com Becka, que estava perto dela no banco amarrando o par de patins brancos que 
tinha trazido de casa.
        - Eu sei - concordou Becka, ajustando sua faixa de seda no cabelo -, mas evita que seus ps fiquem frios.
        Emily amarrou os cadaros dos patins. Devia estar uns quinze graus na pista, mas ela estava usando apenas uma camiseta de manga curta da equipe de natao 
de Rosewood. Estava to entorpecida que o frio no a afetava. No caminho at ali, Emily contou a Becka que sua primeira sesso do Tree Tops ia ser na segunda-feira. 
Primeiro Becka pareceu surpresa, depois, feliz. Emily no falou muito mais pelo resto da patinao. Tudo em que ela pensava era que preferia estar com Maya.
        Maya. Sempre que Emily fechava os olhos, via o rosto bravo de Maya na estufa de plantas. O telefone celular de Emily esteve quieto o dia todo. Parte dela 
queria que Maya ligasse tentando voltar com ela. Mas,  claro, parte dela no queria. Tentou ver o que havia de positivo - agora que seus pais viram que ela estava 
realmente comprometida com o Tree Tops, estavam sendo gentis com ela. No treino de natao do sbado, a treinadora Lauren disse a ela que a tcnica de natao da 
Universidade do Arkansas ainda queria conversar com ela. Todo o time masculino de natao continuava a passar cantadas e a convidar Emily para festinhas em banheiras, 
mas era melhor do que se estivessem tirando sarro dela. Quando voltavam para casa depois do treino, Carolyn disse: "Eu gosto desse CD", quando Emily colocou um velho 
No Doubt no som do carro. Era um comeo.
        Emily olhou para o rinque de patinao. Depois de a Coisa com Jenna, ela e Ali costumavam ir ali praticamente todo final de semana, e nada, nada naquele 
lugar havia mudado desde ento. Ainda havia os mesmos bancos azuis nos quais todo mundo sentava para amarrar os patins; a mquina de chocolate quente que tinha gosto 
de aspirina; o urso polar de plstico gigante que cumprimentava todo mundo na entrada principal. A coisa toda era to assustadoramente nostlgica que Emily quase 
esperava ver Ali l fora, no gelo, treinando suas cruzadas reversas. Porm o rinque estava praticamente vazio naquela noite. Havia amontoados de jovens, mas nenhum 
da idade de Emily. Sem dvida, o resto do pessoal estava na festa de Mona. Num mundo paralelo, Emily estaria l tambm. 
        - Becka?
        Emily e Becka olharam para cima. Uma menina magra, com cabelos curtos escuros e encaracolados, um nariz pequeno e olhos castanho-escuros olhava para as duas. 
Ela vestia um vestido rosa evas, meia-cala branca, uma delicada pulseira de prolas e usava um brilho rosa-shocking. Um par de patins de gelo com cadaros nas 
cores do arco-ris balanava nos seus pulsos.
        - Wendy! - gritou Becka, levantando-se. Ela foi abraar Wendy mas, ento, pareceu corrigir-se e voltou atrs. -Voc est... voc est aqui!
        Wendy tinha um enorme sorriso no rosto.
        - Uau, Becks.Voc est... tima. 
        Becka sorriu, envergonhada.
        -Voc tambm. - Ela inspecionou Wendy quase sem acreditar, como se a menina tivesse ressuscitado dos mortos. -Voc cortou o cabelo.
        Wendy tocou a cabea.
        - Est muito curto?
        - No! - respondeu Becka mais que depressa. - Est uma graa.
        Ambas continuaram sorrindo e gargalhando. Emily tossiu e Becka olhou para ela.
        - Oh! Esta  Emily. Minha nova amiga do Tree Tops.
        Emily apertou a mo de Wendy. As unhas curtas da menina estavam pintadas de rosa cintilante, e havia um aplique de Pokmon num dedo.
        Wendy sentou-se e comeou a amarrar os cadaros dos seus patins.
        -Vocs duas patinam muito? - perguntou Emily. -Vocs tm seus prprios patins.
        - Ns costumvamos - falou Wendy, olhando para Becka. - Ns fizemos aulas juntas. Bem... algo assim.
        Becka riu e Emily olhou para ela, confusa.
        - O qu?
        - Nada - respondeu Becka. - S... Voc se lembra da sala de aluguel de patins, Wendy?
        - Ai, meu Deus. -Wendy tapou a boca com a mo. - A cara que o rapaz fez!
        T bom. Emily tossiu de novo, e Becka imediatamente parou de rir, como se tivesse se dado conta de onde estava - ou, talvez, de quem era.
        Quando Wendy terminou de amarrar o cadaro, todas entraram no rinque. Wendy e Becka imediatamente viraram de costas e comearam a patinar para trs. Emily, 
que s sabia patinar para a frente de um jeito meio descoordenado, sentiu-se desajeitada perto delas.
        Ningum disse nada por um tempo. Emily ouvia o som que seus patins faziam quando fatiavam o gelo.
        - Ento, voc ainda est saindo com Jeremy? - perguntou Wendy para Becka.
        Becka mastigou a ponta da luva de l.
        - Na verdade, no.
        -  Quem  Jeremy? - perguntou Emily, passando ao lado de uma menina loira com uniforme de escoteira.
        - Um cara que conheci no Tree Tops - respondeu Becka. Ela olhou desconcertada para Wendy. - Ns samos por um ou dois meses. No deu certo.
        Wendy deu de ombros e colocou uma mecha atrs da orelha.
        - Sim, eu estava saindo com uma menina da turma de histria, mas tambm no deu em nada. E tenho um encontro s escuras semana que vem, mas no sei se vou. 
Aparentemente, ela gosta de hip-hop. - Ela franziu o nariz.
        Emily, de repente, se deu conta de que Wendy disse ela. Antes que pudesse perguntar, Becka limpou a garganta. Seu rosto estava tenso.
        - Eu talvez v a um encontro s escuras, tambm - declarou. ela, mais alto que o normal. - Com outro garoto do Tree Tops.
        - Bem, boa sorte com esse - disse Wendy, secamente, girando para patinar para a frente de novo. S que ela no tirou os olhos de Becka, e Becka no tirou 
os olhos de Wendy. Becka patinou de volta para perto de Wendy e pareceu que elas encostaram as mos de propsito.
        As luzes diminuram. Um globo de discoteca desceu do teto e luzes coloridas apareceram por todo o rinque. Todos, menos alguns casais, saram do gelo.
        -  Patinao de casais - informou um imitador de Isaac Hayes no microfone. - Segure quem voc ama.
        As trs desabaram num banco prximo quando "Unchained Melody" comeou a tocar nos alto-falantes. Uma vez, Ali declarara que estava cansada de ficar de fora 
da patinao de casais.
        - Por que no patinamos juntas, Em? - sugerira ela, oferecendo a mo a Emily. Emily nunca esqueceria o que sentiu quando passou os braos em volta de Ali. 
Sentir o doce cheiro de ma verde no pescoo dela. Segurar a mo dela quando ela perdeu o equilbrio, roar acidentalmente seu brao, na pele de Ali.
        Emily se perguntou se ela se lembraria desse evento de modo diferente na semana seguinte. Ser que o Tree Tops apagaria esses sentimentos de sua mente do 
mesmo modo que aquela mquina, a Zamboni, alisava todas as marcas dos patins no gelo?
        - Eu j volto - murmurou Emily, cambaleando desajeitadamente sobre as lminas dos patins at o banheiro. L dentro, ela colocou as mos debaixo da gua escaldante 
da pia e olhou para si mesma no espelho embaado.
        O Tree Tops  a deciso correta, disse ao seu reflexo. Era a nica deciso. Depois do Tree Tops, ela provavelmente sairia com rapazes do mesmo jeito que 
Becka saa. Certo?
        Quando voltou ao rinque, notou que Becka e Wendy tinham sado do banco. Emily despencou no assento, pensando que elas tinham ido pegar um lanche, e olhou 
para o rinque na penumbra. Ela viu casais de mos dadas. Outros tentando se beijar enquanto patinavam. Um casal nem tinha chegado ao gelo - eles estavam no meio 
de uma das entradas. A menina estava com as mos no cabelo cacheado do garoto.
        A msica lenta parou de modo abrupto e as luzes fluorescentes acenderam de novo. Emily arregalou os olhos ao ver o casal perto da porta. A menina usava uma 
conhecida faixa de seda no cabelo. Ambos estavam usando patins brancos. Os patins do garoto tinham cadaros da cor do arco-ris. E... ele usava um vestido evas 
rosa.
        Becka e Wendy viram Emily ao mesmo tempo. A boca da Wendy ficou redonda, e ela olhou para o outro lado. Emily sentia que estava tremendo.
        Becka veio em direo a Emily e parou perto dela. Ela exalou uma nuvem de ar frio.
        - Acho que preciso me explicar, no ?
        O gelo tinha um cheiro frio, como de neve. Algum tinha deixado uma nica luva de l de criana no banco ao lado. No rinque, uma criana passou e gritou:
        - Sou um avio!
        Emily olhou para Becka. Seu peito estava apertado.
        - Eu achei que o Tree Tops funcionava - disse Emily, baixinho.
        Becka passou as mos nos seus longos cabelos.
        - Eu tambm achei. Mas depois de ver a Wendy... bem, eu acho que voc entendeu. - Ela puxou as mangas do casaco Fair Isle para cima das mos. - Talvez no 
seja realmente possvel mudar quem voc .
        Uma sensao quente se espalhou pelo estmago de Emily. Pensar que o Tree Tops pudesse mudar algo to profundamente seu a tinha assustado. Parecia to contra 
os princpios do... do ser humano, talvez. Mas no podia. Maya e Becka estavam certas - no d para mudar quem voc .
        Maya. Emily colocou a mo sobre a boca. Ela precisava falar com Maya imediatamente.
        - Hum, Becka - cochichou ela. - Posso pedir um favor? 
        Os olhos de Becka se suavizaram.
        - Claro.
        Emily patinou at a sada.
        - Eu preciso que voc me leve a uma festa. Agora mesmo. Tem algum que eu preciso ver.
31
ELES INFRINGIRAM A LEI
E A LEI VENCEU
Aria semicerrou os olhos encarando o visor da Sony Handycam enquanto Spencer ajustava a coroa de brilhantes falsos colocada sobre sua cabea.
        - Ei, pessoal - sussurrou Spencer, caminhando em direo a um telefone LG que estava largado no sof de couro dos Hastings. - Querem ler as mensagens dela?
        - Eu quero - respondeu Hanna.
        Emily levantou-se do brao do sof de couro.
        - Eu no sei...
        - Ah, vai! Vocs no querem saber quem mandou a mensagem para ela? - questionou Spencer.
        Spencer, Hanna e Emily se amontoaram em volta do telefone celular de Ali. Aria tirou a cmera do trip e chegou mais perto tambm. Queria captar tudo isso 
no filme. Todos os segredos de Ali. Ela deu um zoom para ter uma boa tomada da tela do celular quando, de repente, ouviu uma voz vinda do corredor.
        - Vocs estavam xeretando o meu telefone? - esganiou Ali, entrando na sala.
        -  Claro que no! - gritou Hanna. Ali viu seu celular no sof, mas, ento, Ian e Melissa atraram sua ateno, pois tinham acabado de entrar na cozinha.
        - Ei, garotas. - Ao entrar na sala ntima, ele olhou para Spencer. - Bonita coroa.
        Aria voltou ao seu trip. Spencer, Ian e Ali se juntaram no sof, e Spencer comeou a brincar de apresentadora de programa de entrevistas. De repente, uma 
segunda Ali andou direto para a cmera. Sua pele estava cinza. Suas ris estavam pretas e seu batom rosa-non estava como o de um palhao, em linhas ondulantes em 
volta da boca.
        - Aria. - A Ali zumbi deu um comando, olhando direto na lente. - Veja. A resposta est bem na sua frente.
        Aria franziu a testa. O restante da cena se desenrolava como sempre: Spencer perguntava a Ian sobre o base jumping. Melissa se irritava ao guardar as sacolas 
de compras. A outra Ali, aquela de aparncia normal no sof, parecia entediada.
        - O que voc quer dizer? - sussurrou Aria para a Ali em frente  cmera.
        - Est bem na sua frente - incitou Ali. - Olhe!
        - Tudo bem, tudo bem - concordou Aria mais que depressa.
        Ela alcanou a sala novamente. Spencer estava debruada em Ian, prestando ateno em cada palavra dele. Hanna e Emily estavam empoleiradas na estante, parecendo 
relaxadas e tranquilas. O que Aria deveria estar procurando?
        - Eu no entendo - reclamou ela.
        - Mas est l! - gritou Ali. - Est... bem... ali!
        - Eu no sei o que fazer! - respondeu Aria, impotente.
        - S olhe!
        Aria acordou sobressaltada. A sala estava escura. Suor brotava de seu rosto. A garganta doa. Quando olhou para o lado, viu Ezra deitado ao seu lado e pulou.
        - Tudo bem - disse Ezra rapidamente, passando os braos em volta dela. - Foi s um sonho. Voc est segura.
        Aria piscou e olhou em volta. Ela no estava na sala de estar dos Hastings, mas debaixo das cobertas do futon de Ezra. O quarto, que era bem perto da sala, 
cheirava a naftalina e perfume de velha, o mesmo cheiro de todas as casas antigas de Hollis. Uma brisa leve e relaxante ondulava as cortinas, e um boneco cabeudo 
de William Shakespeare se destacava na escrivaninha. Os braos de Ezra estavam em torno dos ombros de Aria. Os ps descalos dele encostaram em seus tornozelos.
        - Pesadelo? - perguntou Ezra. -Voc estava gritando. 
        Aria hesitou. Estaria o seu sonho tentando dizer alguma coisa?
        - Estou bem - decidiu ela. - Foi apenas um daqueles pesadelos estranhos.
        -Voc me assustou. - Ezra apertou-a mais forte.
        Aria esperou at que sua respirao voltasse ao normal, ouvindo o mensageiro de vento de madeira em formato de peixe batendo na janela. Ento, notou que 
os culos de Ezra estavam tortos.
        -Voc dormiu de culos?
        Ezra colocou a mo no nariz.
        -Acho que sim - disse ele, sem jeito. - Eu sempre caio no sono com eles.
        Aria debruou-se para a frente e o beijou. 
        -Voc  to esquisito.
        - No to esquisito quanto voc, escandalosa - provocou Ezra, puxando-a para cima dele. - Eu vou te pegar. - Ele comeou a fazer ccegas na cintura dela.
        -  No! - Aria tremeu, tentando se desvencilhar dele. - Para!
        - Ah - urrou Ezra. Mas as ccegas rapidamente viraram carcias e beijos. Aria fechou os olhos e deixou as mos dele passearem sobre ela. Ento, Ezra caiu 
no travesseiro de novo. - Eu queria que pudssemos ir embora e viver em outro lugar.
        - Eu conheo a Islndia muito bem - sugeriu Aria. - E o que voc acha da Costa Rica? Ns poderamos ter um macaco. Ou, talvez, Capri. Ns poderamos passear 
na Gruta Azul.
        - Eu sempre quis ir para Capri - disse Ezra, suavemente. -Poderamos viver na praia e escrever poemas.
        -  S se nossos macacos puderem escrever poemas com a gente - barganhou Aria.
        -  Claro. - Ezra beijou o nariz dela. - Ns podemos ter quantos macacos voc quiser.
        Ele tinha um olhar distante no rosto, como se estivesse realmente considerando a possibilidade. Aria sentiu suas entranhas incharem. Ela nunca ficara to 
feliz. Aquilo parecia... certo. Eles fariam funcionar. Ela ia dar um jeito no resto de sua vida - Sean, A, seus pais - no dia seguinte.
        Aria se aconchegou em Ezra. Ela voltou a cochilar, pensando em macacos danarinos e praias de areia branca, quando, de repente, ouviu um barulho na porta 
da frente. Antes que Aria e Ezra pudessem reagir, a porta partiu-se ao meio e dois policiais entraram. Aria gritou. Ezra sentou-se e arrumou a cueca, que tinha desenhos 
de ovos fritos, salsichas e panquecas por todo lado. As palavras Caf da manh gostoso! estavam escritas em volta do elstico da cintura. Aria se escondeu embaixo 
das cobertas - ela usava uma enorme camiseta de Ezra, com a inscrio Universidade de Hollis, que mal cobria suas coxas.
        Os policiais entraram pela sala de Ezra e seguiram para o quarto. Apontaram suas lanternas primeiro para Ezra, depois para Aria. Ela enrolou os lenis com 
mais fora ao redor do corpo, procurando no cho por suas roupas, a calcinha e o suti. Elas haviam sumido.
        -Voc  Ezra Fitz? - O policial que fez a pergunta era um homem musculoso, com braos de Popeye e um cabelo preto ensebado.
        - Hum... sim - gaguejou Ezra.
        - E voc leciona na Escola Rosewood Day? - perguntou Popeye. - E essa menina?  sua a/una?
        - O que diabos est acontecendo? - Ezra tremia. 
        -Voc est preso. - Popeye soltou as algemas do cinto.
        O outro policial, mais baixo, mais gordo e com uma pele brilhante que Aria podia descrever apenas como da cor de presunto, arrancou Ezra da cama. Os lenis 
cinzentos, esgarados, foram com ele, mostrando as pernas nuas de Aria. Ela gritou e caiu do outro lado da cama para se esconder. Achou um par de calas de pijamas 
xadrez embolados atrs do aquecedor. Enfiou as pernas nelas o mais rpido que pde.
        -Voc tem o direito de permanecer calado - comeou o cara de presunto. - Tudo que disser pode e ser usado contra voc pela justia.
        - Espere! - gritou Ezra.
        Mas os policiais nem ouviram. O cara de presunto girou Ezra e colocou as algemas em seus pulsos. Ele olhou com nojo para o futon de Ezra. A camiseta e o 
jeans de Ezra estavam embolados perto da cabeceira. De repente, Aria se deu conta de que o suti de renda que ela tinha mandado fazer na Blgica estava jogado em 
uma das pilastras da cama. Ela rapidamente o tirou de l.
        Eles empurraram Ezra pela sala e porta afora, que estava precariamente pendurada pela beirada. Aria correu atrs deles, nem se preocupando em colocar seus 
Vans xadrez, que ficaram esperando, na segunda posio de bal, no cho, perto da televiso.
        -Vocs no podem fazer isso! - gritou ela.
        - Ns vamos cuidar de voc depois, menininha - grunhiu Popeye.
        Ela hesitou na entrada mal iluminada e sombria. Os policiais seguraram Ezra como se ele fosse um paciente psiquitrico muito magro. O cara de presunto pisou 
algumas vezes nos ps descalos de Ezra. Isso fez com que Aria o amasse ainda mais.
        Enquanto eles cambaleavam porta afora para a varanda da frente, Aria notou que algum mais estava no corredor com ela. Ela ficou boquiaberta.
        - Sean - disse ela. - O que... o que voc est fazendo aqui? 
        Sean estava espremido contra a caixa do correio cinza, olhando para Aria com apreenso e desapontamento.
        -  O que voc est fazendo aqui? - exigiu ele, olhando direto para a enorme cala de pijama de Ezra, que estava ameaando cair pelos calcanhares de Aria. 
Ela imediatamente as puxou para cima.
        - Eu ia explicar - balbuciou Aria.
        - Ah, ia? - Sean a desafiou, colocando as mos na cintura. Ele parecia mais incisivo naquela noite, mau. No o Sean delicado que ela conhecia. - H quanto 
tempo voc est com ele?
        Aria olhou silenciosamente para um recibo enrolado, do supermercado Acme, que havia cado no cho.
        - Eu pus todas as suas coisas na mala - continuou Sean, sem nem mesmo esperar pela resposta dela. - Est na entrada. Voc nem pense em voltar para a minha 
casa.
        - Mas... Sean... - disse Aria, enfraquecida. - Para onde eu vou?
        - No  problema meu - rebateu ele, e saiu pisando forte, pela porta da frente.
        Aria sentiu-se tonta. Pela porta aberta, podia ver os policiais levando Ezra pela entrada e o enfiando numa viatura da polcia de Rosewood. Depois de baterem 
a porta, Ezra olhou para sua casa de novo. Ele olhou para Aria, depois para Sean, e ento para ela de novo. Havia um olhar em seu rosto como se houvesse sido trado.
        Uma luz se acendeu acima da cabea de Aria. Ela seguiu Sean at a varanda e segurou seu brao.
        -Voc chamou a polcia, no chamou?
        Sean cruzou os braos sobre o peito e olhou para o outro lado. Ela ficou tonta e nauseada, e segurou no balano enferrujado azul-acinzentado da varanda para 
se equilibrar.
        - Bem, quando eu recebi isto... - Sean sacou seu celular e o ps perto do rosto de Aria. Na tela, estava uma foto de Aria e Ezra se beijando, no escritrio 
de Ezra. Sean apertou a seta lateral. Havia outra foto deles se beijando, de um ngulo diferente.
        - Eu achei que devia avisar s autoridades que um professor estava com uma aluna. - Os lbios de Sean se curvaram ao falar a palavra aluna, como se isso 
fosse repugnante para ele. - E dentro da escola - adicionou ele.
        - Eu no quis magoar voc - sussurrou Aria. E, ento, ela notou a mensagem de texto que acompanhou a ltima foto. Seu corao afundou.
        Caro Sean, eu acho que a namorada de algum tem MUITO o 
        que explicar. - A.
32
AMANTES NEM-TO-
SECRETAS-ASSIM
- E elas estavam uma por cima da outra! - Emily tomou um grande gole da sangria que Maya tinha pegado para elas do bar do planetrio.-Todo esse tempo, eu estive 
com medo que eles pudessem, tipo, mudar voc, mas acabou que isso  uma farsa! Minha mentora voltou com a namorada e tudo mais!
        Maya lanou um olhar doido para Emily, cutucando-a nas costelas.
        -Voc realmente pensou que eles pudessem mudar voc?
        Emily se inclinou para trs.
        - Eu acho que isso  idiota, no ?
        -  Sim. - Maya sorriu. - Mas eu tambm estou feliz que essa coisa no funcione.
        Cerca de uma hora atrs, Becka e Wendy tinham deixado Emily na festa de Mona e ela havia vasculhado todos os lugares  procura de Maya, morrendo de medo 
de que ela tivesse ido embora - ou, pior, que ela estivesse com outra pessoa. Ela tinha achado Maya sozinha, perto da cabine do DJ, usando um vestido listrado branco 
e preto e sapatos de boneca de verniz de salto alto. Seu cabelo estava preso com presilhas de borboletas brancas.
        Elas tinham escapado para o lado de fora, indo para uma parte gramada do jardim do planetrio. Podiam ver a festa bombando pelas janelas altas de vidro fosco, 
mas no dava para ouvir nada. rvores frondosas, telescpios e arbustos podados em forma de planetas preenchiam o jardim. Alguns dos convidados tinham sado e estavam 
sentados do outro lado do ptio, fumando e rindo, e havia um casal dando uns amassos perto do arbusto gigante podado no formato de Saturno, mas Emily e Maya estavam 
isoladas. Elas no tinham se beijado nem nada, mas estavam olhando para o cu casualmente. Devia ser quase meia-noite, que era o horrio normal de Emily voltar para 
casa, mas ela tinha ligado para a me para dizer que ia dormir na casa de Becka. Becka tinha concordado em confirmar a histria, se necessrio.
        - Olha. - Emily apontou para as estrelas. - Aquele aglomerado ali em cima. No parece que elas poderiam formar um "E" se voc desenhasse umas linhas entre 
elas?
        - Onde? - Maya apertou os olhos.
        Emily posicionou o queixo de Maya corretamente.
        - H estrelas perto dessas que formam um M. - Ela sorriu na escurido. - E e M. Emily e Maya. , como um sinal.
        -Voc e seus sinais - suspirou Maya. Elas ficaram confortavelmente silenciosas por um segundo.
        - Eu estava furiosa com voc - confessou Maya, suavemente. - Terminando comigo l no forno de cermica daquele jeito. Se recusando at mesmo a olhar para 
mim na estufa.
        Emily apertou as mos e olhou para as constelaes. Um jatinho passou, trs quilmetros acima.
        - Desculpe - disse ela. - Eu sei que no fui exatamente justa.
        Maya olhou cuidadosamente para Emily. Glitter cor de bronze dava brilho a sua testa, bochechas e nariz. Ela estava mais bonita do que nunca.
        - Posso segurar a sua mo? - sussurrou ela.
        Emily olhou para sua prpria mo quadrada e rude. Ela tinha segurado lpis, pincis e pedaos de giz. Segurado o pdio de largada nas competies de natao. 
Segurado um balo no desfile de boas-vindas do time de natao. Segurara a mo de seu namorado Ben... e tinha at segurado a mo de Maya, mas parecia que desta vez 
era mais oficial. Era real.
        Ela sabia que havia pessoas em volta. Mas Maya estava certa - todos j sabiam. A pior parte j tinha passado, e ela sobrevivera. Estava muito infeliz com 
Ben, e no estava enganando ningum com o Toby. Talvez devesse se assumir. No momento em que Becka disse aquilo, Emily sabia que ela estava certa: no podia mudar 
quem ela era. A ideia era apavorante, mas a deixava arrepiada.
        Emily tocou a mo de Maya. Primeiro, de leve; depois, mais forte.
        - Eu amo voc, Em - disse Maya, apertando-a de volta. - Eu amo voc demais.
        - Eu tambm amo voc - repetiu Emily, quase automaticamente. E ela se deu conta. Mais do qualquer outra pessoa, at mais do que Ali. Emily tinha beijado 
Ali e, por meio segundo, Ali a beijara de volta. Mas, ento, tinha parado, enojada. Ela rapidamente comeou a falar de um menino em quem ela estava realmente muito 
interessada, um menino cujo nome ela no diria a Emily porque Emily poderia "realmente enlouquecer". Emily ento imaginara se havia mesmo um menino, ou se Ali dissera 
aquilo para desfazer o momento em que tinha beijado Emily. Para dizer eu no sou lsbica. De jeito nenhum.
        Todo esse tempo, Emily tinha fantasiado sobre como as coisas teria sido se Ali no tivesse desaparecido, e se aquele vero e sua amizade tivessem continuado 
como planejado. Agora ela sabia: no teria continuado. Se Ali no tivesse desaparecido, ela teria se distanciado cada vez mais de Emily. Mas talvez Emily ainda assim 
tivesse achado seu caminho at Maya.
        -Voc est bem? - perguntou Maya, percebendo o silncio de Emily.
        - Sim.
        Elas se sentaram em silncio por alguns minutos, de mos dadas. Ento, Maya levantou a cabea, franzindo o cenho para alguma coisa dentro do planetrio. 
Emily seguiu os olhos dela at uma figura sombria, olhando diretamente para elas. A figura bateu no vidro, fazendo Emily pular.
        - Quem ? - murmurou Emily.
        -  Quem quer que seja - disse Maya, olhando de lado -, est vindo aqui para fora.
        Todos os pelos do corpo de Emily se arrepiaram. A? Ela correu para trs. Ento, ouviu uma voz muito familiar.
        - Emily Catherine Fields! Venha at aqui! 
        Maya ficou boquiaberta.
        - Ai, meu Deus.
        A me de Emily caminhou para as luzes do jardim. Seu cabelo estava despenteado, ela estava sem maquiagem, usava uma camiseta surrada e seus tnis de lona 
estavam desamarrados. Estava ridcula em meio  multido de arrumadinhos da festa. Alguns jovens vieram at ela.
        Emily, desajeitadamente, se desvencilhou do gramado.
        - O... o que voc est fazendo aqui?
        A sra. Fields segurou o brao de Emily.
        -Voc  inacreditvel. Recebi um telefonema quinze minutos atrs dizendo que voc estava com ela. E no acreditei! Que boba eu sou! Eu no acreditei! Eu 
disse que estavam mentindo!
        - Me, eu posso explicar!
        A sra. Fields parou e cheirou o ar em volta do rosto de Emily. Seus olhos se arregalaram.
        -Voc andou bebendo! - gritou ela, enraivecida. - O que aconteceu com voc, Emily?
        Ela baixou os olhos para Maya, que estava sentada bem quieta na grama, como se a sra. Fields tivesse apertado o boto de pausa num aparelho de DVD.
        -Voc no  mais minha filha.
        - Me! - gritou Emily. Parecia que a me tinha atirado uma chapinha de cabelo nos seus olhos. Essa afirmao soava to... absoluta. To definitiva.
        A sra. Fields a arrastou para o portozinho que levava do jardim para uma viela nos fundos que, por sua vez, levava  rua. 
        -Vou ligar para Helene quando chegarmos em casa.
        - No! - Emily se desvencilhou, depois encarou sua me de frente, do mesmo jeito que um lutador de sum faz quando est prestes a lutar. - Como voc pode 
dizer que no sou mais sua filha? - esganiou ela. - Como voc pode me mandar embora?
        A sra. Fields estendeu a mo para pegar o brao de Emily de novo, mas os sapatos de Emily prenderam numa falha do gramado. Ela caiu para trs, batendo no 
cho com seu cccix, sentindo uma dor lvida, que a cegou por um momento. 
        Quando abriu os olhos, sua me estava em cima dela.
        - Levante. Vamos.
        - No! - urrou Emily. Ela tentou levantar, mas as unhas de sua me se enterraram no seu brao. Emily lutou, mas sabia que era em vo. Ela olhou para Maya 
uma ltima vez. Ela ainda no tinha se movido. Os olhos de Maya estavam arregalados e chorosos, e ela parecia pequenina e solitria. Pode ser que eu nunca a veja 
de novo, pensou Emily.  isso.
        -  O que tem de errado com isso? - gritou ela para sua me. - O que tem de to errado em ser diferente? Como voc pode me odiar por isso?
        As narinas da me se dilataram. Ela fechou os punhos e abriu a boca, pronta para gritar alguma coisa de volta. E, ento, de sbito, ela pareceu murchar. 
Ela se virou de costas e fez um barulhinho no fundo da garganta. De repente, pareceu to desgastada. E amedrontada. E envergonhada. Sem nenhuma maquiagem e vestindo 
pijamas, parecia vulnervel. Havia uma vermelhido em volta dos seus olhos, como se tivesse chorado por muito tempo.
        - Por favor. Apenas vamos embora.
        Emily no sabia mais o que fazer, a no ser se levantar. Ela seguiu a me pela viela escura e deserta at o estacionamento, onde viu o conhecido Volvo. O 
funcionrio do estacionamento olhou para sua me e deu uma fungada de censura para Emily, como se a sra. Fields tivesse explicado por que estava parando ali e buscando 
Emily na festa.
        Emily se jogou no banco da frente. Seus olhos pousaram na roda laminada do anncio do disque-horscopo, que estava no banco. A roda mostrava todos os signos 
do horscopo de acordo com os doze meses daquele ano, ento, Emily puxou-a, girou a roda para Touro, seu signo, e olhou as previses para outubro. Seus relacionamentos 
amorosos se tornaro mais satisfatrios e realizadores. Seus relacionamentos podem ter causado dificuldades com outros no passado, mas tudo ser mais fcil daqui 
para a frente.
        R, pensou Emily. Ela jogou o carto do horscopo pela janela. No acreditava mais naquilo, de qualquer forma. Ou em sinais, ou em signos ou em qualquer 
coisa que dissesse que tudo acontece por uma razo. Qual era a razo de isso estar acontecendo?
        Um calafrio tomou conta dela. Eu recebi uma ligao quinze minutos atrs dizendo que voc estava com ela.
        Ela vasculhou sua bolsa, seu corao disparado. Seu telefone tinha uma nova mensagem. Estava na caixa de entrada havia quase duas horas.
        Em, eu estou vendo voc! E se no parar com isso, vou ligar 
        para voc-sabe-quem. -A
        Emily colocou as mos sobre os olhos. Por que A simplesmente no a matara em vez daquilo?
33
ALGUM FEZ BESTEIRA.
E DAS GRANDES.
Primeiro, Lucas deu a Hanna uma camiseta velha de Rosewood Day e um short de ginstica que estavam no carro dele.
        - Uma guia Escoteira est sempre preparada para qualquer coisa - proclamou ele.
        Em segundo lugar, encaminhou Hanna  sala de leitura da Universidade de Hollis,para que ela pudesse se trocar. A sala de leitura ficava algumas ruas do planetrio 
acima. O lugar era simplesmente isso - uma grande sala, numa casa do sculo XIX, completamente devotada ao esfriamento de nimos e  leitura. Cheirava a fumaa de 
cachimbo e a volumes velhos com capa de couro, e era lotada de todos os tipos de livros, mapas, globos, enciclopdias, revistas, jornais, tabuleiros de xadrez, sofs 
de couro e confortveis namoradeiras de dois lugares. Tecnicamente, era aberta apenas a estudantes e professores, mas era fcil conseguir entrar pela porta lateral.
        Hanna entrou no banheiro minsculo, tirou o vestido rasgado e o jogou na lata de lixo cromada, socando para que coubesse l dentro. Ela saiu do banheiro, 
se jogou no sof perto de Lucas e simplesmente... perdeu o controle. Soluos que haviam ficado guardados dentro dela por semanas - talvez anos -explodiram.
        - Ningum mais vai gostar de mim - disse ela, engasgada, entre soluos. - E eu perdi Mona para sempre.
        Lucas passou a mo no cabelo dela.
        - Est tudo bem. Ela no merece voc mesmo.
        Hanna chorou at que seus olhos incharam e a garganta doeu. Finalmente, colocou a cabea no peito de Lucas, que era mais slido do que parecia. Eles ficaram 
l, em silncio, por um tempo. Lucas passou a mo nos cabelos dela.
        - O que fez voc ir  festa? - perguntou ela, depois de um tempo. - Eu pensei que voc no tinha sido convidado.
        - Eu fui convidado. - Lucas baixou os olhos. - Mas... eu no ia. Eu no queria que voc ficasse mal, e queria passar a noite com voc.
        Fagulhas de nusea bateram no estmago de Hanna.
        - Desculpe - disse ela, baixinho. - Por cancelar nosso jogo de pquer na ltima hora para ir  estpida festa da Mona.
        - Est tudo bem. No importa.
        Hanna olhou para Lucas. Ele tinha olhos de um azul to suave e bochechas rosadas muito fofas. Era muito importante para ela. Estava sempre consumida por 
fazer a coisa certa o tempo todo - usar a roupa perfeita, escolher o toque de celular perfeito, manter seu corpo na forma perfeita, ter a melhor amiga perfeita e 
o namorado perfeito - mas de que servia toda essa perfeio? Talvez Lucas fosse perfeito, s que de um jeito diferente. Ele se importava com ela.
        Hanna no sabia ao certo o que tinha acontecido, mas eles tinham sentado em uma das namoradeiras de couro rachado, e ela estava no colo dele. Estranhamente, 
no sentiu que estava quebrando as pernas de Lucas. No vero anterior, para se preparar para sua viagem com a famlia de Sean para Cape Cod, Hanna no tinha comido 
nada alm de toranjas e pimenta-de-caiena, e no tinha deixado Sean toc-la enquanto estava de mai, com medo de que ele a achasse molenga. Com Lucas, ela no se 
preocupava.
        Seu rosto se moveu para perto do de Lucas. O rosto dele aproximou-se do dela. Ela sentiu os lbios dele tocarem seu queixo, depois, o lado de sua boca, em 
seguida, a prpria boca. Seu corao disparou. Os lbios dele se insinuaram contra os dela. Ele a puxou para perto. O corao de Hanna estava batendo to rpida 
e animadamente que ela temia que fosse estourar. Lucas segurou a cabea de Hanna entre as suas mos e beijou suas orelhas. Hanna riu.
        - O qu? - Lucas a soltou.
        - Nada. - Hanna sorriu. - Eu no sei.  divertido.
        Era divertido - nada como as sesses de beijo importantes e srias que tivera com Sean, quando sentia que uma junta de juzes estava dando notas para cada 
beijo. Lucas era relaxado, tranquilo e muito alegre, como um menino-labrador. A cada pequeno intervalo, ele a segurava e apertava. Num dado momento, comeou a fazer 
ccegas nela, e Hanna se contorceu e caiu do sof direto no cho.
        No final, eles estavam deitados em um dos sofs, Lucas em cima dela, suas mos acariciando em todas as direes sua barriga nua. Ele tirou a camisa e encostou 
o peito contra o dela. Depois de um tempo, eles pararam e ficaram ali, sem falar nada. Os olhos de Hanna passaram por todos os livros, jogos de xadrez e bustos de 
autores famosos. Ento, de repente, ela se sentou.
        Algum estava olhando pela janela.
        - Lucas! - Ela apontou para uma forma negra movendo-se em direo  porta lateral.
        -  No se apavore. - Lucas saiu do sof e se arrastou em direo  porta. Os arbustos balanaram. Uma fechadura comeou a virar. Hanna se agarrou ao brao 
de Lucas.
        A estava l.
        - Lucas...
        -  Shhh. - Outro clique. Em algum lugar, uma fechadura estava girando. Algum estava entrando. Lucas levantou a cabea para ouvir. Agora havia passos vindo 
da sala dos fundos. Hanna deu um passo para trs. O piso rangeu. Os passos estavam prximos.
        - Ol? - Lucas pegou sua camiseta e a colocou de trs para a frente. - Quem est a?
        Ningum respondeu. Mais rangidos. Uma sombra apareceu na parede.
        Hanna olhou em volta e pegou a maior coisa que conseguiu achar - um Almanaque do Fazendeiro, de 1972. De repente, uma luz se acendeu. Hanna gritou e levantou 
o almanaque acima de sua cabea. Parado na frente deles estava um homem velho, de barba. Ele usava uns culos pequenos de armao de arame e uma jaqueta de lona 
e ps as mos acima da cabea, em sinal de rendio.
        -  Sou do departamento de histria! - desembuchou o velho. - Eu no consegui dormir. Eu vim aqui para ler... - Ele olhou para Hanna de um jeito estranho. 
Hanna percebeu que a gola da camiseta de Lucas estava puxada para o lado, deixando um dos ombros  mostra. O corao de Hanna comeou a se acalmar. Ela colocou o 
livro de volta na mesa.
        - Desculpe - disse ela. - Eu pensei...
        -  melhor ns irmos, de qualquer forma. - Lucas andou para o lado do velho e puxou Hanna para fora, pela porta lateral. Quando estavam perto do porto de 
ferro da frente da casa, ele desatou a rir.
        - Voc viu a cara do homem? - gritou ele. - Ele estava apavorado!
        Hanna tentou rir junto, mas estava muito nervosa.
        - Ns devemos ir - sussurrou ela com a voz falhando. - Eu quero Ir para casa.
        Lucas caminhou com Hanna at o estacionamento da festa de Mona. Ela deu ao manobrista o recibo para o seu Prius. Quando ele o trouxe de volta, ela obrigou 
Lucas a vasculhar o carro todo para ter certeza de que ningum estava escondido atrs do banco. Quando estava s e salva dentro do carro, com a porta trancada, Lucas 
bateu de leve na janela e disse que ligaria para ela no dia seguinte. Hanna olhou-o indo embora, animada e horrivelmente distrada.
        Ela olhou para a sada em espiral do planetrio. A cada dez metros havia uma faixa anunciando a nova exposio. O BIG BANG, elas diziam, mostrando uma foto 
do universo explodindo. Quando o telefone de Hanna tocou, ela pulou com tanta violncia que quase rasgou o cinto de segurana. Ela encostou no ponto de parada de 
nibus e pegou o telefone de sua bolsa com os dedos trmulos. Tinha uma nova mensagem de texto.
        Ops, acho que no era lipo! No acredite em tudo que ouve! - A
        Hanna olhou para cima. A rua do lado de fora do planetrio estava tranquila. Todas as velhas casas estavam bem-fechadas e no havia uma alma viva na rua. 
Uma brisa soprou, fazendo a bandeira da varanda de uma antiga casa vitoriana balanar e uma sacola de folhas no gramado da frente agitar-se.
        Hanna olhou de volta para a mensagem. Aquilo era estranho. A ltima mensagem no era de um nmero desconhecido, como as outras, mas de um nmero identificado. 
E era um nmero 610 - cdigo de rea de Rosewood.
        O nmero pareceu conhecido, embora Hanna nunca guardasse nmero algum. Ela tinha celular desde o stimo ano e desde ento se valia do boto de discagem automtica. 
Porm, havia algo naquele nmero...
        Hanna cobriu a boca com a mo.
        - Ai, meu Deus - sussurrou ela. Ela pensou mais um pouco. Seria realmente possvel?
        De repente, Hanna soube exatamente quem era A.
34
EST BEM A NA SUA FRENTE
- Outro caf? - Uma garonete que cheirava a queijo grelhado e que tinha uma enorme verruga no queixo veio at Aria, balanando uma garrafa trmica de caf.
        Aria olhou para sua caneca quase vazia. Seus pais provavelmente diriam que este caf estava cheio de carcingenos, mas o que eles sabiam? 
        - Claro.
        Era a esse ponto que coisas tinham chegado. Aria sentada numa cabine na lanchonete perto da casa de Ezra, em Old Hollis, com todos os seus bens terrenos 
- seu laptop, sua bicicleta, suas roupas, seus livros - em volta dela. No tinha um lugar para ir. Nem a casa de Sean, nem a de Ezra, nem mesmo a casa de sua famlia. 
A lanchonete era o nico lugar aberto agora, a no ser que se considerasse o Taco Bell 24 horas, que era um lugar cheio de drogados.
        Ela olhou para seu Treo, ponderando suas opes. Finalmente, ligou para o nmero de sua casa. O telefone tocou seis vezes antes de a secretria eletrnica 
atender.
        - Obrigada por ligar para os Montgomery - disse a voz alegre de Ella. - Ns no estamos em casa agora...
        Por favor. Onde diabos Ella estaria depois da meia-noite de um sbado?
        - Me, atende - disse Aria para a secretria, depois do bip. - Eu sei que est a. - Nada ainda. Ela suspirou. - Oua. Preciso ir para casa esta noite. Terminei 
com meu namorado. No tenho nenhum lugar para ficar. Estou sentada numa lanchonete, sem-teto.
        Ela parou, esperando que Ella respondesse. Mas a me no atendeu. Aria podia imagin-la parada perto do telefone, ouvindo. Ou talvez realmente no estivesse 
perto do telefone.  Talvez tivesse ouvido a voz de Aria e voltado para o seu quarto no andar de cima.
        - Me, estou em perigo - implorou ela. - Eu no posso explicar como, exatamente, mas estou... estou com medo de que acontea alguma coisa comigo.
        Bip. A secretria eletrnica desligou. Aria deixou o telefone cair na mesa de frmica. Ela podia ligar de novo, mas de que adiantaria? Ela quase podia ouvir 
a voz da me: eu no consigo nem olhar para voc agora.
        Ela levantou a cabea, pensando em uma opo. Lentamente, Aria pegou seu Treo de novo e passou pelas suas mensagens de texto. A mensagem de Byron com o nmero 
dele ainda estava l. Respirando fundo, ela ligou. A voz sonolenta de Byron atendeu.
        -  Aria - disse ela baixinho.
        - Aria? - repetiu Byron. Ele pareceu chocado. - So... duas da manh.
        - Eu sei.
        A jukebox da lanchonete trocou de disco. A garonete juntou duas garrafas de ketchup. As ltimas pessoas que restavam perto de Aria levantaram de sua cabine, 
deram tchau para a garonete e se dirigiram  porta de frente. O sino que indicava que a lanchonete estava prestes a fechar tocou.
        Byron quebrou o silncio.
        - Bem,  bom ter notcias suas.
        Aria dobrou os joelhos no peito. Ela queria dizer que ele tinha estragado tudo, fazendo-a guardar o segredo dele, mas estava acabada demais para brigar. 
E, tambm... parte dela realmente sentia falta de Byron. Ele era seu pai, o nico que ela tinha. Ele tinha tirado uma serpente que entrara no caminho de Aria durante 
uma escalada no Grand Canyon. Ele tinha ido falar com o professor de artes de Aria no quinto ano, o sr. Cunningham, quando ele deu a ela um F porque ela tinha feito 
um autorretrato com escamas verdes e uma lngua bifurcada.
        - Seu professor simplesmente no entende expressionismo ps-moderno - dissera Byron, pegando seu casaco para ir  batalha. Byron costumava peg-la, jog-la 
nos ombros, carreg-la para cama, acomod-la nos lenis. Aria sentia falta daquilo. Ela precisava dessas coisas. Ela queria contar a ele que estava em perigo. E 
queria que ele dissesse "Eu vou proteger voc". Ele diria isso, no diria?
        Mas, ento, ela ouviu a voz de outra pessoa ao fundo.
        - Est tudo bem, Byron? 
        Aria se arrepiou. Meredith.
        -J vou, em um segundo - respondeu Byron.
        Aria fumegou. Um segundo? Era esse tempo que ele planejava devotar quela conversa? A voz de Byron voltou ao telefone.
        - Aria? Ento... o que aconteceu?
        - Deixa para l - disse Aria, gelada. -Volte para a cama, ou para o que quer que voc estivesse fazendo.
        - Aria... - comeou Byron.
        - Srio, v - insistiu Aria, severa. - Esquea que eu liguei. 
        Ela apertou DESLIGAR e colocou a cabea na mesa. Tentou inspirar e expirar, pensando em coisas calmas, como o oceano, ou andar de bicicleta, ou a despreocupao 
de tricotar um cachecol.
        Alguns minutos depois, olhou em volta pela lanchonete e se deu conta que era a nica pessoa l. Os bancos velhos e desbotados do balco estavam vazios, todas 
as cabines estavam limpas. Duas garrafas de caf estavam nos aquecedores atrs do balco, e a tela da caixa registradora ainda brilhava BEM-VINDO, mas as garonetes 
e os cozinheiros tinham desaparecido. Era como um daqueles filmes de terror nos quais, de algum jeito, de repente, a personagem principal olha em volta e encontra 
todo mundo morto.
        O assassino de Ali est mais perto do que voc imagina.
        Por que A no contava de uma vez quem era o assassino? Ela estava cansada de brincar de Scooby-Doo. Aria pensou em seu sonho de novo, em como a Ali plida 
e fantasmagrica tinha entrado na frente da cmera.
        -  Olhe de perto! - gritara ela. - Est bem na sua frente! Est bem a!
        Mas o que estava bem a? O que Aria no tinha visto?
        A garonete com a verruga apareceu atrs do balco e olhou para Aria.
        -  Quer um pedao de torta? A de ma at que d para engolir. E por conta da casa.
        - E-estou bem - gaguejou Aria.
        A garonete apoiou o quadril em um dos bancos cor-de-rosa do balco. Ela tinha o tipo de cabelo encaracolado que sempre parecia molhado.
        -Voc soube do perseguidor?
        - Arr - respondeu Aria.
        -Voc sabe o que eu ouvi? Dizem que  algum rico.
        Como Aria no respondeu, ela voltou a limpar uma mesa que j estava limpa.
        Aria piscou algumas vezes. Olhe de perto, Ali havia dito. Ela pegou sua bolsa estilo carteiro e abriu o laptop. Levou um tempo para ligar, e depois um tempo 
ainda maior para Aria achar o arquivo em que seus vdeos estavam guardados. Fazia tanto tempo que no procurava por eles. Quando finalmente desenterrou o arquivo, 
percebeu que nenhum deles estava nomeado de forma muito clara. Estavam intitulados como, por exemplo: Ns cinco, n" 1, ou Ali e Eu, n. 6, e as datas eram das ltimas 
vezes que tinham sido vistos, no de quando haviam sido filmados. Ela no tinha ideia de como achar o vdeo que tinha vazado para a imprensa... a no ser assistindo 
a todos.
        Ela clicou aleatoriamente num vdeo chamado Miau!. Aria, Ali e as outras estavam no quarto de Ali. Elas estavam se matando para vestir a gata Himalaia de 
Ali, Charlotte, com um casaco de tric, rindo enquanto enfiavam suas patas nos buracos das mangas.
        Ela mudou para outro, chamado Briga, n. 5, mas no era o que ela achava que seria - ela, Ali, e as outras estavam fazendo biscoitos de raspas de chocolate 
e comearam uma guerra de comida, jogando massa de biscoito por toda a cozinha de Hanna. Em outro, estavam jogando tot no poro de Spencer.
        Quando Aria clicou num novo arquivo de imagem, que se chamava simplesmente DQ, notou algo.
        Pelo corte de cabelo de Ali e todas as suas roupas quentes, o vdeo era de mais ou menos um ms, antes do desaparecimento dela. Aria tinha dado zoom numa 
tomada de Hanna devorando em tempo recorde um sorvete Dairy Queen Blizzard. Ao fundo, ouviu Ali comear a fingir barulhos de vmito. Hanna parou, e seu rosto ficou 
plido. Ali riu, ao fundo. Ningum mais pareceu notar.
        Uma sensao estranha tomou conta de Aria. Ela tinha ouvido rumores de que Hanna tinha bulimia. Parecia algo que A - e Ali - sabiam.
        Clicou em outro. Elas estavam dando uma olhada no que estava passando na televiso, mudando de canais na casa de Emily. Ali parou num que exibia a parada 
gay, que acontecera na Filadlfia naquele dia. Ela apontou para Emily e riu.
        - Isso  engraado, no , Em? - Emily ficou vermelha e colocou o capuz do casaco na cabea. Nenhuma das outras deu a mnima.
        E outro. Este tinha apenas dezesseis segundos. As cinco estavam espalhadas perto da piscina de Spencer. Todas elas usavam enormes culos de sol da Gucci 
- ou, no caso de Emily e Aria, imitaes. Ali sentou-se e baixou os culos at o nariz.
        - Ei Aria - disse ela, abruptamente. - O que o seu pai faz, tipo, quando h garotas gostosas nas classes dele?
        O vdeo acabou. Aria lembrava-se daquele dia - tinha sido pouco depois que Ali e ela tinham visto Byron e Meredith se beijando no carro, e Ali comeara a 
dar indicaes de que iria contar s outras.
        Ali realmente sabia de todos os segredos, e os estava esfregando na caras delas. Estava tudo diante delas, e elas no perceberam. Ali sabia de tudo. Sobre 
todas elas. E agora, A tambm sabia.
        Exceto... qual era o segredo de Spencer?
        Aria clicou em outro vdeo. Finalmente, viu a cena familiar. Havia Spencer, sentada no sof, com aquela coroa na cabea.
        - Querem ler as mensagens dela? - Ela apontou para o telefone LG de Ali, que estava largado entre as almofadas do sof.
        Spencer abriu o celular de Ali.
        - Est bloqueado.
        -Vocs sabem a senha dela? - Aria ouviu sua prpria voz perguntar.
        - Tenta o aniversrio dela - sussurrou Hanna. 
        -Vocs estavam xeretando o meu telefone? - gritou Ali. 
        O telefone se espatifou no cho. S ento, a irm mais velha da Spencer, Melissa, e seu namorado, Ian, passaram pela cmera. Os dois sorriram para as lentes.
        - Oi, pessoal - disse Melissa. - Tudo bem?
        Spencer piscou. Ali parecia entediada. A cmera deu um dose em seu rosto e desceu para o telefone fechado.
        - Ah, esse  o vdeo a que eu assisti no jornal - disse uma voz atrs de Aria. A garonete estava debruada no balco, lixando as unhas com uma lixa do Piu-Piu.
        Aria parou o vdeo e virou-se.
        - O qu?
        A garonete ficou vermelha.
        -  Ops. Quando no tem movimento por aqui, eu me torno minha irm gmea maligna. Eu no olhei de propsito para o seu computador.  s que... aquele pobre 
garoto...
        Aria franziu a testa para ela. Ela notou pela primeira vez que o crach da garonete dizia ALISON. Escrito da mesma forma e tudo.
        - Que pobre garoto? - perguntou ela. 
        Alison apontou para a tela.
        - Ningum nunca fala do namorado. Ele deve ter ficado de corao partido.
        Aria olhou para a tela, perplexa. Ela apontou para a imagem congelada de Ian.
        - Aquele no  o namorado dela. Ele est com a garota que est na cozinha. Ela no aparece na tela.
        - No? - Alison deu de ombros e comeou a passar pano no balco de novo. - O jeito como eles esto sentados... eu s presumi.
        Aria no sabia o que dizer. Ela colocou o vdeo no comeo, de novo, confusa. Ela e suas amigas tentaram bisbilhotar o telefone de Ali, Ali voltou, Melissa 
e Ian sorriram, tomada cinematogrfica do telefone, fim.
        Ela passou o vdeo mais uma vez, desta vez mais devagar. Spencer lentamente rearrumou sua coroa. O telefone de Ali arrastou-se pela tela. Ali voltou, todas 
as expresses lnguidas e contorcidas. Em vez de passar correndo, Melissa se arrastou. De repente, ela notou algo no canto da tela: um pedacinho de uma mozinha 
delicada. A mo de Ali. Ela diminuiu a velocidade dos quadros. A cada poucos instantes, a mozona e a mozinha se encontravam. Os dedinhos entrelaados.
        Aria engasgou.
        A cmera subiu. Mostrou Ian, que estava olhando para alguma coisa alm da cmera.  direita, estava Spencer, olhando abobada para Ian, sem notar que ele 
e Ali estavam se tocando. A coisa toda aconteceu numa piscada. Mas depois de ver aquilo, tudo ficava mais do que bvio.
        Algum queria algo de Ali. O assassino dela est mais perto do que voc pensa.
        Aria sentiu nusea. Todas sabiam que Spencer gostava de Ian. Ela falava sobre ele a todo instante: de como a irm dela no o merecia, de como ele era engraado, 
de como ele era fofo quando jantava em sua casa. E todas elas tinham imaginado se Ali estava guardando um grande segredo - poderia ter sido isso. Ali deve ter contado 
para Spencer. E Spencer no conseguiu suportar.
        Aria colocou mais peas no lugar. Ali tinha fugido do celeiro de Spencer... e apareceu no muito longe dali, em um buraco em seu prprio quintal. Spencer 
sabia que os trabalhadores iam encher o buraco com concreto no dia seguinte. A mensagem de A dizia: Todas vocs conheciam cada centmetro do quintal dela. Mas, para 
uma de vocs foi to, to fcil.
        Aria sentou-se, esttica por alguns segundos, depois pegou seu telefone e ligou para o nmero de Emily. O telefone tocou seis vezes antes que Emily atendesse.
        - Al? -A voz da Emily soava como se ela tivesse chorado.
        - Eu acordei voc? - perguntou Aria.
        - Eu no dormi ainda. 
        Aria franziu a testa. 
        -Voc est bem?
        - No. - A voz de Emily falhou. Aria ouviu uma fungada. - Meus pais vo me mandar embora. Eu vou embora de Rosewood pela manh. Por causa de A.
        Aria recostou-se.
        - O qu? Por qu?
        - Nem vale a pena falar sobre isso. - Emily parecia derrotada.
        - Voc tem que encontrar comigo - disse Aria. - Agora mesmo.
        -Voc no ouviu o que eu disse? Estou de castigo. Estou alm de apenas estar de castigo.
        - Voc precisa me encontrar. - Aria se virou na cabine, tentando esconder o mximo possvel dos funcionrios da lanchonete o que estava prestes a dizer.
        - Eu acho que sei quem matou Ali. 
        Silncio.
        - No, voc no sabe.
        - Eu sei. Ns temos que ligar para Hanna.
        Um sonho arranhado veio do lado da ligao da Emily. Depois de uma curta pausa, sua voz voltou.
        - Aria - sussurrou ela. - Eu tenho outra ligao.  a Hanna.
        Uma sensao de frio passou por Aria.
        - Coloque em conferncia.
        Ouviu-se um dique, e Aria ouviu a voz de Hanna. 
        -Vocs duas - comeou Hanna. Ela parecia sem flego e a conexo estava ruim, como se Hanna estivesse falando atravs de um ventilador. - Vocs no vo acreditar 
nisso. A ferrou tudo, quer dizer, eu acho que A ferrou. Eu recebi uma mensagem de um nmero que eu conheo e, esse nmero... 
        Ao fundo, Aria ouviu uma buzina.
        - Me encontrem no nosso lugar de sempre - disse Hanna. - Os balanos de Rosewood Day.
        -  Certo. - Aria respirou fundo. - Emily, voc pode me pegar na Lanchonete Hollis?
        - Claro - sussurrou Emily.
        - Bom. Andem logo - apressou Hanna.
35
SUSSURROS VINDOS DO PASSADO
Spencer fechou os olhos. Quando os abriu, estava em p do lado de fora do celeiro, em seu quintal. Ela olhou em volta. Teria sido transportada at ali? Ser que 
ela havia fugido e no se lembrava?
        De repente, a porta do celeiro foi escancarada e Ali saiu de l pisando com fora.
        -Tudo bem - disse Ali sobre o ombro, balanando os braos confiante. -Vejo voc por a. - Ela passou direto por Spencer, como se a amiga fosse um fantasma.
        Era, outra vez, a noite em que Ali desaparecera. A respirao de Spencer ficou mais pesada. Embora no quisesse estar ali, sabia que precisava ver aquilo 
tudo - para se lembrar do mximo que conseguisse.
        -Tudo bem! - ouviu a si mesma gritar de dentro do celeiro. Enquanto Ali seguia de forma intempestiva pela trilha do quintal, uma Spencer mais jovem e menor 
correu at a varanda.
        - Ali! - gritou a Spencer de treze anos, olhando em volta.
        E, ento, foi como se a Spencer de dezessete anos e a Spencer de treze se fundissem em uma s. Subitamente, ela podia sentir todas as emoes que sentira 
na poca. Havia medo: o que fizera, mandando Ali ir embora? Havia paranoia: nunca nenhuma delas desafiara Ali. E Ali estava brava com ela. O que iria fazer?
        - Ali! - gritou Spencer. As pequenas lanternas chinesas que iluminavam o caminho at a casa principal forneciam uma iluminao fraca. Parecia que havia alguma 
coisa se movimentando na floresta. Anos antes, Melissa havia contado a Spencer que trolls malvados viviam nas rvores. Dissera que os trolls odiavam Spencer e queriam 
arrancar os cabelos dela.
        Spencer andou at o lugar onde a trilha do quintal se dividia: ela poderia ir ou em direo a sua casa ou at a floresta que margeava a propriedade. Desejou 
ter trazido uma lanterna. Um morcego deu um rasante nas rvores. Conforme ele se afastava, Spencer notou que, mais adiante na trilha, perto da floresta, algum tinha 
se agachado e estava olhando para um celular. Ali.
        - O que voc est fazendo? - chamou Spencer. 
        Ali estreitou os olhos.
        - Eu vou para um lugar muito mais bacana do que ficar aqui com vocs.
        Spencer ficou tensa.
        -Tudo bem - assentiu ela, orgulhosa. -V mesmo.
        Ali apoiou seu peso numa s perna, fazendo pose. Os grilos trilaram pelo menos umas vinte vezes antes que ela falasse de novo.
        -Voc tenta roubar tudo de mim. Mas voc no pode ter isso.
        - No posso ter o qu? - Spencer tremia, vestida com sua camiseta de tecido fino.
        Ali riu com maldade.
        -  Voc sabe. 
        Spencer piscou.
        - No... no sei.
        -Ah, qual ! Voc leu sobre isso no meu dirio, no leu?
        - Eu no leria seu dirio idiota - rebateu Spencer. - Eu no dou a mnima.
        - At parece. - Ali deu um passo na direo de Spencer. - Voc liga at demais.
        -Voc est delirando - sibilou Spencer.
        - No, no estou. - Ali tinha chegado bem perto dela. - Voc est.
        De repente, Spencer se encheu de raiva. Ela se inclinou para a frente e empurrou Ali pelos ombros. O gesto teve fora suficiente para fazer com que Ali cambaleasse 
para trs, perdendo o equilbrio na trilha, que estava escorregadia por causa dos pedregulhos. A Spencer mais velha estremeceu. Ela se sentiu como uma prisioneira, 
sendo arrastada para seu ltimo passeio. Uma certa surpresa cruzou o rosto de Ali, mas ela rapidamente voltou a provocar Spencer.
        - Amigas no empurram amigas.
        - Bem, talvez ns no sejamos amigas.
        - Acho que no - concordou Ali. Seus olhos no paravam de se mexer. A expresso em seu rosto indicava que ela tinha algo muito bom para dizer. Houve uma 
pausa longa antes que ela falasse, como se estivesse escolhendo as palavras com muito, muito cuidado. Vamos l, Spencer apressou a si mesma: LEMBRE-SE.
        -Voc achou que beijar Ian era uma coisa to especial - rosnou Ali -, mas, sabe o que ele me disse? Que voc nem sabia beijar direito.
        Spencer prestou ateno ao rosto de Ali.
        - Ian... espera a. Ian disse isso a voc? Quando?
        - Quando samos num encontro.
        Spencer a encarou.
        Ali revirou os olhos.
        -Voc mente to mal, fingindo que no sabe que ns estamos juntos. Mas claro que voc sabe, Spence.  por isso que voc gosta dele, no ? Porque eu estou 
com ele? Porque sua irm est com ele? - Ela deu de ombros. -A nica razo para ele ter beijado voc na outra noite foi eu ter pedido que ele fizesse isso. Ele no 
queria, mas eu implorei.
        Os olhos de Spencer quase saltaram.
        - Por qu?
        Ali deu de ombros.
        - Eu quis ver se ele seria capaz de fazer qualquer coisa por mim. - Ela fez uma careta zombeteira. - Voc acreditou mesmo que ele gostava de voc?
        Spencer deu um passo para trs.Vaga-lumes piscavam pelo cu. Havia um sorriso venenoso no rosto de Ali. No Jaa isso, gritou Spencer para si mesma. Por 
favor, no importa! No faa!
        Mas aconteceu, de qualquer forma. Spencer avanou e empurrou Ali com toda a fora que podia. Ali escorregou para trs, seus olhos arregalados de susto. Ela 
bateu contra o muro de pedras que circundava a propriedade dos Hastings. Houve um barulho terrvel de algo se quebrando. Spencer cobriu os olhos e se virou. O ar 
tinha um cheiro metlico, de sangue. Uma coruja piou nas rvores.
        Quando ela tirou as mos dos olhos, estava de volta a seu quarto, em posio fetal e gritando.
        Spencer sentou e olhou para o relgio. Eram duas e meia da manh. Sua cabea latejava. As luzes ainda estavam acesas, ela estava deitada por cima das cobertas 
e ainda vestia o vestido de festa preto e o colar Elsa Peretti de contas prateadas. No tinha lavado o rosto ou escovado o cabelo cem vezes, rituais que sempre cumpria 
antes de ir para a cama. Passou as mos pelos braos e as pernas. Tinha manchas vermelhas nas coxas. Quando as tocou, sentiu dor.
        Ela tampou a boca com a mo. Aquela lembrana! Soube imediatamente que era verdadeira. Ali estava com Ian. E ela havia esquecido tudo sobre aquilo. Era essa 
a parte da noite que estava faltando.
        Foi at a porta, mas a maaneta no virou. Seu corao comeou a bater mais rpido.
        - Ol? - ela tentou chamar. - Tem algum a? Estou trancada.
        Ningum respondeu.
        Spencer sentiu sua pulsao acelerar. Alguma coisa parecia muito, muito errada. Parte da noite voltou de repente  sua mente. O jogo de Scrabble. MENTIROSA 
SJH. O envio do trabalho de Melissa para o concurso Orqudea Dourada. E... depois, o qu? Ela colocou as mos sobre a coroa em sua cabea, tentando forar aquela 
lembrana a aflorar. E depois, o qu?
De um momento para o outro, no podia mais controlar sua respirao. Ela comeou a hiperventilar, caindo de joelhos no tapete branco. Acalme-se, disse a si mesma, 
se encolhendo toda e tentando respirar mais devagar: Inspirar, expirar. Mas pareceu que seus pulmes estavam cheios de bolinhas de isopor. Parecia que ela estava 
se afogando.
        - Socorro! - gritou ela, debilmente.
        - Spencer? - soou a voz de seu pai do outro lado da porta. - O que est acontecendo?
        Spencer levantou e correu para a porta.
        - Papai? Estou trancada aqui! Me deixe sair!
        -  Spencer, voc est a para seu prprio bem. Voc nos assustou.
        - Assustei vocs? - perguntou Spencer. - Ma... mas como? - Ela olhou para o prprio reflexo no espelho pendurado na porta. Sim, ainda era ela. No havia 
acordado na vida de outra pessoa.
        - Ns levamos Melissa para o hospital - informou o pai dela.
        Spencer perdeu o equilbrio de repente. Melissa? Hospital? Por qu? Ela fechou os olhos e teve um lampejo de Melissa caindo na sua frente, pelas escadas. 
Ou essa era Ali caindo? As mos de Spencer tremiam. Ela no conseguia se lembrar.
        - Melissa est bem?
        - Esperamos que sim. Fique a - disse o pai, do outro lado da porta, parecendo cauteloso. Talvez estivesse com medo dela, talvez fosse por isso que ele no 
entrava no quarto.
        Ela se sentou na cama, atordoada, por um longo tempo. Como  que podia no se lembrar de nada daquilo? Como podia no se lembrar de ter machucado Melissa? 
E se tivesse feito um monte de coisas horrveis e, no instante seguinte, apagado todas de sua mente?
        O assassino de Ali est bem na sua frente, A tinha dito. No momento em que Spencer estava se olhando no espelho. Ser que isso era possvel?
        O celular dela, que estava sobre a escrivaninha, comeou a tocar. Spencer levantou-se devagar e olhou para a tela de seu Sidekick. Hanna.
        Spencer abriu o telefone. Ela encostou o ouvido no aparelho.
        -  Spencer? - disse Hanna sem rodeios. - Eu sei de uma coisa. Voc precisa me encontrar.
        O estmago de Spencer ficou apertado. E sua mente rodopiou. O assassino de Ali est bem na sua frente. Ela matara Ali. Ela no matara Ali. Era como ir tirando 
as ptalas de uma flor: bem me quer, mal me quer, ele me ama, ele no me ama. Talvez ela pudesse se encontrar com Hanna e... e o qu? Confessar?
        No. Aquilo no podia ser verdade. Ali tinha acabado em um buraco no quintal de sua casa... no na trilha que levava ao muro de pedras. Ela no era forte 
o suficiente... era? Queria contar a algum sobre isso. Hanna. E Emily. Aria, tambm. Elas diriam que isso tudo era uma loucura, que no podia ter sido ela quem 
matara Ali.
        - Tudo bem - grunhiu Spencer. - Onde?
        - Nos balanos da Escola Primria Rosewood Day. Nosso lugar. V o mais rpido que puder.
        Spencer olhou em volta. Podia sair pela janela e descer pelo lado de fora da casa, seria quase to fcil quanto chegar ao topo da parede de escalada da academia.
        - Tudo bem - sussurrou ela. - Estarei l.
36
ISSO TUDO VAI ACABAR
As mos de Hanna tremiam tanto que ela mal conseguia dirigir. As curvas da estrada para a Escola Primria Rosewood Day pareciam mais escuras e assustadoras que o 
habitual. Ela desviou, pensando ter visto alguma coisa se movendo bruscamente na frente de seu carro, mas, quando olhou pelo espelho retrovisor, no havia nada. 
Era raro que outros carros passassem na direo oposta, mas, de repente, quando ela j estava chegando ao topo da elevao, no muito longe de Rosewood Day, um carro 
surgiu atrs dela. Os faris pareciam queimar a parte de trs da cabea de Hanna.
        Acalme-se, pensou ela. Ele no est seguindo voc.
        Sua cabea girava. Ela sabia quem era A. Mas como? Como era possvel que A soubesse tanto sobre Hanna coisas que, teoricamente, A no poderia saber? Talvez 
a mensagem de texto tivesse sido um engano. Talvez A tivesse pegado o telefone de outra pessoa para despist-la.
        Hanna estava chocada demais para pensar naquilo com cuidado. O nico pensamento que ia e vinha sem parar em sua mente era: Isso no faz sentido. Isso no 
faz sentido.
        Ela deu uma olhada pelo retrovisor. O carro ainda estava l. Ela respirou fundo e olhou para o celular, pensando em ligar para algum. Para Wilden? Ser 
que ele se despencaria at ali por causa de uma suspeita to sem fundamento? Ele era um policial - era obrigado a fazer isso. Ela pegou o telefone e o carro de trs 
piscou os faris. Ser que ela deveria encostar? Deveria parar?
        O dedo de Hanna estava sobre o telefone, pronto para ligar para a polcia. E, ento, subitamente, o carro passou ao seu lado e a ultrapassou pela esquerda. 
Era um carro sem identificao - talvez um Toyota - e Hanna no conseguia ver seu interior. O automvel voltou para a pista em que Hanna estava, e depois desapareceu 
na distncia. Em poucos segundos, seus faris traseiros tinham desaparecido.
        O estacionamento do playground da Escola Primria de Rosewood Day era amplo e comprido, dividido por pequenos jardins, repletos de rvores nuas, grama espetada 
e montes de folhas que impregnavam o ar com seu cheiro. Alm dos limites do estacionamento, ficava o playground. Os brinquedos eram iluminados por uma nica lmpada 
fluorescente que fazia com que parecessem esqueletos. Hanna estacionou em uma vaga no canto sudeste do terreno - era o mais prximo da cabine de informaes do parque 
e de uma cabine para emergncias que tinha um telefone ligado direto  delegacia. Apenas estar perto de algo que dizia Polcia j a fazia sentir-se melhor. As outras 
ainda no haviam chegado, ento Hanna ficou de olho na entrada de carros.
        Eram quase trs da manh, e Hanna tremia sob a camiseta de Lucas, sentindo arrepios nas pernas nuas. Ela havia lido, certa vez, que s trs da manh as pessoas 
atingem os estgios mais profundos do sono - e que isso era o mais prximo que se podia chegar da morte. O que significava que, naquele momento, ela no podia contar 
com a maioria dos habitantes de Rosewood para ajud-la. Eles eram todos cadveres, e estava tudo to quieto que ela conseguia ouvir o motor do carro desacelerando 
e sua prpria respirao lenta do tipo por-favor-fique-calma. Hanna abriu a porta do carro e ficou em p em cima da linha amarela pintada no cho que demarcava sua 
vaga. Era como se fosse um crculo mgico. Dentro dele, estava a salvo.
        Elas vo estar aqui logo, disse a si mesma. Dentro de poucos minutos isso tudo ter acabado. No que Hanna tivesse qualquer ideia do que estava para acontecer. 
Ela no tinha certeza. No tinha pensado nisso ainda.
        Uma luz apareceu na entrada da escola e o corao de Hanna se alegrou. Os faris de uma caminhonete iluminaram as rvores e ento se viraram lentamente em 
sua direo. Hanna apertou os olhos. Eram elas?
        - Oi? - chamou ela, baixinho.
        A caminhonete aproximou-se do lado norte do estacionamento, passando pelo prdio do departamento de artes do ensino mdio, pelo estacionamento dos alunos 
e pelo campo de hquei. Hanna comeou a agitar os braos. Tinha de ser Emily e Aria. Mas as janelas do carro eram escuras.
        -  Oi? - gritou ela de novo. Nenhuma resposta. E, ento, viu outro carro virar no estacionamento e vir devagar em sua direo. A cabea de Aria estava para 
fora da janela do passageiro. Uma sensao de alvio reconfortante percorreu todo o corpo de Hanna. Ela acenou e foi na direo dela. Primeiro, andou; depois, acelerou 
o passo. Em seguida, correu para valer.         Ela estava no meio do estacionamento, quando Aria gritou:
        - Hanna, cuidado!
        Hanna virou-se para a esquerda e seu queixo caiu, sem que ela entendesse, num primeiro momento, o que estava acontecendo. A caminhonete estava vindo direto 
em sua direo.
        Barulho de pneus cantando. Hanna sentiu cheiro de borracha queimada. Ela congelou, sem saber ao certo o que faze;.
        - Espera! - ela se ouviu dizendo para a janela escura do SUV O carro continuou vindo, cada vez mais rpido. Mexam-se, disse ela para suas pernas, mas elas 
pareciam duras e secas, como cactos.
        - Hanna! - gritou Emily. - Ah, meu Deus!
        A coisa toda s durou um segundo. Hanna nem sequer entendeu o que a atingiu at que estivesse no ar, e no percebeu que havia sido erguida at que caiu no 
calamento. Alguma coisa nela se quebrou. E, depois, houve dor. Ela queria gritar, mas no conseguiu. Os sons pareciam amplificados - o ronco do motor do carro, 
os gritos das amigas, at mesmo seu corao bombeando o sangue soava alto demais para ela.
        Hanna moveu o pescoo para o lado. Sua bolsinha cor de champanhe estava cada a poucos metros de onde ela estava; seu contedo havia sido lanado para fora, 
como os doces de um daqueles bales surpresa de festas de aniversrio. O carro tinha passado por cima de tudo, tambm: seu tubo de rmel, as chaves de seu carro, 
seu vidrinho de Chlo. O BlackBerry novo havia sido esmagado.
        - Hanna! - gritou Aria. Pareceu que ela estava chegando perto. Mas Hanna no conseguia virar a cabea para olhar. E, ento, tudo desapareceu.
37
ERA NECESSRIO
- Ah, meu Deus! - berrou Aria.
        Ela e Emily chegaram perto do corpo contorcido de Hanna e comearam a gritar:
        - Hanna! Ah, meu Deus! Hanna!
        - Ela no est respirando - lamuriou-se Emily. - Aria, ela no est respirando!
        -Voc est com seu celular a? - perguntou Aria. - Ligue para a emergncia!
        Emily pegou o celular tremendo, mas o aparelho escorregou de suas mos e quicou pelo cho do estacionamento, indo parar perto da bolsa esmagada de Hanna. 
Emily havia comeado a entrar em pnico quando apanhara Aria e ela lhe contara tudo - sobre os recados assustadores de A, sobre seus sonhos, sobre Ali e Ian e sobre 
como poderia ter sido Spencer quem matara Ali.
        Primeiro, Emily tinha se recusado a acreditar, mas, ento, foi tomada por uma onda de horror e entendimento. Ela explicou que no muito antes de desaparecer, 
Ali confessara que andava saindo com algum.
        - E ela deve ter contado para Spencer - explicara Aria. -Talvez fosse por isso que elas estavam brigando durante todos aqueles meses antes do final das aulas.
        - Emergncia. Em que posso ajudar? - Aria ouviu a chamada ser atendida no viva-voz do celular de Emily.
        - Um carro acaba de atropelar minha amiga! - informou Emily. - Estou no estacionamento de Rosewood Day! Ns no sabemos o que fazer!
        Enquanto Emily berrava os detalhes para a atendente, Aria encostou os lbios nos de Hanna e tentou fazer respirao boca a boca, como aprendera nas aulas 
de primeiros socorros, na Islndia. Mas ela no sabia se estava fazendo do jeito certo.
        -Vamos, Hanna, respire - implorou ela, apertando o nariz da amiga.
        -  Fique na linha at que a ambulncia chegue a. - Aria podia ouvir a voz da atendente da emergncia pelo telefone de Emily, que se inclinou e tocou a camiseta 
surrada de Rosewood Day de Hanna. Ento, ela se afastou, como se estivesse com medo.
        - Ah, meu Deus, por favor, no morra... - Ela deu uma olhadela para Aria. - Quem poderia ter feito isso?
        Aria olhou em volta. Os balanos oscilavam para a frente e para trs com a brisa que soprava. As bandeiras tremulavam nos mastros. A vegetao em volta do 
playground era escura e densa. De repente, Aria viu uma figura de p, perto das rvores. Ela tinha cabelo louro-escuro e usava um vestido curto e preto. Algo em 
seu rosto a deixava selvagem, enlouquecida. Estava olhando direto para Aria, que deu um passo para trs no calamento. Spencer.
        -  Olha ali! - arfou Aria, apontando para as rvores. Mas, assim que Emily moveu a cabea, Spencer desapareceu nas sombras.
        As sirenes a atordoavam. Demorou um instante para Aria entender que era seu telefone celular. E, ento, o telefone de Emily tambm emitiu um som. O informe 
que indicava uma nova mensagem de texto apareceu na tela. Aria e Emily trocaram um olhar familiar e temeroso. Devagar, Aria tirou o Treo de dentro da bolsa e olhou 
para a tela.
        - Ai, no - sussurrou Emily.
        O vento parou de soprar de repente. As rvores ficaram imveis como esttuas. Sirenes eram ouvidas a distncia.
        - Por favor, no - choramingou Emily. A mensagem tinha apenas trs palavras.
        Ela sabia demais. - A
AGRADECIMENTOS
Perfeitas foi o livro mais difcil de escrever da srie Pretty Lttle Liars, porque havia muitas peas que agora tinham que se encaixar nos lugares certinhos para
que a histria funcionasse. Por isso, quero agradecer a todos os preparadores de originais to cuidadosos, aos impressores, diagramadores, revisores e s outras
pessoas brilhantes que ajudaram neste processo:Josh Bank e Les Morgenstern, que acompanharam Perfeitas desde o comeo, que passaram dias reunidos quebrando a cabea 
para pensar em como exatamente Spencer perderia a razo. Sou muito grata por ter vocs ao meu lado. As pessoas maravilhosas da HarperCollins, Elise Howard e Farrin 
Jacobs, que consertaram muitas coisas, cuidando de detalhes que eu muitas vezes deixei escapar. Lanie Davis, da Alloy, que desenhou cartazes geniais, sempre, sempre, 
sempre  disposio e f incansvel. E, por ltimo, mas no menos importante, minhas pacientes, muitssimo competentes e maravilhosamente inovadoras editoras - Sara 
Shandler, da Alloy, e Kristin Marang, da HarperCollins - cujo trabalho duro realmente ajudou a colocar este livro nos trilhos. Eu adorei que vocs conhecessem as 
personagens to bem, gostassem da srie tanto quanto eu e acreditassem de verdade em seu sucesso. Sem dvida somos o time Pretty Little Liars, e eu proponho que 
formemos um time de boliche, talvez uma equipe de nado sincronizado ou quem sabe pudssemos simplesmente usar camisas da Lacoste combinando.
        Muitos agradecimentos e meu amor para Nikki Chaiken, pelos conselhos profissionais sobre Spencer e a dra. Evans. Todo o meu amor para o meu marido maravilhoso, 
Joel, por sua pesquisa sobre qual tipo de avio poderia ser usado para escrever mensagens no cu e sobre o que acontece fisicamente com os carros quando eles batem 
uns nos outros; e que sempre leu todos os rascunhos deste livro - o que  surpreendente! Meu amor tambm para meus maravilhosos amigos e leitores, incluindo meus 
fabulosos pais, Shep e Mindy (nenhum bar elegante que serve vinho tinto poderia estar completo sem vocs), minha doce e leal prima, Coleen (nenhum bar chique estaria 
completo sem voc, tambm) e meu bom amigo Andrew Zaeh, que me mandou uma mensagem de texto assim que desceu do avio para me contar que algum estava lendo Pretty 
Little Liars a vinte mil ps de altura. E obrigada a todos aqueles cujas opinies e perguntas sobre a srie nos alcanaram.  uma delcia saber sobre vocs. Vocs 
so parte do time Pretty Little Liars tambm.
        E obrigada  garota boboca a quem este livro  dedicado - minha irm, Ali! Porque ela no  nada parecida com a Alison do livro, porque ns podemos passar 
horas envolvidas com o mundo mgico e irreal de pelicanos, corujas e das criaturas esquisitas que inventamos quando tnhamos seis anos, porque ela no surta quando 
fica sabendo que eu acidentalmente vesti sua roupa de trezentos e oitenta dlares da Rock and Republics, e porque tatuagens ficam muito bem na nuca dela - ainda 
que eu ache que ela deveria ter escolhido o rosto de um certo homem e uma guia enorme, em vez do que ela tatuou. Ali  sensacional com S maisculo e a melhor irm 
que qualquer um poderia pedir.
O QUE ACONTECE DEPOIS...
Oooooopa! Ento eu fiz uma baguncinha. Acontece. Eu tive uma vida cheia, coisas para fazer, pessoas para torturar. Como, por exemplo, quatro ex-melhores amigas bonitinhas.
        Sim, sim. Eu sei que voc ficou chateado por causa de Hanna. Nh. Supere. Eu j estou planejando o que vestir para o funeral dela: apropriadamente sbrio, 
mas com um pouquinho de brilho. Voc no acha que a pequena Hannakins iria querer que ns a prantessemos em grande estilo? Mas talvez eu esteja me adiantando - 
Hanna tem um histrico de retorno da morte...
        Enquanto isso, Aria no tem uma folguinha. Sua alma gmea est na cadeia. Sean a odeia. Ela no tem mais casa. O que ela pode fazer? Parece ser a poca adequada 
para uma mudana radical de vida - casa nova, amigos novos, quem sabe um novo nome. Mas tome cuidado, Aria - mesmo que a sua nova melhor amiga no veja quem voc 
 de verdade, eu enxergo longe. E voc sabe que eu no consigo guardar um segredo.
        Eu me pergunto como CONDENADA vai ficar no seu requerimento de vaga na universidade, prximo  informao de que ela era vice-representante de turma no ensino 
mdio. Parece que a Senhorita Orqudea Dourada est para trocar sua camiseta polo Lacoste verde-bandeira por um macaco laranja e piniquento. Mas  claro que Spencer 
no teria conseguido aquela nota perfeita se no tivesse tirado alguns truques da manga - como, vamos dizer, encontrar algum para culpar pelo assassinato de Ali. 
Mas sabe do que mais? Talvez ela tivesse razo.
        E quanto a Emily, indo viver com seus saudveis primos comedores de sucrilhos de Iowa? Ei, talvez no seja to ruim assim - ela ser uma adorvel agulha 
num enorme e velho palheiro de represso sexual, muito, muito longe de meus olhos indiscretos. At parece! Ela vai ficar maluca quando perceber que no pode se esconder 
de mim. Que coisa no?
        E, para terminar, com Hanna fora da jogada,  chegada a hora de eu encontrar uma nova vtima. "Quem?", pergunta voc. Bem, sua xeretinha, eu ainda estou 
decidindo isso. No que v ser muito difcil: todo mundo nesta cidade tem alguma coisa para esconder. Na verdade, h algo ainda mais delicioso que minha identidade 
borbulhando sob a superfcie brilhante de Rosewood.  um negcio bem escandaloso. Voc no acreditaria se eu contasse. Ento nem vou me dar ao trabalho. H! Voc 
sabe, adoro ser eu...
        Apertem os cintos, garotas. Nada  o que parece.
        Smack! - A
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